A arte é das mais nobres formas de representação da realidade. No quadro em exposição, obra do pintor Luís Furtado, há uma raridade entreposta entre o fim das velhas nobres casas da antiga vila Louletana e o fio do horizonte, que é impossível escapar ao olhar de um observador mais atento e amante do mundo da natureza e da vida de todos nós.
Tratava-se da mais preciosa dádiva que Deus concedeu a todos os Louletanos. Uma araucária gigantesca impunha as suas formas a toda a cidade. Infelizmente, a real crueldade da vida humana e das acções dos homens, levou a que a arte estivesse desta vez condenada, a cristalizar nas memórias de todos nós como o passado da natureza louletana era bem mais belo do que o presente e o futuro. A arte, produtora de um imaginário que perdura sempre para lá da existência dos homens, transformou-se sem o querer, desta vez, em forma de intervenção e de denúncia.
Obrigado ao Professor António Almeida, por me ter gentilmente cedido estas duas imagens para poder produzir este texto no Árvores de Portugal. Obrigado ao Professor Almeida por ter levado estes jovens ao encontro de novas imagens do futuro.
Como todos gostaríamos que os futuros artistas pudessem imaginar Loulé como maravilhosamente o fez o pintor Luís Furtado. Era sinal que tínhamos de volta a nossa árvore do conhecimento, representada na velha araucária. Era sinal de esperança e de sabedoria.




Estas comparações “ontem e hoje” são sempre muito interessantes. Neste caso, em que parece haver algumas décadas a separar as imagens, impressiona uma certa degradação geral, que não se resume à araucária, mesmo com a aparência de enriquecimento da imagem de hoje. Ou isso, ou a harmonia da imagem mais antiga foi reforçada pelo pintor, o que nada teria de inesperado.
A poda desta árvore, incontornável de, praticamente, qualquer parte da cidade, é recente. Creio que não terá dois anos. No INUAF (instituto superior que ocupa actualmente o convento onde se encontra a árvore) foi-me informado oficiosamente que esta intervenção foi devida às já famosas “questões de segurança”, pois teria caído um ramo no telhado novo. Ainda estou para ir confirmar esta informação com os responsáveis. A verdade é que a pobre araucária ficou desfigurada como se vê. Costumo chamar-lhe a “poda cotonete”. Pobre gigante! Que pouca dignidade lhe deixaram.
Caro Miguel; quero esclarecer que a desculpa para a “poda cotonete” foi a eventualidade de danos que as prenadas frágeis pudessem produzir no telhado que, então, se encontrava muito degradado e necessitado de reparação. O irónico e revoltante é que tal reparação só viria a ser feita depois de terem desfigurado a centenária araucária!