Todas as árvores adultas são uma homenagem viva a quem as sonhou, semeou (tantas vezes sem depois as ver crescer), plantou, protegeu, cuidou… É esta capacidade que as árvores têm de pertencer a muitas gerações, e de abarcar várias vidas, que fazem das árvores velhas um dos seres vivos mais veneráveis que existe.
Em Lisboa existem algumas (cada vez menos) Árvores Veneráveis. No Jardim de Santos existem, nem mais nem menos do que oito veneráveis Tipuana tipu classificadas de interesse público o que lhes confere um estatuto semelhante ao de um monumento nacional. Há muito que ninguém cuida do jardim romântico de Santos, ou das oito Tipuanas, faltam jardineiros nesta cidade que insiste em alimentar-se de ideias e projectos, mas as Tipuanas lá vão vivendo, bonitas e cheias de dignidade. Mais do que a Lisboa, estas árvores pertencem a todos — mortos e vivos — que cuidaram delas.
Querem, entre outras coisas, construir uma casa de metal sobre as Tipuanas do Jardim de Santos… Haja bom senso, e respeito por todos a quem estas árvores pertencem e pertenceram ao longo das suas, longas, vidas. E se isso não bastar faça-se cumprir a lei (Decreto-Lei n.º 28468/38, de 15 de Fevereiro) que proíbe qualquer tipo de construção, num raio de 50 metros a partir da base de uma árvore vener… Desculpem, classificada.




Aqui está uma excelente oportunidade para que as pessoas (lisboetas ou de outras bandas) que se preocupam com o que é belo, importante e duradouro provem que, unindo as suas posições e opiniões, podem evitar que projectos aberrantes como este esmaguem impunemente a lei e o bom senso.
Obrigado Rosa e obrigado Cidadania LX.
Até o bom senso e cumprir a lei, mesmo uma simples como o Decreto-Lei n.º 28468/38, ainda do tempo que a lei era simples e para ser cumprida, se tornaram raridades. Algo que é necessário pedir, senão mesmo suplicar.
Participar nestas discussões é ingrato, porque por muitas vozes discordantes, por muitos argumentos, por muito que se converse, o acto é consumado e a discussão… … …é sempre um dos objectivos dos “criativos”, nas suas inúmeras “vertentes”, faz parte do “interface” e da “interactividade” (ou “interface interactivo”) entre o “projecto” e as massas, necessariamente ignorantes.
Vai ser muito difícil evitar o aviltamento das árvores classificadas. A Guta Moura Guedes, quando arredonda o discurso — e como gosta de o arredondar —, vende o que quer, a quem quer. Vende congeladores aos pinguins no Pólo Norte. Não deve ter sido difícil vender uma casa na árvore, “objecto único”, e blá blá, a uma câmara sem ideias. Cumpra-se a lei e já não será mau, porque pelos vistos nem isso é garantido.
O parágrafo anterior é parte da opinião do Paulo V. Araújo, que cito no texto O Ecossistema das Aranhas e Outras Histórias, a propósito dos planos para os jardins do Palácio de Cristal, no Porto. Adequa-se na perfeição a este caso, em Lisboa.
O que este jardim necessita, como qualquer outro jardim, é de ser cuidado. Ninguém gosta de um jardim desleixado, com detritos e lixos de toda a espécie, sem iluminação,…
Uma casa numa árvore, com vista para o Tejo, parece uma daquelas ideias românticas, absolutamente irresistíveis, com tudo para ser um sucesso. Tudo? Pois…e algum dos responsáveis por esta ideia se deu ao trabalho de consultar um especialista em arboricultura, sobre os possíveis efeitos dessa construção (e consequente presença de pessoas) na árvore?
E o pormenor da árvore ser um monumento natural, protegido por lei, foi ignorado na altura de executar o projecto? E se sim, porquê? Por ignorância, por negligência ou porque se decidiu assumir, sem vergonha, que em Portugal as leis não são para cumprir?
Eu até vou mais longe…Não deveria este simples facto, tratar-se de uma árvore de interesse público, condicionar, desde logo, a implementação da própria ideia?
Com certeza que uma esplanada construída num dos terraços da Torre de Belém seria um sucesso estrondoso. Mas acaso seria exequível? Seria sequer objecto de algum estudo que avaliasse se a sua implementação colidiria com a preservação da Torre de Belém? Claro que não! A ideia seria liminarmente rejeitada.
Claro que, neste preciso momento e após o parágrafo anterior, tenho 1 milhão de portugueses, indignados, a vociferar: “Mas este indivíduo é parvo?! Comparar a Torre de Belém com uma árvore?! Com uma árvore!…”
Este é um dos principais problemas do nosso país quando chega a hora de proteger o nosso património natural, seja uma árvore ou uma gruta, por exemplo. Ninguém o reconhece como tal, no dia-a-dia.
Existe apenas no mundo virtual da legislação. E a legislação…ignora-se!
José Rui, espero, sinceramente, que não seja tão difícil assim, evitar o aviltamento das árvores classificadas. Este é um caso, pelo menos é o que me parece, de alguma ingenuidade aliada a uma dose significativa de ignorância, sobre árvores e jardins da parte da experimenta. Os Designers limitaram-se a fazer propostas, a apresentar ideias, estão no seu direito, a Guta Moura Guedes, está a vender um produto. O que é inaceitável e de uma enorme insensatez é a forma irresponsável como a câmara de Lisboa, sedenta de ideias, recebeu com sorrisos e salamaleques, uma ideia desta tão totalmente absurda.
Eu das câmaras não espero nada. E isso é um radical zero. Nada. Zero. Quando e se me surpreenderem, será com grande satisfação minha.
Mas, não vou safar os designers com essa facilidade toda. Designers em sentido lato.
Na escola de design, “venderam-me” que o designer é alguém que pensa e é dono de uma cultura geral acima da média. E se não for, aprende. O que me parece evidente e salta à vista, é exactamente a dose significativa de ignorância. Por parte da Experimenta, dou de barato. Por parte dos designers, relativamente ao jardim em causa, não dou. Porque era parte do trabalho deles colmatar essa ignorância.
Devo dizer que um jardim tão pequeno (li 390m2) e tão abandonado, merecia uma intervenção e se fosse de certa forma mais isolado das ruas barulhentas, não seria pior. A luz é importante, a sinalética é importante (mas baseada no vernacular do “tree carving” e com uma intervenção directa sobre as árvores?), o equipamento imprescindível (hoje arquitectos como Siza, julgam que não, basta a pureza das linhas dos espaços vazios), o som prefiro esperar para ouvir, mas à partida considero dinheiro mal gasto, seria mais interessante se conseguissem produzir silêncio no meio da cidade…
A questão é que a Experimenta, pelo que sei da Experimenta, é uma entidade que não me parece adequada a desenvolver um projecto para um jardim romântico. O projecto surge, porque o jardim é um caso de abandono. Se fosse um jardim resplandescente, ninguém se atreveria a propôr metade daquelas ideias, como intervenção no espaço urbano ajardinado. Se a CML julga que a Experimenta substitui ter jardineiros, polícias e manutenção, é capaz de se enganar.
Se o jardim sofre de todos os problemas que dizem que sofre, não é cuidado, é inseguro, está degradado, vandalizado e é frequentado por urinadores, não é a Experimenta que vai alterar isso. Os problemas prévios vão ser resolvidos pela CML?
E depois há a questão das árvores classificadas, que fazendo parte do problema global, é um pouco diferente. São monumentos vivos, não há nada a negociar ali. Há porem-se a 50 metros. Que querem mais? Pessoalmente até acho pouco, essa lei está desactualizada, com a capacidade de estragar de hoje, 100 metros seria o mínimo aceitável :) .
Hoje no Público
Por António Sérgio Rosa de Carvalho
«Atordoados com a avalancha defait-divers, extenuados pelas campanhas eleitorais, algum rigor nos é necessário para manter o discernimento no que respeita o essencial. Aquilo que é realmente importante. O que é realmente importante é que no período entre 6 e 18 de Dezembro vai tomar lugar a Kopenhagen Climate Conference onde o destino do planeta vai ser decidido. Os olhos estão postos nela com esperança numa nova atitude dos EUA, através de Obama, e numa lenta consciencialização que toma lugar na China e irá ter forçosamente influência na atitude na Índia. O discurso inaugural e de afirmação de Durão Barroso, após a sua reeleição, dedicou-se quase exclusivamente à importância determinante e à prioridade urgente deste tema. Estamos numa encruzilhada civilizacional onde uma nova revolução industrial terá que tomar lugar, que nos garanta uma reconciliação com a natureza e o planeta, deixando definitivamente para trás toda a herança do positivismo, e leve a uma reforma do capitalismo, que não poderá continuar a basear a sua dinâmica numa ideia de crescimento ilimitado e insustentável.
Perante isto, o Jardim de Santos surge como um oásis, que, embora esquecido, ainda lá está nas suas características românticas, onde todas as suas magníficas árvores estão legalmente protegidas. Ora, perante o marasmo e a crise profunda do comércio tradicional, a zona de Santos surge como algo positivo, através da concentração de um comércio de qualidade na área do design.Surge como uma área de vocação estabelecida, tal como S. Bento se consolidou como zona de antiquários. Além disso, esta zona desenvolveu uma dinâmica nocturna que se irá consolidar no futuro devido à sua proximidade do rio. Mas Santos também é um bairro residencial, que tem direito a repouso, a serenidade, a contemplação e ao silêncio. A sobrecarga erosiva e “ácida” que a vida nocturna arrasta em poluição sonora e desequilíbrio de comportamentos sociais está bem patente na vandalização a que o Jardim de Santos está exposto permanentemente.
Vem agora a Experimenta Design, através de uma campanha denominada It’s about time que lhe incute um carácter afirmativo de uma “outra urgência”, defender um projecto para o jardim que perversamente pretende ser vanguardista. Implicitamente usa uma retórica de inovação e ruptura que lhe garante, por isso mesmo, uma autoridade cultural que só a superioridade da avant-garde pode garantir. Pretende assim mutilar as árvores com “tatuagens”, abrir “chagas” na pele das árvores protegidas. Fazer “instalações” sonoras alterando completamente o equilíbrio do habitat, no que respeita os seus ciclos de luz e de silêncio. Além de colocar sistemas de iluminação que irão ter o mesmo efeito, pretende instalar uma casa metálica numa árvore, perversão corrosiva da “cabana”. Claro que os bancos românticos irão ser substituídos por outros em cimento e um bar irá ser instalado no jardim, garantindo assim uma espécie de espaçolounge, uma espécie de área de expansão e colonização oficializada do jardim pelos estabelecimentos nocturnos, all night long. O que se passa aqui é uma perversa inversão de valores, que perante a importância das verdadeiras ansiedades descritas no início deste texto são profundamente reaccionárias, datadas e prisioneiras de um falso vanguardismo. Tomou-se a resolução, talvez por pudor de expor esta figura ao jardim play-station, de recolocar a estátua de Ramalho Ortigão noutro local.
Devo avisar que a Experimenta pode esperar pior do que uma simples retaliação da tão ilustre figura literária. Sentado de forma contemplativa e atento, entre as brisas, aos murmúrios vegetais, eu sei que as árvores planeiam uma revolta em massa, tipo revolta das árvores contra Saruman e o seu diabólico projecto contra a natureza, no Senhor dos Anéis. Portanto não só a “cabana” vai ser sacudida e o bar esmagado, mas os bancos de cimento vão servir de armas de arremesso a estas árvores em revolta. Já se distingue claramente nos murmúrios vegetais uma ameaça latente que pulsa dizendo: “Vão “experimentar” para outro lado”, ou em linguagem de designer: “It is about time”… to buzz off!!
Via Cidadania LX
Devo estar a entender mal… Já na revista digitalizada no Cidadania LX fiquei com dúvidas sobre a pretenção do designer.
A “avant-guard” é tão século XX…
Bem… Nesta parte específica, acho que é só o conceito que é troglodita, o método de marcar as árvores, não está explicado, mas não deve ser o “tradicional” (digo eu que sou muito boazinha)
Parece que sobre o tema — Árvores e Comunicação — não ocorreu a este designer ideia mais inteligente.
[…] (Tipuana tipu (Benth.) Kuntze) classificadas. A Rosa tinha já aqui publicado um texto sobre este tema, mas decidi acrescentar mais alguns […]