Há árvores tão despassaradas que qualquer alteração climática lhes transtorna o fraco juízo. A ameixoeira-de-jardim (Prunus cerasifera Ehrh.), que enfeita as nossas ruas com a sua floração vistosa e, quando caem os frutos, transforma os passeios em frascos de compota cor-de-sangue, tem fama e proveito de florir cedo. Mas cedo quer dizer Fevereiro ou Março, com a Primavera à espreita; não quer dizer Outubro ou Novembro, quando ainda nem sequer o Outono se consumou e o ruído da quadra natalícia mal começa a despontar. No entanto, ali nos semáforos do Campo Alegre, perturbando e confundindo os condutores que chegam da auto-estrada, e causando sérios transtornos no trânsito, estão duas ameixoeiras-de-jardim carregadinhas de flores. Bonitas mas tontas, julgam que já chegou a Primavera. Só há que encolher os ombros, pois juízo é coisa que não se ensina: ou se tem, ou não se tem; e elas, pelos vistos, não têm.
Os eucaliptos-limoneiros (nome acabado de inventar) do Jardim Botânico de Coimbra são, por contraste com esta volubilidade, um exemplo de firmeza de princípios, apego às origens e respeito pelo calendário. Vindos dos antípodas, mantêm os seus ciclos anuais sincronizados com os dos seus irmãos que nunca saíram da Austrália. São como aqueles emigrantes que, por não quererem abdicar da identidade, nunca deixam de ouvir os relatos desportivos na língua materna.
E qual o comprovativo dessa alegada firmeza de carácter? As flores aí em cima foram fotografadas, com três anos de intervalo, em Dezembro e em Janeiro. E sabe-se que, no hemisfério sul, a floração da espécie decorre, mais coisa menos coisa, em Novembro e Dezembro. Por cá é Inverno quando lá é Verão, mas os nossos eucaliptos não se deixam baralhar por factores externos como a temperatura e a luminosidade. Está-lhes na massa da seiva florir quando um ano declina e outro se inicia, e não é a latitude que lhes vai alterar os hábitos.
Em Coimbra há dois Eucalyptus citriodora Hook. (sinónimo: Corymbia citriodora (Hook.) K.D. Hill & L.A.S. Johnson) no jardim botânico, ambos encostados à Alameda Júlio Henriques, a poucos metros da estátua de Brotero. Um deles debruça uma ramagem sobre a alameda para nos deixar ver de perto as flores e as folhas. É um dos números de sucesso garantido nas visitas ao jardim: agacha-se o guia para apanhar uma folha do chão, esmaga-a entre os dedos e dá-a a cheirar a uma das criancinhas. Cheira a limão, pois. Não tarda estão todas elas com uma folhinha triturada encostada ao nariz, snifando com o maior dos entusiasmos.
Várias outras plantas partilham este aroma citrino — e, entre elas, o limoeiro até faz fraca figura, pois os limões são a única parte da árvore que cheira a… limão, e ainda há que descascá-los. Mas tanto o Eucalyptus citriodora como o limonete (Aloysia citriodora Ortega ex Pers.) rescendem a limão por todas as folhas; e, nunca se despindo para o Inverno, são uma fonte permanente e abundante de perfume.




Que exemplo edificante de fidelidade, o dos eucaliptos-limoneiros. Essa característica de respeito pelos ciclos de origem é habitual nas espécies viajantes, ou acontece apenas raramente? Se for rara (e mesmo se não for) vou olhar de outra forma para esses eucaliptos (e talvez mesmo snifá-los) na próxima passagem por Coimbra.
Confesso que fiz pouco trabalho de campo, e talvez fosse cientificamente reprovável deduzir uma lei geral basendo-me na observação de dois escassos eucaliptos. Na verdade, nem sequer sei se eles são os únicos da sua espécie a comportarem-se dessa maneira. Há outras árvores que vieram dos antípodas, como os metrosíderos (da Nova Zelândia), e que por cá florescem na estação certa (ou seja, com um desfasamento de seis meses em relação às que não emigraram). Suponho que a maioria das árvores migrantes tem a mesma atitude sensata dos metrosíderos
Os jacarandás e as tipuanas (entre outros) também são assim — têm o seu ciclo fenológico adaptado ao das estações do hemisfério Norte, apesar de provirem de um clima (e região) subtropical, e perdem as folhas na estação mais fria que aí também é a mais seca, portanto duplamente desfavorável ao crescimento.
É aliás essa a razão que explica o paradoxo de em Portugal os jacarandás e as tipuanas exibirem as suas copas sem folhas nos meses de Março a Maio, que por cá são os mais favoráveis ao crescimento lenhoso: na zona da América do Sul onde são espontâneos (Sudoeste do Brasil, Paraguai, norte da Argentina) os meses mais secos são os do fim do inverno e início da Primavera.
Abraço
João