O Eucalipto de Figueiró da Serra

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Um dos aspec­tos mais posi­ti­vos que con­sigo iden­ti­fi­car, desde que come­cei a escre­ver sobre árvo­res em blo­gues, tem sido a des­co­berta de outras pes­soas que par­ti­lham esse mesmo inte­resse.
Des­ses conhe­ci­men­tos vir­tu­ais têm resul­tado des­co­ber­tas bem reais, como seja a des­co­berta de árvo­res monu­men­tais car­re­ga­das de história(s). Foi assim com o euca­lipto de Figueiró da Serra, em Gou­veia. Mas vamos à his­tó­ria desde o início…

Tudo come­çou com uma men­sa­gem de e-mail rece­bida de um lei­tor da Som­bra Verde, da zona de Gou­veia, em Feve­reiro de 2008. Nessa men­sa­gem era-me suge­rida a visita a diver­sas árvo­res no refe­rido con­ce­lho.
A opor­tu­ni­dade para tal sur­giu em finais de Julho desse mesmo ano, quando eu e o Miguel Rodri­gues nos dedi­cá­mos a visi­tar alguns exem­pla­res notá­veis que tínha­mos refe­ren­ci­a­dos na zona da Serra da Estrela.
Infe­liz­mente, o tempo não nos per­mi­tiu visi­tar todos os espé­ci­mes cons­tan­tes no refe­rido e-mail e, na hora de esco­lher um, optei por aquele cuja des­cri­ção me tinha pare­cido mais ape­la­tiva. Não me enga­nei, acer­tei em cheio no pri­meiro pré­mio do “Euro­mi­lhões”!

A loca­li­za­ção da árvore era, já de si, um bom indi­ca­dor: Quinta do Ada­mas­tor. Efec­ti­va­mente, aguardava-nos um gigante, não dos que habi­tam as pro­fun­de­zas dos mares, mas antes dos que têm a sua ori­gem do outro lado do oce­ano, na lon­gín­qua Aus­trá­lia. Refiro-me, obvi­a­mente, a um euca­lipto (Eucalyp­tus glo­bu­lus Labill.).

É uma árvore avas­sa­la­dora, sobre­tudo ao nível do perí­me­tro do tronco à altura do peito (PAP). O valor medido, 11 metros, coloca-o entre os euca­lip­tos mais gros­sos no país, por com­pa­ra­ção com outros exem­pla­res (desta e de outras espé­cies de euca­lip­tos), clas­si­fi­ca­dos como árvo­res de inte­resse público.
Uma con­sulta a esta base de dados da Auto­ri­dade Flo­res­tal Naci­o­nal (AFN), permite-nos con­cluir que ape­nas o euca­lipto de Ribas, no con­ce­lho de Celo­rico de Basto, o ultra­passa em gros­sura do tronco, com um valor apro­xi­mado de 14 metros.
Por outro lado, de entre os euca­lip­tos clas­si­fi­ca­dos no nosso país pela AFN, ape­nas outros dois, nos con­ce­lhos do Sar­doal e de Sátão, supe­ram os 10 metros de perí­me­tro de tronco (Nota: É de assi­na­lar que as últi­mas medi­ções fei­tas ao euca­lipto do Sar­doal datam de 2002 e, no caso do exem­plar de Sátão, datam de 2004).
Relem­bro que o famoso euca­lipto de Moure, que mor­reu há escas­sos anos, pos­suía igual­mente, em mea­dos da década de 80, perto de 10 metros de PAP.

A altura deste euca­lipto é igual­mente impres­si­o­nante. No entanto, o valor obtido não nos mere­ceu plena con­fi­ança, pelo que optei por não o divul­gar, a fazê-lo com algu­mas reser­vas quanto à sua fia­bi­li­dade.
O apa­re­lho para a medi­ção da altura que uti­li­za­mos é um Blume Leiss, o qual per­mite medir esses valo­res a uma dis­tân­cia máxima de 40 metros do tronco da árvore.
O pro­blema surge quando, a essa dis­tân­cia do tronco, não se con­se­gue visu­a­li­zar o ponto mais alto da árvore ou quando, como neste caso, essa dis­tân­cia implica que o apa­re­lho tenha que fazer a medi­ção com uma grande incli­na­ção, dis­tor­cendo o valor real da altura.

Em todo o caso, este euca­lipto é bas­tante alto, situ­a­ção que é real­çada por estar iso­lado, o que o torna numa das árvo­res mais espec­ta­cu­la­res do nosso país, tor­nando urgente a sua clas­si­fi­ca­ção como árvore de inte­resse público. Trata-se de uma das mai­o­res e mais impres­si­o­nan­tes árvo­res de Por­tu­gal, que mere­ci­da­mente deve­ria ter um lugar de des­ta­que entre os mai­o­res tesou­ros da nossa flora ornamental.

É de subli­nhar que esta his­tó­ria merece ainda que se realce o heroísmo do lei­tor que me enviou a refe­rên­cia desta árvore e que foi, num pas­sado recente, o dono desta quinta. É que o mesmo, numa inter­ven­ção quase in extre­mis, con­se­guiu demo­ver o ante­rior pro­pri­e­tá­rio da inten­ção de cor­tar este euca­lipto.
Sem a sua inter­ven­ção, este euca­lipto não exis­ti­ria nos dias de hoje. É o tipo de acção que, infe­liz­mente, não merece reco­nhe­ci­mento nas pri­mei­ras pági­nas de jor­nais, nem a atri­bui­ção de qual­quer meda­lha ou pré­mio por mérito cívico.
No entanto, estou certo que este tipo de inter­ven­ção em defesa do nosso patri­mó­nio natu­ral pro­voca, em todos os aman­tes das árvo­res, a mais pro­funda admi­ra­ção e gratidão.

  1. Publicado 2 de Setembro de 2009 às 3:12 | Link

    Parece que vou ser o pri­meiro a comen­tar no blo­gue, apro­veito para tes­tar se os comen­tá­rios fun­ci­o­nam…
    Não há pala­vras para des­cre­ver este euca­lipto. É colos­sal, mere­cia estar clas­si­fi­cado e ter uma envol­vente digna desse nome, que é um dos pro­ble­mas gra­ves das nos­sas melho­res árvo­res (que aliás se vê aqui tam­bém).
    Uma des­co­berta maravilhosa.

    • Publicado 3 de Setembro de 2009 às 1:37 | Link

      Os lou­ros são todos, mere­ci­da­mente, para quem evi­tou o crime que seria aba­ter esta árvore.
      O mesmo pre­fere ficar no ano­ni­mato, basta-lhe saber que aju­dou a pre­ser­var e divul­gar este monu­mento vivo. Um acto de cida­da­nia sem espe­rar nada em troca…Haja espe­rança nos por­tu­gue­ses e na sua (por vezes pro­ble­má­tica) rela­ção com as árvo­res.
      Como esta quinta é hoje um espaço de turismo, penso que será de todo o inte­resse dos pro­pri­e­tá­rios clas­si­fi­car esta árvore, até pela publi­ci­dade adi­ci­o­nal que esta situ­a­ção repre­sen­ta­ria para o espaço em causa.

      • Publicado 3 de Setembro de 2009 às 2:27 | Link

        O facto de ser um espaço de turismo parece que só pode augu­rar um bom futuro à árvore. É que aqui não se vê bem e tam­bém foi cor­tado da cena, mas nes­tas fotos anda muito lixo e entu­lho à volta da árvore, mais car­ri­nha, mais esca­va­dora (esca­va­do­ras e árvo­res não com­bi­nam mesmo)…
        A ver se os pro­pri­e­tá­rios que­rem soli­ci­tar a sua classificação.

  2. Publicado 7 de Setembro de 2009 às 22:00 | Link

    Digno de ser visto, este gigante. Nunca ima­gi­nei que pudes­sem exis­tir euca­lip­tos deste porte.
    Luz

  3. José Maria Mendes
    Publicado 19 de Setembro de 2009 às 10:58 | Link

    Os figuei­ro­en­ses, bair­ris­tas por natu­reza, congratulam-se com a con­fir­ma­ção de que dis­põem de uma das mais impo­nen­tes árvo­res do país. Efec­ti­va­mente, há muito que esco­lhe­ram o euca­lipto como uma das refe­rên­cias da aldeia. E, ao con­trá­rio do que se diz no comen­tá­rio de José Rui Fer­nan­des, o local não se encon­tra aban­do­nado. A pre­sença dos equi­pa­men­tos, que refere, é pura­mente aci­den­tal. Com efeito, a árvore encontra-se inte­grada na Quinta do Ada­mas­tor, por­ven­tura o empre­en­di­mento turís­tico mais gran­di­oso do dis­trito da Guarda, o que, local­mente, se poderá con­fir­mar.
    Quando os tra­ba­lhos fica­rem con­cluí­dos se verá que o euca­lipto assu­miu maior dignidade.

    • Publicado 19 de Setembro de 2009 às 14:17 | Link

      E, ao con­trá­rio do que se diz no comen­tá­rio de José Rui Fer­nan­des, o local não se encon­tra abandonado.

      No meu? Acho que não.
      Mas ainda bem que esta árvore vai ter um bom futuro. Tem poten­cial para ser uma cam­peã (mais alta, mais grossa…). É impor­tante que as pes­soas enten­dam que as árvo­res gran­des que orgu­lham uma aldeia, uma região e um país, já foram peque­nas. Com a polí­tica de ges­tão arbó­rea das autar­quias de hoje e com a igno­rân­cia de mui­tos par­ti­cu­la­res, não exis­ti­rão árvo­res de grande porte para daqui a 100 anos con­ta­rem a his­tó­ria. Pode ser que com estes exem­plos algo comece a mudar.

  4. Rita
    Publicado 27 de Setembro de 2009 às 0:10 | Link

    É com um sor­riso nos lábios que vejo estas fotos e alguns comen­tá­rios. De ver­dade que se trata de um colos­sal “monu­mento”! Já tive opor­tu­ni­dade por via­jar por Por­tu­gal e só em Figueiró da Serra é que vi um Euca­lipto tão grande, de meter res­peito! É pena se algu­mas pes­soas “falem” sem conhe­ci­mento de causa. A envol­vente não se trata de um local com lixo! Trata-se de uma pro­pri­e­dade pri­vada, a Quinta do Ada­mas­tor, que estava, no pas­sado, em com­pleto aban­dono. Neste momento, trata-se de um local em cons­tante recu­pe­ra­ção e reno­va­ção. As máqui­nas pro­vam isso mesmo. Por­tanto, penso que será de todo o inte­resse visi­tar este local. Ape­sar de ser uma pro­pri­e­dade pri­vada, é pos­sí­vel a qual­quer pes­soa a sua visita. As pes­soas de Figueiró da Serra orgulham-se do que a Natu­reza lhes pro­por­ci­o­nou. Reco­mendo a visita a esta terra, “per­dida” no Par­que Natu­ral da Serra da Estrela, rica em locais em que o pas­sado não é esquecido!!

    • Publicado 27 de Setembro de 2009 às 1:04 | Link

      Cara Rita, como não vejo aqui mais nin­guém a “falar” de lixo, o seu comen­tá­rio deve ser para mim…

      A envol­vente não se trata de um local com lixo! Trata-se de uma pro­pri­e­dade pri­vada, a Quinta do Ada­mas­tor, que estava, no pas­sado, em com­pleto abandono

      Fiquei a saber que pelo facto de ser pri­vada, não tem lixo.

      Neste momento, trata-se de um local em cons­tante recu­pe­ra­ção e reno­va­ção. As máqui­nas pro­vam isso mesmo.

      E por estar em cons­tante recu­pe­ra­ção e reno­va­ção, tam­bém não tem lixo. Santa quinta. Por aqui, qual­quer obra­zita faz logo um monte de lixo.
      E quanto às máqui­nas, para este exem­plar pode ser com­pli­cado, mas são incon­tá­veis os casos que máqui­nas por des­cuido umas vezes, por “engano” outras, arrui­nam monu­men­tos naci­o­nais.
      Eu sei que não há lixo. Mas se por acaso hou­ver, mesmo tem­po­ra­ri­a­mente, devido à tal cons­tante recu­pe­ra­ção e reno­va­ção, o melhor é depositá-lo nou­tro local.
      Para quem qui­ser explo­rar a Quinta do Ada­mas­tor, fica o link.

      • Phil Du Rhone
        Publicado 12 de Maio de 2010 às 6:29 | Link

        Thank you, yes, I have recei­ved it now.
        Any other leads for anci­ent eucalypts would be welcome.

  5. Phil Du Rhone
    Publicado 8 de Maio de 2010 às 14:52 | Link

    I am inte­rest in fin­ding very old eucalyp­tus trees anywhere in Portugal.

    Ple­ase email with any exam­ples and location.

    Many thanks.

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