A Árvore Certa, Para o Local Adequado

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Não esta­rei enga­nado, se pre­su­mir que quem pla­neia a plan­ta­ção de árvore no nosso espaço urbano, conhece os rudi­men­tos da bio­lo­gia da árvore e algu­mas carac­te­rís­ti­cas da espé­cie esco­lhida. Há uma carac­te­rís­tica muito comum que é o seu cres­ci­mento. Umas mais, outras menos, todas aumen­tam em altura, em diâ­me­tro, em volume, já para não falar das raí­zes, essa parte sub­ter­râ­nea sem­pre tão mal­tra­tada.

Ao esco­lher uma árvore para o espaço público, o téc­nico res­pon­sá­vel deve ter em con­si­de­ra­ção e antes de tudo, as limi­ta­ções de espaço:

  • Qual a área de solo dis­po­ní­vel? Se for menos de um metro qua­drado, só as mais peque­nas das árvo­res serão ade­qua­das. Para uma árvore de grande porte, este espaço não será sufi­ci­ente para evi­tar danos no pavimento.
  • Exis­tem no local linhas de alta ten­são (ou outras), aéreas ou sub­ter­râ­neas? Outro tipo de con­du­tas sub­ter­râ­neas? Se a res­posta é posi­tiva, valerá a pena evi­tar a plan­ta­ção de uma árvore que cau­sará pre­juí­zos no futuro, terá que ser podada radi­cal­mente ou mesmo abatida.
  • Exis­tem edi­fí­cios, pos­tes de ilu­mi­na­ção, hidran­tes, via­du­tos ou outros equi­pa­men­tos urba­nos que pos­sam ser pre­ju­di­ca­dos pelo cres­ci­mento da árvore? Se for o caso, é pre­fe­rí­vel plan­tar a árvore nou­tro local.
  • Há pelo menos 1,20m1 para os peões cir­cu­la­rem sem difi­cul­dade? Uma árvore que atra­pa­lha as pes­soas cons­tan­te­mente, só vai criar res­sen­ti­men­tos, será even­tu­al­mente van­da­li­zada e final­mente remo­vida. Que­rer plan­tar árvo­res em pas­seios com menos de 2,20m é um erro e um des­per­dí­cio de dinhei­ros públicos.

Estas modes­tas con­si­de­ra­ções, para o mais desa­tento, podem pare­cer coisa óbvia. Do mais ele­men­tar bom senso. Quem repara nas árvo­res do nosso espaço público urbano, já cons­ta­tou há muito tempo que não é bem assim.

Algu­mas das espé­cies mais uti­li­za­das no espaço público em Portugal

Espé­cie Altura Diâ­me­tro da copa
Ácer-negundo 3–10-18m 10m
Carvalho-alvarinho 3–15-35m 25m
Carvalho-vermelho-americano 5–10-25m 20m
Castanheiro-da-Índia 4–14-28m 20m
Cerejeira-brava 4–18-25m 10m
Choupo-negro2 6–20-30m 5m
Jaca­randá 16m, impre­vi­sí­vel 10m
Liqui­dam­bar 3–14-30m 12m
Lódão 2–6-20m 20m
Plátano-comum 3–12-30m 30m
Salgueiro-chorão 4–10-15m 12m (a tocar no solo)
Tília-prateada 3–20-30m 20m

Os valo­res para a altura das árvo­res referem-se ao cres­ci­mento ao fim de 10 anos, 20 anos e even­tu­al­mente3. Facil­mente se con­clui, que se algu­mas das nos­sas árvo­res, numa mera década já terão ocu­pado o espaço dis­po­ni­bi­li­zado, a maior parte ao fim de 20 anos está con­de­nada à remo­ção ou poda drástica.

Nas foto­gra­fias, todas na Senhora da Hora (con­ce­lho de Mato­si­nhos), da esquerda para a direita:

Plá­ta­nos em frente à feira. Rela­ti­va­mente recen­tes, já estra­ga­ram o pavi­mento, havendo espaço para cal­dei­ras ade­qua­das — não na segunda foto­gra­fia, com a exis­tên­cia de uma caixa. As pro­tec­ções para evi­tar danos cau­sa­dos por veí­cu­los, estão elas pró­prias a cau­sar danos nas árvores.

Uma plan­ta­ção muito recente com cober­tu­ras de ferro fun­dido nas cal­dei­ras, um ver­da­deiro luxo que já causa danos nas árvo­res. Não foi dei­xado espaço ade­quado para os peões e os fru­tos da espé­cie esco­lhida sujam o pavimento.

Arru­a­mento novo com os pré­dios — do arqui­tecto Alcino Sou­ti­nho —, sobre­pos­tos nos pas­seio e Áceres-da-Noruega (pro­va­vel­mente Acer pla­ta­noi­des ‘Crim­son King’) encos­ta­dos às varan­das. Um Ácer-da-Noruega atinge 25 metros de altura e 15 metros de diâ­me­tro da copa.

1 Estou cons­ci­ente que nas nos­sas vilas e cida­des mui­tos pas­seios nem essa lar­gura mínima atin­gem. O mais grave é quando são novos, como tan­tos.
2 Popu­lus nigra ou Popu­lus ita­lica, a vari­e­dade colu­nar. No livro RHS A-Z Ency­clo­pe­dia of Gar­den Plants é refe­rido como Popu­lus nigra var. Ita­lica. O Popu­lus nigra atinge um diâ­me­tro de 20m. Tam­bém acon­se­lham a não plan­tar a menos de 40m de edi­fí­cios pois o vigo­roso sis­tema radi­cu­lar pode pro­vo­car danos.
3 Bric­kell, Chris­topher ed. The Royal Hor­ti­cul­tu­ral Soci­ety A-Z Ency­clo­pe­dia of Gar­den Plants. Lon­dres: Dor­ling Kin­ders­ley, 2003.
More, David e White, John. The Illus­tra­ted Ency­clo­pe­dia of Trees Second Edi­tion. Ore­gon: Tim­ber Press, 2005.

  1. Publicado 21 de Outubro de 2009 às 0:19 | Link

    Este é um dos mai­o­res pro­ble­mas do pla­ne­a­mento urbano (ou da falta dele) no que refere a arbo­ri­za­ção. Apa­ren­te­mente, na óptica dos cha­ma­dos pla­ne­a­do­res, qual­quer espé­cie serve para cada canto de uma rua ou praça.
    Ainda por cima, como dizes, as árvo­res têm este pés­simo hábito de cres­cer. Para cima, para baixo e para os lados.
    As estru­tu­ras de acon­di­ci­o­na­mento des­tas plan­tas tam­bém é pre­o­cu­pante. Mesmo as que, ale­ga­da­mente, têm o intuito de pro­te­ger, aca­bam a pre­ju­di­car quer os tron­cos quer as raízes.

  2. Pedro Arrabaça
    Publicado 22 de Outubro de 2009 às 23:19 | Link

    É que tem sido for­çada a ideia de que o espaço público deve ter árvo­res, o que em teo­ria já é bem aceite. Mas a des­con­fi­ança votada a árvo­res a sério mantém-se forte e tal­vez por isso, ao planearem-se os espa­ços públi­cos, a árvore ide­a­li­zada é sem­pre magri­nha, anã e lim­pi­nha. Se fosse pos­sí­vel ser de plás­tico seria perfeito.

  3. Publicado 23 de Outubro de 2009 às 23:28 | Link

    O texto põe o dedo na ferida! Como em tan­tas outras coi­sas no nosso país, tam­bém na arbo­ri­za­ção urbana, falta pla­ne­a­mento e falta conhe­ci­mento específico.

    As cida­des não são pla­ne­a­das. As nos­sas cida­des “donut”, de cen­tros his­tó­ri­cos vazios, con­ti­nuam a cres­cer de forma anár­quica nas peri­fe­rias. Sem­pre com a des­culpa da falta de espaço e do preço dos ter­re­nos, as cida­des con­ti­nuam a cres­cer mal e parece-me que, em ter­mos de urba­nismo, nada se evo­luiu nos últi­mos 40 anos.
    As urbes são pen­sa­das para o auto­mó­vel (e mesmo assim mal) e são fei­tas para apri­si­o­nar as pes­soas no inte­rior da sua casa; qual­quer pes­soa com um mínimo de difi­cul­dade em ter­mos de mobi­li­dade não con­se­gue deslocar-se em cida­des onde os pas­seios são minús­cu­los e cheios de bar­rei­ras.
    No meio deste caos é neces­sá­rio plan­tar árvo­res! Por­que sim, por­que dá uma ima­gem verde da Câmara ou da Junta, por­que é tra­di­ção (?!), por­que as pes­soas, regra geral, gos­tam delas enquanto são peque­nas e não dão “problemas”,…

    Agrava-se depois o pro­blema plan­tando espé­cies que não estão mini­ma­mente talha­das para espa­ços exí­guos, como os omni­pre­sen­tes plá­ta­nos ou chou­pos. Isto é, depois do erro da falta de pla­ne­a­mento, vem o erro da falta de conhe­ci­mento.
    E aqui há muita arro­gân­cia, a arro­gân­cia da igno­rân­cia, a arro­gân­cia de não que­rer apren­der. Bas­ta­ria abrir um livro, um sim­ples guia de árvo­res, para per­ce­ber como uma tília ou um carvalho-americano são árvo­res de par­ques e não são árvo­res para as aca­nha­das ruas das nos­sas cida­des. E, com um pouco de humil­dade e von­tade de des­co­brir, tal­vez se abris­sem as nos­sas cida­des a novas espé­cies, de pequeno ou médio porte.
    Mas, para isso, é neces­sá­rio ter von­tade de mudar, de apren­der, de alte­rar con­cei­tos erra­dos de déca­das. Mas apren­der dá tra­ba­lho, sei-o bem pela pro­fis­são que exerço.
    Tam­bém em ter­mos de arbo­ri­za­ção urbana me parece que pouco, ou nada, evo­luí­mos nos últi­mos anos.

    Acresce um último erro bas­tante comum. Por vezes, parece-me que por pura sorte, até se acerta na esco­lha das espé­cies a plan­tar. Exagera-se então, pois não há fome que não dê em far­tura, plan­tando espé­ci­mes em dema­sia para o espaço disponível.

  4. José Gonçalves Lima
    Publicado 20 de Fevereiro de 2010 às 17:07 | Link

    Gos­tei dos assun­tos rela­ci­o­na­dos com as árvo­res.
    Aqui em Belo Hori­zonte nós temos tam­bém mui­tos pro­ble­mas com as árvo­res, prin­ci­pal­mente nos pas­seios em que há redes elé­tri­cas, pois as árvo­res nati­vas bra­si­lei­ras são muito boni­tas e de porte muito grande.
    Em BH, o Ipê é a árvore-símbolo da cidade; muito bonita quando flo­rida nas cores que variam de roxo, ama­relo e ver­me­lho. Estas árvo­res estão em várias pra­ças e jar­dins, além de esta­rem em mui­tos pas­seios tam­bém.
    A murta é outra linda árvore muito comum aqui em BH, não cres­cendo muito e quando solta as flo­res, exala um cheiro muito agra­dá­vel. Per­ma­nece toda ven­di­nha durante o ano todo, não sendo de grande porte, é de fácil mani­pu­la­ção, não atin­gido a rede elé­trica, nem pro­vo­cando danos aos imó­veis pró­xi­mos ao passeio.

  1. Por Quinta do Sargaçal – Só falta aqui é cimento + a 22 de Outubro de 2009 às 3:12

    […] A árvore certa, para o local ade­quado Mais uma pequena cola­bo­ra­ção minha no site Árvo­res de Portugal. […]

  2. Por Quinta do Sargaçal – Guerra às árvores a 3 de Fevereiro de 2010 às 4:49

    […] Tam­bém vi muito boas podas este ano, desig­na­da­mente fei­tas pelo Cen­tro de Jar­di­na­gem da Boa­vista. Por exem­plo, nos plá­ta­nos que mos­tro aqui (Árvo­res de Por­tu­gal) a arrui­nar o pavi­mento e que quando vi os car­ta­zes pen­sei logo que iam […]

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