Jardim de Santos

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Todas as árvo­res adul­tas são uma home­na­gem viva a quem as sonhou, semeou (tan­tas vezes sem depois as ver cres­cer), plan­tou, pro­te­geu, cui­dou… É esta capa­ci­dade que as árvo­res têm de per­ten­cer a mui­tas gera­ções, e de abar­car várias vidas, que fazem das árvo­res velhas um dos seres vivos mais vene­rá­veis que existe.

Em Lis­boa exis­tem algu­mas (cada vez menos) Árvo­res Vene­rá­veis. No Jar­dim de San­tos exis­tem, nem mais nem menos do que oito  vene­rá­veis Tipu­ana tipu clas­si­fi­ca­das de inte­resse público o que lhes con­fere um esta­tuto seme­lhante ao de um monu­mento naci­o­nal. Há muito que nin­guém cuida do jar­dim român­tico de San­tos, ou das oito Tipu­a­nas, fal­tam jar­di­nei­ros nesta cidade que insiste em alimentar-se de ideias e pro­jec­tos, mas as Tipu­a­nas lá vão vivendo, boni­tas e cheias de dig­ni­dade. Mais do que a Lis­boa, estas árvo­res per­ten­cem a todos — mor­tos e vivos — que cui­da­ram delas.

Que­rem, entre outras coi­sas, cons­truir uma casa de metal sobre as Tipu­a­nas do Jar­dim de San­tos… Haja bom senso, e res­peito por todos a quem estas árvo­res per­ten­cem e per­ten­ce­ram ao longo das suas, lon­gas, vidas. E se isso não bas­tar faça-se cum­prir a lei (Decreto-Lei n.º 28468/38, de 15 de Feve­reiro) que proíbe qual­quer tipo de cons­tru­ção, num raio de 50 metros a par­tir da base de uma árvore vener… Des­cul­pem, classificada.

  1. Publicado 9 de Outubro de 2009 às 0:59 | Link

    Aqui está uma exce­lente opor­tu­ni­dade para que as pes­soas (lis­bo­e­tas ou de outras ban­das) que se pre­o­cu­pam com o que é belo, impor­tante e dura­douro pro­vem que, unindo as suas posi­ções e opi­niões, podem evi­tar que pro­jec­tos aber­ran­tes como este esma­guem impu­ne­mente a lei e o bom senso.
    Obri­gado Rosa e obri­gado Cida­da­nia LX.

  2. Publicado 9 de Outubro de 2009 às 4:47 | Link

    Até o bom senso e cum­prir a lei, mesmo uma sim­ples como o Decreto-Lei n.º 28468/38, ainda do tempo que a lei era sim­ples e para ser cum­prida, se tor­na­ram rari­da­des. Algo que é neces­sá­rio pedir, senão mesmo supli­car.
    Par­ti­ci­par nes­tas dis­cus­sões é ingrato, por­que por mui­tas vozes dis­cor­dan­tes, por mui­tos argu­men­tos, por muito que se con­verse, o acto é con­su­mado e a dis­cus­são… … …é sem­pre um dos objec­ti­vos dos “cri­a­ti­vos”, nas suas inú­me­ras “ver­ten­tes”, faz parte do “inter­face” e da “inte­rac­ti­vi­dade” (ou “inter­face inte­rac­tivo”) entre o “pro­jecto” e as mas­sas, neces­sa­ri­a­mente ignorantes.

    Vai ser muito difí­cil evi­tar o avil­ta­mento das árvo­res clas­si­fi­ca­das. A Guta Moura Gue­des, quando arre­donda o dis­curso — e como gosta de o arre­don­dar —, vende o que quer, a quem quer. Vende con­ge­la­do­res aos pin­guins no Pólo Norte. Não deve ter sido difí­cil ven­der uma casa na árvore, “objecto único”, e blá blá, a uma câmara sem ideias. Cumpra-se a lei e já não será mau, por­que pelos vis­tos nem isso é garantido.

  3. Publicado 9 de Outubro de 2009 às 23:05 | Link

    O que está em causa é a adul­te­ra­ção de um jar­dim, e a crença tão lusi­tana de que jar­dins, par­ques, lagos e árvo­res não são úteis por si mesmo e têm de ser valo­ri­za­dos com “equipamentos”.

    O pará­grafo ante­rior é parte da opi­nião do Paulo V. Araújo, que cito no texto O Ecos­sis­tema das Ara­nhas e Outras His­tó­rias, a pro­pó­sito dos pla­nos para os jar­dins do Palá­cio de Cris­tal, no Porto. Adequa-se na per­fei­ção a este caso, em Lisboa.

    O que este jar­dim neces­sita, como qual­quer outro jar­dim, é de ser cui­dado. Nin­guém gosta de um jar­dim des­lei­xado, com detri­tos e lixos de toda a espé­cie, sem iluminação,…

    Uma casa numa árvore, com vista para o Tejo, parece uma daque­las ideias român­ti­cas, abso­lu­ta­mente irre­sis­tí­veis, com tudo para ser um sucesso. Tudo? Pois…e algum dos res­pon­sá­veis por esta ideia se deu ao tra­ba­lho de con­sul­tar um espe­ci­a­lista em arbo­ri­cul­tura, sobre os pos­sí­veis efei­tos dessa cons­tru­ção (e con­se­quente pre­sença de pes­soas) na árvore?
    E o por­me­nor da árvore ser um monu­mento natu­ral, pro­te­gido por lei, foi igno­rado na altura de exe­cu­tar o pro­jecto? E se sim, porquê? Por igno­rân­cia, por negli­gên­cia ou por­que se deci­diu assu­mir, sem ver­go­nha, que em Por­tu­gal as leis não são para cumprir?

    Eu até vou mais longe…Não deve­ria este sim­ples facto, tratar-se de uma árvore de inte­resse público, con­di­ci­o­nar, desde logo, a imple­men­ta­ção da pró­pria ideia?

    Com cer­teza que uma espla­nada cons­truída num dos ter­ra­ços da Torre de Belém seria um sucesso estron­doso. Mas acaso seria exequí­vel? Seria sequer objecto de algum estudo que ava­li­asse se a sua imple­men­ta­ção coli­di­ria com a pre­ser­va­ção da Torre de Belém? Claro que não! A ideia seria limi­nar­mente rejeitada.

    Claro que, neste pre­ciso momento e após o pará­grafo ante­rior, tenho 1 milhão de por­tu­gue­ses, indig­na­dos, a voci­fe­rar: “Mas este indi­ví­duo é parvo?! Com­pa­rar a Torre de Belém com uma árvore?! Com uma árvore!…”

    Este é um dos prin­ci­pais pro­ble­mas do nosso país quando chega a hora de pro­te­ger o nosso patri­mó­nio natu­ral, seja uma árvore ou uma gruta, por exem­plo. Nin­guém o reco­nhece como tal, no dia-a-dia.

    Existe ape­nas no mundo vir­tual da legis­la­ção. E a legislação…ignora-se!

  4. Publicado 10 de Outubro de 2009 às 11:39 | Link

    José Rui, espero, sin­ce­ra­mente, que não seja tão difí­cil assim, evi­tar o avil­ta­mento das árvo­res clas­si­fi­ca­das. Este é um caso, pelo menos é o que me parece, de alguma inge­nui­dade ali­ada a uma dose sig­ni­fi­ca­tiva de igno­rân­cia, sobre árvo­res e jar­dins da parte da expe­ri­menta. Os Desig­ners limitaram-se a fazer pro­pos­tas, a apre­sen­tar ideias, estão no seu direito, a Guta Moura Gue­des, está a ven­der um pro­duto. O que é ina­cei­tá­vel e de uma enorme insen­sa­tez é a forma irres­pon­sá­vel como a câmara de Lis­boa, sedenta de ideias, rece­beu com sor­ri­sos e sala­ma­le­ques, uma ideia desta tão total­mente absurda.

    • Publicado 11 de Outubro de 2009 às 0:11 | Link

      Eu das câma­ras não espero nada. E isso é um radi­cal zero. Nada. Zero. Quando e se me sur­pre­en­de­rem, será com grande satis­fa­ção minha.
      Mas, não vou safar os desig­ners com essa faci­li­dade toda. Desig­ners em sen­tido lato.
      Na escola de design, “venderam-me” que o desig­ner é alguém que pensa e é dono de uma cul­tura geral acima da média. E se não for, aprende. O que me parece evi­dente e salta à vista, é exac­ta­mente a dose sig­ni­fi­ca­tiva de igno­rân­cia. Por parte da Expe­ri­menta, dou de barato. Por parte dos desig­ners, rela­ti­va­mente ao jar­dim em causa, não dou. Por­que era parte do tra­ba­lho deles col­ma­tar essa igno­rân­cia.
      Devo dizer que um jar­dim tão pequeno (li 390m2) e tão aban­do­nado, mere­cia uma inter­ven­ção e se fosse de certa forma mais iso­lado das ruas baru­lhen­tas, não seria pior. A luz é impor­tante, a sina­lé­tica é impor­tante (mas base­ada no ver­na­cu­lar do “tree car­ving” e com uma inter­ven­ção directa sobre as árvo­res?), o equi­pa­mento impres­cin­dí­vel (hoje arqui­tec­tos como Siza, jul­gam que não, basta a pureza das linhas dos espa­ços vazios), o som pre­firo espe­rar para ouvir, mas à par­tida con­si­dero dinheiro mal gasto, seria mais inte­res­sante se con­se­guis­sem pro­du­zir silên­cio no meio da cidade…

      A ques­tão é que a Expe­ri­menta, pelo que sei da Expe­ri­menta, é uma enti­dade que não me parece ade­quada a desen­vol­ver um pro­jecto para um jar­dim român­tico. O pro­jecto surge, por­que o jar­dim é um caso de aban­dono. Se fosse um jar­dim res­plan­des­cente, nin­guém se atre­ve­ria a propôr metade daque­las ideias, como inter­ven­ção no espaço urbano ajar­di­nado. Se a CML julga que a Expe­ri­menta subs­ti­tui ter jar­di­nei­ros, polí­cias e manu­ten­ção, é capaz de se enganar.

      Se o jar­dim sofre de todos os pro­ble­mas que dizem que sofre, não é cui­dado, é inse­guro, está degra­dado, van­da­li­zado e é fre­quen­tado por uri­na­do­res, não é a Expe­ri­menta que vai alte­rar isso. Os pro­ble­mas pré­vios vão ser resol­vi­dos pela CML?

      E depois há a ques­tão das árvo­res clas­si­fi­ca­das, que fazendo parte do pro­blema glo­bal, é um pouco dife­rente. São monu­men­tos vivos, não há nada a nego­ciar ali. Há porem-se a 50 metros. Que que­rem mais? Pes­so­al­mente até acho pouco, essa lei está desac­tu­a­li­zada, com a capa­ci­dade de estra­gar de hoje, 100 metros seria o mínimo aceitável :) .

  5. Publicado 11 de Outubro de 2009 às 23:06 | Link

    Hoje no Público
    Por Antó­nio Sér­gio Rosa de Carvalho

    «Ator­do­a­dos com a ava­lan­cha defait-divers, exte­nu­a­dos pelas cam­pa­nhas elei­to­rais, algum rigor nos é neces­sá­rio para man­ter o dis­cer­ni­mento no que res­peita o essen­cial. Aquilo que é real­mente impor­tante. O que é real­mente impor­tante é que no período entre 6 e 18 de Dezem­bro vai tomar lugar a Kope­nha­gen Cli­mate Con­fe­rence onde o des­tino do pla­neta vai ser deci­dido. Os olhos estão pos­tos nela com espe­rança numa nova ati­tude dos EUA, atra­vés de Obama, e numa lenta cons­ci­en­ci­a­li­za­ção que toma lugar na China e irá ter for­ço­sa­mente influên­cia na ati­tude na Índia. O dis­curso inau­gu­ral e de afir­ma­ção de Durão Bar­roso, após a sua ree­lei­ção, dedicou-se quase exclu­si­va­mente à impor­tân­cia deter­mi­nante e à pri­o­ri­dade urgente deste tema. Esta­mos numa encru­zi­lhada civi­li­za­ci­o­nal onde uma nova revo­lu­ção indus­trial terá que tomar lugar, que nos garanta uma recon­ci­li­a­ção com a natu­reza e o pla­neta, dei­xando defi­ni­ti­va­mente para trás toda a herança do posi­ti­vismo, e leve a uma reforma do capi­ta­lismo, que não poderá con­ti­nuar a basear a sua dinâ­mica numa ideia de cres­ci­mento ili­mi­tado e insustentável.

    Perante isto, o Jar­dim de San­tos surge como um oásis, que, embora esque­cido, ainda lá está nas suas carac­te­rís­ti­cas român­ti­cas, onde todas as suas mag­ní­fi­cas árvo­res estão legal­mente pro­te­gi­das. Ora, perante o marasmo e a crise pro­funda do comér­cio tra­di­ci­o­nal, a zona de San­tos surge como algo posi­tivo, atra­vés da con­cen­tra­ção de um comér­cio de qua­li­dade na área do design.Surge como uma área de voca­ção esta­be­le­cida, tal como S. Bento se con­so­li­dou como zona de antiquá­rios. Além disso, esta zona desen­vol­veu uma dinâ­mica noc­turna que se irá con­so­li­dar no futuro devido à sua pro­xi­mi­dade do rio. Mas San­tos tam­bém é um bairro resi­den­cial, que tem direito a repouso, a sere­ni­dade, a con­tem­pla­ção e ao silên­cio. A sobre­carga ero­siva e “ácida” que a vida noc­turna arrasta em polui­ção sonora e dese­qui­lí­brio de com­por­ta­men­tos soci­ais está bem patente na van­da­li­za­ção a que o Jar­dim de San­tos está exposto permanentemente.

    Vem agora a Expe­ri­menta Design, atra­vés de uma cam­pa­nha deno­mi­nada It’s about time que lhe incute um carác­ter afir­ma­tivo de uma “outra urgên­cia”, defen­der um pro­jecto para o jar­dim que per­ver­sa­mente pre­tende ser van­guar­dista. Impli­ci­ta­mente usa uma retó­rica de ino­va­ção e rup­tura que lhe garante, por isso mesmo, uma auto­ri­dade cul­tu­ral que só a supe­ri­o­ri­dade da avant-garde pode garan­tir. Pre­tende assim muti­lar as árvo­res com “tatu­a­gens”, abrir “cha­gas” na pele das árvo­res pro­te­gi­das. Fazer “ins­ta­la­ções” sono­ras alte­rando com­ple­ta­mente o equi­lí­brio do habi­tat, no que res­peita os seus ciclos de luz e de silên­cio. Além de colo­car sis­te­mas de ilu­mi­na­ção que irão ter o mesmo efeito, pre­tende ins­ta­lar uma casa metá­lica numa árvore, per­ver­são cor­ro­siva da “cabana”. Claro que os ban­cos român­ti­cos irão ser subs­ti­tuí­dos por outros em cimento e um bar irá ser ins­ta­lado no jar­dim, garan­tindo assim uma espé­cie de espa­ço­lounge, uma espé­cie de área de expan­são e colo­ni­za­ção ofi­ci­a­li­zada do jar­dim pelos esta­be­le­ci­men­tos noc­tur­nos, all night long. O que se passa aqui é uma per­versa inver­são de valo­res, que perante a impor­tân­cia das ver­da­dei­ras ansi­e­da­des des­cri­tas no iní­cio deste texto são pro­fun­da­mente reac­ci­o­ná­rias, data­das e pri­si­o­nei­ras de um falso van­guar­dismo. Tomou-se a reso­lu­ção, tal­vez por pudor de expor esta figura ao jar­dim play-station, de reco­lo­car a está­tua de Rama­lho Orti­gão nou­tro local.

    Devo avi­sar que a Expe­ri­menta pode espe­rar pior do que uma sim­ples reta­li­a­ção da tão ilus­tre figura lite­rá­ria. Sen­tado de forma con­tem­pla­tiva e atento, entre as bri­sas, aos mur­mú­rios vege­tais, eu sei que as árvo­res pla­neiam uma revolta em massa, tipo revolta das árvo­res con­tra Saru­man e o seu dia­bó­lico pro­jecto con­tra a natu­reza, no Senhor dos Anéis. Por­tanto não só a “cabana” vai ser sacu­dida e o bar esma­gado, mas os ban­cos de cimento vão ser­vir de armas de arre­messo a estas árvo­res em revolta. Já se dis­tin­gue cla­ra­mente nos mur­mú­rios vege­tais uma ame­aça latente que pulsa dizendo: “Vão “expe­ri­men­tar” para outro lado”, ou em lin­gua­gem de desig­ner: “It is about time”… to buzz off!!

    Via Cida­da­nia LX

    • Publicado 12 de Outubro de 2009 às 15:06 | Link

      Pre­tende assim muti­lar as árvo­res com “tatu­a­gens”, abrir “cha­gas” na pele das árvo­res protegidas.

      Devo estar a enten­der mal… Já na revista digi­ta­li­zada no Cida­da­nia LX fiquei com dúvi­das sobre a pre­ten­ção do designer.

      A “avant-guard” é tão século XX…

      • Publicado 12 de Outubro de 2009 às 16:01 | Link

        Bem… Nesta parte espe­cí­fica, acho que é só o con­ceito que é tro­glo­dita, o método de mar­car as árvo­res, não está expli­cado, mas não deve ser o “tra­di­ci­o­nal” (digo eu que sou muito boa­zi­nha)
        Parece que sobre o tema — Árvo­res e Comu­ni­ca­ção — não ocor­reu a este desig­ner ideia mais inteligente.

  6. António Manuel de Pa
    Publicado 10 de Julho de 2010 às 19:22 | Link

    O Jar­dim de San­tos, embora pequeno, era dos mais boni­tos de Lis­boa, sem­pre bem con­ser­vado. Pelo tipo de pro­jecto se vê que é feito por quem nada per­cebe de árvo­res, nem as ama!
    Antó­nio Saraiva, arqui­tecto paisagista

  1. […] (Tipu­ana tipu (Benth.) Kuntze) clas­si­fi­ca­das. A Rosa tinha já aqui publi­cado um texto sobre este tema, mas decidi acres­cen­tar mais alguns […]

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