É sem dúvida um disparate visitar Oxford, ou qualquer outro chamariz turístico, num suado dia de Agosto. Mas quem for simples assalariado, e não especulador de sucesso ou herdeiro de fortunas, resigna-se a fazer férias no mês que o hemisfério norte para isso reservou. E pacatez e isolamento são artigos de luxo, que certamente não estão à venda em Oxford, muito menos em Agosto. Nesse mês não há estudantes, e o resto da comunidade académica, advertida pela experiência, demandou paragens mais sossegadas. Os colleges, no interregno estival, esquecem o estudo e a erudição e rendem-se à lucrativa invasão turística: não se pode visitar claustro, capela, refeitório ou biblioteca por menos de duas libras.
Maior disparate do que visitar Oxford em Agosto é não visitar Oxford por só poder fazê-lo em Agosto. Porque o que a cidade tem para mostrar é genuíno: uma das universidade mais antigas do mundo, onde os históricos edifícios não foram abandonados, nem convertidos em museus, nem reservados a funções protocolares, e são, ainda hoje, o centro da vida estudantil. (Em Portugal, onde o novo-riquismo é a regra, as universidades parecem todas acabadinhas de criar. A mais antiga, a de Coimbra, ocupa edifícios do tempo do Estado Novo, guardando uma ou duas relíquias para iludir turistas.)
Depois de peregrinar pelos colleges, é grande a tentação de procurar lugar menos assediado. O Jardim Botânico da Universidade de Oxford tem entrada pela High Street, em frente do Magdalen College, logo antes da ponte sobre o rio Cherwell. Fundado em 1633, é o mais antigo jardim botânico da Grã-Bretanha e, com os seus 1,8 hectares, o mais compacto. Pequeno, sem dúvida, para o número de visitantes que a ele afluem, apesar da entrada paga.
Pequenez que afinal é enganadora, tal a variedade de plantas distribuídas por canteiros, estufas e lagos; as duas horas da minha visita para pouco deram. Impressionam o arrumo e o apuro geométrico do jardim: de um lado as escolas sistemáticas num rectângulo dividido em oito talhões; do outro, transposto um muro com portal, uma secção triangular mais informal, onde os caminhos são curvilíneos e há muito colorido de flores mesmo no auge do Verão.
Não mais do que duas dezenas de árvores caberão em recinto tão escasso. As que foram eleitas para aqui morarem não se podem queixar de falta de protagonismo, pois não têm quem lhes faça sombra. Quem mais impressiona, pela envergadura, é um pinheiro-negro (Pinus nigra) plantado em 1800: erguendo-se quase no centro do jardim, a sua copa formada por grossas braçadas verticais é foco de todos os olhares. Dizem que era esta a árvore favorita de J. R. R. Tolkien (1892-1973), professor em Oxford e autor da trilogia O Senhor dos Anéis. Mesmo nunca o tendo lido, não posso deixar de lhe gabar o bom gosto. Como poderia eu resistir à inevitabilidade de fotografar tão insigne pinheiro?
(O Pinus nigra é originário do norte de África e do centro e sul da Europa, incluindo Espanha mas não Portugal; é tolerante à poluição e ao frio, e pode ultrapassar os 40 metros de altura; as suas agulhas, dispostas aos pares, são rígidas e medem cerca de 19 cm. Os botânicos reconhecem cinco ou seis subespécies do Pinus nigra; a subespécie nigra, a que pertence a árvore de Oxford, é espontânea na Áustria, Itália e Grécia.)
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Jardim Botânico da Universidade de Oxford
É sem dúvida um disparate visitar Oxford, ou qualquer outro chamariz turístico, num suado dia de Agosto. Mas quem for simples assalariado, e não especulador de sucesso ou herdeiro de fortunas, resigna-se a fazer férias no mês que o hemisfério norte para isso reservou. E pacatez e isolamento são artigos de luxo, que certamente não estão à venda em Oxford, muito menos em Agosto. Nesse mês não há estudantes, e o resto da comunidade académica, advertida pela experiência, demandou paragens mais sossegadas. Os colleges, no interregno estival, esquecem o estudo e a erudição e rendem-se à lucrativa invasão turística: não se pode visitar claustro, capela, refeitório ou biblioteca por menos de duas libras.
Maior disparate do que visitar Oxford em Agosto é não visitar Oxford por só poder fazê-lo em Agosto. Porque o que a cidade tem para mostrar é genuíno: uma das universidade mais antigas do mundo, onde os históricos edifícios não foram abandonados, nem convertidos em museus, nem reservados a funções protocolares, e são, ainda hoje, o centro da vida estudantil. (Em Portugal, onde o novo-riquismo é a regra, as universidades parecem todas acabadinhas de criar. A mais antiga, a de Coimbra, ocupa edifícios do tempo do Estado Novo, guardando uma ou duas relíquias para iludir turistas.)
Depois de peregrinar pelos colleges, é grande a tentação de procurar lugar menos assediado. O Jardim Botânico da Universidade de Oxford tem entrada pela High Street, em frente do Magdalen College, logo antes da ponte sobre o rio Cherwell. Fundado em 1633, é o mais antigo jardim botânico da Grã-Bretanha e, com os seus 1,8 hectares, o mais compacto. Pequeno, sem dúvida, para o número de visitantes que a ele afluem, apesar da entrada paga.
Pequenez que afinal é enganadora, tal a variedade de plantas distribuídas por canteiros, estufas e lagos; as duas horas da minha visita para pouco deram. Impressionam o arrumo e o apuro geométrico do jardim: de um lado as escolas sistemáticas num rectângulo dividido em oito talhões; do outro, transposto um muro com portal, uma secção triangular mais informal, onde os caminhos são curvilíneos e há muito colorido de flores mesmo no auge do Verão.
Não mais do que duas dezenas de árvores caberão em recinto tão escasso. As que foram eleitas para aqui morarem não se podem queixar de falta de protagonismo, pois não têm quem lhes faça sombra. Quem mais impressiona, pela envergadura, é um pinheiro-negro (Pinus nigra) plantado em 1800: erguendo-se quase no centro do jardim, a sua copa formada por grossas braçadas verticais é foco de todos os olhares. Dizem que era esta a árvore favorita de J. R. R. Tolkien (1892-1973), professor em Oxford e autor da trilogia O Senhor dos Anéis. Mesmo nunca o tendo lido, não posso deixar de lhe gabar o bom gosto. Como poderia eu resistir à inevitabilidade de fotografar tão insigne pinheiro?
(O Pinus nigra é originário do norte de África e do centro e sul da Europa, incluindo Espanha mas não Portugal; é tolerante à poluição e ao frio, e pode ultrapassar os 40 metros de altura; as suas agulhas, dispostas aos pares, são rígidas e medem cerca de 19 cm. Os botânicos reconhecem cinco ou seis subespécies do Pinus nigra; a subespécie nigra, a que pertence a árvore de Oxford, é espontânea na Áustria, Itália e Grécia.)