Preâmbulo (As Maiores Árvores do Distrito da Guarda)
A Associação Transumância e Natureza (ATN), com sede em Figueira de Castelo Rodrigo, é um dos exemplos de como é possível, fora dos grandes centros urbanos do litoral, existirem projectos válidos e sustentados na área da educação e divulgação ambiental.
Agrada-me particularmente, no caso desta associação, o facto de não perder tempo a desculpabilizar-se com a interioridade ou com o seu carácter regional, como tantas vezes acontece noutros casos para justificar a incapacidade em planear e implementar projectos.
Até porque, em muitas situações, não são necessários meios significativos para concretizar uma boa ideia. Exemplo disso foi o concurso Em Busca da Maior Árvore que a ATN levou a efeito, no ano de 2007, o qual visava envolver a população escolar da região na inventariação das maiores árvores do distrito da Guarda.
Acresce que de fora deste concurso ficaram os exemplares já classificados como árvores de interesse público, pela Autoridade Florestal Nacional, uma vez que um dos objectivos era identificar novos recordistas dentro de um conjunto de dez espécies autóctones do distrito.
Para além dos resultados obtidos, com a identificação de diversos exemplares notáveis, realço o notável trabalho de sensibilização da população em idade escolar para a importância das árvores monumentais, não apenas pelo seu valor biológico e natural, mas igualmente pela sua importância cultural para as comunidades nas quais estão inseridas.
Claro que posso ser acusado de estar a inflacionar os elogios à iniciativa, afinal de contas estou a ser advogado em causa própria uma vez que, apesar de não ser membro da ATN e não ter tido qualquer responsabilidade na organização deste concurso, colaborei como júri na selecção dos melhores exemplares.
Apesar de tudo, considero que esta minha pequena colaboração não deturpa, por completo, a minha independência para analisar os méritos deste concurso.
Para o futuro, para além dos méritos que este concurso teve associados à sensibilização dos mais novos para a importância das árvores, ficou a catalogação de diversos exemplares notáveis.
E é precisamente sobre um desses exemplares que me vou debruçar de seguida e ao qual correspondem as fotografias que acompanham este texto.
Em Busca de Gigantes nas Paisagens Serranas
No Verão passado, eu e o Miguel Rodrigues dedicámos três dias das nossas férias, para fotografar e medir árvores na zona da Serra da Estrela.
Apesar de três dias parecer muito tempo, o conjunto de árvores que tínhamos para visitar era extenso. Queríamos ter visitado vários dos exemplares identificados pelos participantes no concurso da ATN, as quais eu conhecia apenas por intermédio de fotografias, mas tal revelou-se impossível. Na hora de escolher apenas uma dessas árvores não hesitei, tinha que conhecer a que mais me tinha impressionado.
A escolha recaiu sobre um carvalho-negral (Quercus pyrenaica Willd.) situado nas imediações das aldeias de João Bragal (de Cima e de Baixo), no concelho da Guarda.
Como nos tem acontecido em muitas outras situações, foi preciso alguma persistência para encontrar esta árvore. Mas, uma vez mais, a espera e o esforço foram devidamente recompensados.
As indicações que o António Monteiro, da direcção da ATN, me tinha dado por e-mail eram bastante boas e incluíram mesmo um mapa do Google Earth.
Com estas indicações do António deveria ter sido uma tarefa simples mas, apesar das dimensões majestosos deste carvalho-negral, encontrá-lo revelou-se tão problemático como encontrar uma agulha num palheiro ou não estivéssemos numa zona com extensos bosques desta espécie.
Mesmo com imagens por satélite, encontrar uma única árvore no meio de milhares, pode revelar-se uma tarefa quase impossível, sobretudo quando não se conhece ao pormenor a área em questão ou, como era o caso, quando não se tem um GPS.
Claro que as pessoas também se orientavam antes da invenção do GPS recorrendo à mais óbvia das ferramentas: perguntar às pessoas da terra!
Porém, perguntar em João Bragal por um carvalho de grandes dimensões, tem a mesma utilidade prática que, no meio do Alentejo, perguntar por uma azinheira que se destaque das demais.
As pessoas conhecem dezenas de árvores idênticas, sendo que, muito provavelmente, não conhecem a que especificamente nos interessa. E conceitos como “de grandes dimensões” são muito relativos, pois dependem do que cada pessoa conhece e, como tal, possa considerar superior ao normal.
Resultado? Ninguém nos sabia indicar o carvalho pretendido ou, em alternativa, referiam-nos mil e uma possibilidades distintas.
Finalmente o Carvalho!
E foi já um pouco desanimados, pelo tempo perdido e pela possibilidade de não encontrarmos a árvore desejada, que decidimos almoçar num afamado restaurante local.
Em pleno mês de Agosto, com meio Portugal a banhos, batemos com o nariz na porta e o desânimo instalou-se, agora de forma redobrada. E foi num estado de completa letargia, sentados à porta do dito restaurante que, enquanto fazíamos planos para a tarde, a solução veio ter connosco.
A solução entenda-se, chegou na forma de um rapaz bastante prestável que, para nossa sorte, conhecia a árvore em questão por uma conjugação incrível de coincidências. É um dos lados bons das terras pequenas, nas quais se encontra sempre alguém que é familiar, amigo ou conhecido de quem nos possa dar a resposta ansiada.
Este rapaz, do qual, infelizmente, não retive o nome, não podia cumprir melhor estas premissas, pois trabalhava para o dono do terreno no qual se situava o dito carvalho.
Este rapaz tinha, curiosamente, como um das suas responsabilidades diárias, guardar o gado no dito terreno. Conhecia bem o carvalho, pois então! E até sabia que o mesmo tinha participado no concurso das maiores árvores do distrito.
E logo se prontificou, não para nos indicar o caminho exacto para lá chegar, mas nos levar lá, de boleia, na sua carrinha. Perfeito!
As Dimensões
O carvalho é soberbo, como atestam as fotografias, que não me deixam mentir. A primeira sensação ao vê-lo, ali a poucos metros de distância, ultrapassou a imagem que dele construíra durante muito tempo, a partir das imagens que observara no ecrã do computador. E nem sempre a realidade supera a imaginação…
Conheço negrais mais altos, com maior volume de copa mas não conheço nenhum com um tronco destas dimensões.
Para ser mais exacto, o valor do PAP obtido foi de 5,86 metros, obtido na parte superior da árvore, uma vez que a mesma nasceu numa zona inferior do terreno e tendo crescido encostada a uma ladeira, torna-se impossível perfazer a circunferência do tronco a partir da sua verdadeira base (situação visível na fotografia mais à esquerda).
Em situações como esta, e pese embora não exista nenhuma espécie de convenção, nacional ou internacional, quanto aos procedimentos para obter as dimensões de uma árvore, é mais usual medir o perímetro do tronco, considerando a base na parte superior do terreno.
Este facto leva a que devamos ser cautelosos quanto à comparação com outros exemplares da mesma espécie. Mesmo assim, devo referir que não conheço nenhum registo escrito que mencione um carvalho-negral, no nosso país, com maior grossura de tronco.
Por curiosidade, é de referir que no livro Árboles, Leyendas Vivas, de Susana Domínguez Lerena, que reúne 100 espécimes arbóreos notáveis da geografia espanhola, também não surge nenhum carvalho-negral que supere o de João Bragal, em termos de perímetro de tronco.
Em relação à altura, o valor obtido foi de 17 metros, enquanto o diâmetro médio da copa ronda os 19 metros.
Por último, é de referir que, tal como é bem visível na fotografia mais à direita, a árvore já se encontra amputada de um dos seus ramos principais.
Como nos contou o rapaz que nos acompanhou ao terreno, e segundo lhe contou o seu pai, este ramo terá sido originalmente danificado em virtude de um ou mais temporais. Deste modo e na iminência que o mesmo pudesse cair, o dono do terreno mandou que o mesmo fosse cortado.
No entanto, nesse processo e por uma infeliz ironia do destino, o lenhador destacado para cortar este ramo acabou morto, esmagado sob o seu peso. Perante este dramático e inesperado desfecho, o dono do terreno terá jurado na altura que, para evitar mais mortes, jamais cortaria esta árvore.
Apesar deste triste infortúnio, a monumentalidade deste carvalho apresenta-se, aos nossos olhos, sem mácula e pronta para ser descoberta.




Caro Pedro,
em nome da ATN quero agradecer as palavras de apoio que nos dirige. Dão-nos motivação para continuar o nosso trabalho com mais paixão ainda.
Que possamos continuar a explorar esses campos, em busca de árvores com história, com esta de João Bragal.
Alice Gama
Bióloga ATN
Olá Alice.
Eu é que agradeço, uma vez mais, a honra de me terem convidado a participar na iniciativa.
Terão da minha parte, e da Árvores de Portugal, total abertura para vos ajudar a divulgar futuras iniciativas, em particular as ligadas às árvores e florestas.
Felicidades para o vosso trabalho. Cumprimentos.
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[…] e a solução encontrada em Almeida foi esta. Esta árvore foi uma das que foi identificada no concurso escolar de árvores notáveis (Árvores de Portugal) promovido pela Associação Transumância e Natureza. Belo exemplo para os […]