A Alameda de Ulmeiros da Guarda

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Quem acom­pa­nha a Som­bra Verde com regu­la­ri­dade, por certo que se recor­dará desta ala­meda de ulmei­ros (Ulmus minor Mil­ler1).

Desculpem-me a insis­tên­cia nes­tas árvo­res que mar­ca­ram a minha infân­cia e aju­da­ram a criar a minha admi­ra­ção por estes seres que, supos­ta­mente, deve­riam (sem­pre) mor­rer de pé, de pura velhice, como vene­rá­veis anciãos.

O pro­blema é que mui­tas vezes mor­rem viti­ma­das por doen­ças ou pela mão da igno­mí­nia humana. Infe­liz­mente, algu­mas das árvo­res da minha infân­cia mor­re­ram dessa forma ou são hoje, fruto de rola­gens bru­tais, uma pobre e pálida ima­gem do que foram no pas­sado. Quis o des­tino que a sorte des­tes ulmei­ros fosse dis­tinta, para melhor.

Mas terá sido mesmo o des­tino? Em vez de evo­car o des­tino, no qual não acre­dito e palpita-me que as árvo­res tam­bém não, pre­firo evo­car a per­so­na­li­dade des­tes ulmei­ros. Só mesmo esta espé­cie pode­ria ter a tei­mo­sia neces­sá­ria para resistir.

Este acto de resis­tên­cia, por parte des­tes ulmei­ros, é quase um desa­fio e uma pro­vo­ca­ção ao seu pró­prio des­tino. A cora­gem des­tas árvo­res, a per­sis­tên­cia em sobre­vi­ver, chega a roçar a ousadia…Sejamos hones­tos, estas árvo­res, em con­di­ções nor­mais, há muito que não exis­ti­riam. E porquê?

Em pri­meiro lugar, os ulmei­ros têm sido dizi­ma­dos por uma doença epi­dé­mica e mor­tal, a gra­fi­ose, pro­vo­cada por um fungo [Ophi­os­toma ulmi (Buis­man) Nannf.]. A espé­cie Ulmus minor é par­ti­cu­lar­mente sus­cep­tí­vel a esta doença, conhe­cida inter­na­ci­o­nal­mente pelas siglas DED, a qual se desen­volve no sis­tema vas­cu­lar dos ulmei­ros.
Em segundo lugar, a ousa­dia des­tas árvo­res não se reflec­tiu ape­nas na resis­tên­cia à doença, mas tam­bém no res­pec­tivo cres­ci­mento. De facto, em altura, supe­ram a mai­o­ria dos edi­fí­cios cir­cun­dan­tes do cen­tro da Guarda e, comparando-as com outras árvo­res da cidade, ape­nas as sequóias da cerca do hos­pi­tal as supe­ra­rão na sen­sa­ção de ver­ti­gem.
Infe­liz­mente, não é comum, no nosso país, a exis­tên­cia de árvo­res com mais de 30 metros no cen­tro de uma cidade ou vila.

Este con­junto de 11 ulmei­ros teve a sorte de ter sido plan­tado no que é hoje a cerca do aquar­te­la­mento da Guarda Naci­o­nal Repu­bli­cana (GNR), da cidade mais alta.
Se é ver­dade que a pri­meira ima­gem que asso­ci­a­mos à GNR não é a de defen­so­res das árvo­res, tal­vez este caso nos ajude a mudar de opi­nião, uma vez que foram os pró­prios mili­ta­res quem pediu a clas­si­fi­ca­ção desta ala­meda notável.

A clas­si­fi­ca­ção deste con­junto de árvo­res, por parte da Auto­ri­dade Flo­res­tal Naci­o­nal (AFN), aca­bou por ocor­rer no dia 29 de Julho do ano tran­sacto, dois dias antes de eu e do Miguel Rodri­gues nos ter­mos diri­gido ao local, pro­po­si­ta­da­mente para as medir e foto­gra­far. Era impos­sí­vel ter­mos tido melho­res notícias!

As medi­das obti­das foram as seguintes:

  • O maior PAP que obti­ve­mos foi de 4,21 m e o menor foi de 3,23 m. A média obtida para o PAP, dos 11 exem­pla­res, foi de 3,70 m.
  • Ao nível da altura, deci­di­mos medir ape­nas aquela que nos pare­ceu ser a árvore mais alta. O valor obtido foi de 35,50 m (Nota: na página da AFN, rela­tiva a estes ulmei­ros, é refe­rido o valor de 33 m como altura média).
  • Ao nível das dimen­sões da copa, revelou-se uma mis­são quase impos­sí­vel dis­cer­nir, indi­vi­du­al­mente, a copa de cada uma das árvo­res.
    Desta forma, e uma vez que as 11 copas fun­ci­o­nam, estru­tu­ral­mente, como um todo, optá­mos por medir o res­pec­tivo com­pri­mento… 68 metros de som­bra verde!

1 Sinó­nimo de Ulmus pro­cera Salisb.

  1. Publicado 7 de Setembro de 2009 às 21:57 | Link

    Estou encan­tada. Na minha infân­cia havia uma ala­meda de ulmei­ros que mor­re­ram um a um em 1980. Eram as arvo­res que eu subia… Com elas mor­reu uma parte de mim.
    Em 2003 estive a tra­ba­lhar em Elvas e fiquei muito feliz por­que na rua da escola havia uma almeda de ulmeiros.Dois ou três esta­vam doen­tes. Têm desa­pa­re­cido um a um.
    Neste momento o único que conheço é no adro da capela de Leceia, no con­se­lho de Oei­ras. Tenho que ir à Guarda. às vezes fazem-nos falta uma vozes da Infân­cia!!!
    Luz

  2. Guilherme dos Montes
    Publicado 8 de Setembro de 2009 às 23:32 | Link

    São mag­ni­fi­cos, os Ulmei­ros — a minha árvore pre­fe­rida, e vocês uns rapa­zes bem sim­pá­ti­cos que me abri­ram os olhos´para os ver mesmo ali no cen­tro da cidade da Guarda .

    mesmo à beira do TMG há lá um freixo monu­me­tal, de cer­teza que conhe­cem , é lin­dis­simo, ape­sar das cica­tri­zes de guerra

  1. Por O Carvalho-negral de Santana da Azinha a 9 de Setembro de 2009 às 0:11

    […] pas­sado dia 31 de Julho de 2008, após uma manhã pro­du­tiva onde visi­tá­mos a ala­meda de ulmei­ros situ­ada no cen­tro da Guarda, apro­vei­tá­mos o período pré­vio à hora de almoço para […]

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