Árvore, cujo pomo, belo e brando,
natureza de leite e sangue pinta,
onde a pureza, de vergonha tinta,
está virgíneas faces imitando;nunca da ira e do vento, que arrancando
os troncos vão, o teu injúria sinta;
nem por malícia de ar te seja extinta
a cor, que está teu fruito debuxando.Que pois me emprestas doce e idóneo abrigo
a meu contentamento, e favoreces
com teu suave cheiro minha glória,se não te celebrar como mereces,
cantando-te, sequer farei contigo
doce, nos casos tristes, a memória.
—Luís Vaz de Camões




Que belo Camões! Não o associava nada à celebração exclusiva da Natureza, sem que a Natureza venha a propósito do Amor. E ainda menos a um soneto completo cantando uma Árvore. Fica muito bem à sombra da Bela Sombra.
Ontem, num passeio por entre as árvores e as herbáceas que povoam a bela Gulbenkian, deparei-me (deparámo-nos) com um impressionante eucalipto que nos disse o nosso guia ter mais de 100 anos. Nunca tinha visto um eucalipto assim – altíssimo, frondoso, de porte altivo, com um impressionante tronco pejado de cicatrizes – e, confesso, subitamente a embirração que tem por matriz os magros eucaliptos que povoam as nossas matas desvaneceu-se. Agora neste domingo, aproveitando a mudança da hora, deparo-me com este belíssimo soneto que emoldura primorosamente a imagem que retenho daquele poderoso eucalipto.
Tem de ver este eucalipto!
Uau! Lindíssimo! Muito obrigada!
Mas não desfazendo – adoro esta nossa expressão – o da Gulbenkian não desmerece.