Ainda o Jardim de Santos, a ExperimentaDesign e as Árvores Classificadas

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São as requalificações.

Infe­liz­mente, em Por­tu­gal este termo, fre­quen­te­mente, cor­res­ponde ape­nas a uma coisa: usar dinheiro público para destruir.

Mui­tas vezes, o que desa­pa­rece é um empe­ci­lho àquilo que, de forma torpe, míope e igno­rante se chama “pro­gresso”. Outras vezes, a cha­mada “arte”, considerando-se um valor acima de qual­quer outro, atro­pela o mais básico con­ceito de bom senso. Quando refiro as mani­fes­ta­ções artís­ti­cas, incluo tam­bém alguns (mui­tos) pro­jec­tos de arqui­tec­tura, que se arvo­ram um valor cul­tu­ral e artís­tico inques­ti­o­ná­vel e acima de qual­quer dis­cus­são. Basta estar assi­nado por uma qual­quer sumidade.

São incon­tá­veis as requa­li­fi­ca­ções que, nos últi­mos anos, arra­sa­ram sem dó nem pie­dade o patri­mó­nio cons­truído mas, prin­ci­pal­mente, os seus paren­tes pobres, os patri­mó­nios natu­ral e vivo.

Nos últi­mos meses, tem-nos vindo a pre­o­cu­par muito seri­a­mente a pro­jec­tada inter­ven­ção no Jar­dim de San­tos, onde exis­tem oito tipu­a­nas [Tipu­ana tipu (Benth.) Kuntze] clas­si­fi­ca­das. A Rosa tinha já aqui publi­cado um texto sobre este tema, mas decidi acres­cen­tar mais alguns comentários.

Muita da infor­ma­ção obtive-a a par­tir de vários tex­tos no blo­gue Cida­da­nia LX e de algu­mas notí­cias na comu­ni­ca­ção social. Excep­ci­o­nal­mente, optei por escre­ver este texto recor­rendo a cita­ções que comen­ta­rei, e atra­vés das quais se pode ficar com uma ideia do que se pre­tende fazer e de como decor­reu o pro­cesso de deci­são. Acon­se­lho, no entanto, uma lei­tura atenta aos outros tex­tos referidos.

De um texto publi­cado na página da Câmara Muni­ci­pal de Lis­boa (CML):

“(…) a “ideia do vere­a­dor Sá Fer­nan­des foi pre­ci­sa­mente essa, a de apro­vei­tar a Expe­ri­men­ta­De­sign para trans­for­mar­mos este jar­dim e ser mais um sím­bolo desta marca do San­tos Design District”.

A mesma pes­soa que pro­mo­veu pro­vi­dên­cias cau­te­la­res com objec­ti­vos de con­ser­va­ção de espa­ços e do bem-estar das pes­soas, vem agora pro­mo­ver uma aber­rante inter­ven­ção moder­nista num jar­dim mar­ca­da­mente român­tico. Aliás, esta não é a única deci­são deste vere­a­dor que afecta nega­ti­va­mente a man­cha verde de Lis­boa. Veja-se o caso das laran­jei­ras de Alva­lade (aqui, aqui e aqui).

“que­re­mos dei­xar cada vez mais claro, que o design é algo que deve ser dis­cu­tido, deba­tido e reflec­tido mas que é algo que acima de tudo serve para tor­nar a vida das pes­soas mais fácil, mais sim­ples, melhor e mais agradável”

(Guta Moura Gue­des, res­pon­sá­vel pela Expe­ri­men­ta­De­sign)

Será, então, que um jar­dim com árvo­res anti­gas (oito delas clas­si­fi­ca­das) não poderá pro­por­ci­o­nar, melhor do que o frio moder­nismo, esta qua­li­dade de vida a quem lá vive e a quem o visita?

“o Jar­dim per­ma­nece ador­me­cido, um mero local de pas­sa­gem ou para­gem ocasional”

Tal­vez fosse melhor ideia, penso eu, res­tau­rar o jar­dim e con­vi­dar as pes­soas a des­fru­tar desse espaço pri­vi­le­gi­ado para o des­canso, res­pi­rando um mere­cido repouso da vida cita­dina, em vez de o arra­sar com pro­jec­tos ao gosto de meia dúzia de intelectuais.

“um dos seus objec­ti­vos [da Expe­ri­menta Design]: cons­truir um legado para a cidade e os seus habitantes.»

E per­gunto: terá isto que ser sem­pre feito à custa da des­trui­ção do legado que outros se dedi­ca­ram a deixar-nos? Não haverá espa­ços a nas­cer na capi­tal onde o design possa expe­ri­men­tar à sua von­tade, enri­que­cendo mesmo esses espa­ços? Mas, nesse caso, tal­vez as obras de “arte” não se tor­nas­sem tão nota­das e, por tanto, menos pro­mo­to­ras dos seus auto­res. Será que, ainda assim, a Expe­ri­menta seria tão gene­rosa com a cidade? Que­re­mos acre­di­tar que sim.

De um artigo de Ale­xan­dra Prado Coe­lho no Público (05/09/2009) in Cida­da­nia LX:

“Ima­gine (…) uma casa no topo de uma antiquís­sima árvore”.

Uma árvore que, por acaso, está clas­si­fi­cada e, como tal, pro­te­gida pela lei de tal bar­ba­ri­dade. Segundo o Decreto-Lei n.º 28468/38, de 15 de Feve­reiro, estas árvo­res têm um esta­tuto simi­lar ao do patri­mó­nio cons­truído clas­si­fi­cado e um raio de pro­tec­ção de 50 metros. Para além disso, qual­quer inter­ven­ção terá que ser alvo de pare­cer da Auto­ri­dade Flo­res­tal Naci­o­nal. Foi emi­tido já este pare­cer? Acresce que a pro­jec­tada casa é em metal.

“Gra­va­dos nas árvo­res, à volta, esta­rão sinais — como nomes de namo­ra­dos ins­cri­tos um dia em segredo.”

Que, por acaso, é uma das mai­o­res imbe­ci­li­da­des que a pes­soa comum pode fazer a estes seres. Mas a vai­dade fútil e infan­til do “fula­ni­nho esteve aqui, 18/11/2009″ tam­bém é um sin­toma da nossa cul­tura e o Tree Car­ving (ver exem­plo), anun­ci­ado nos pai­néis paten­tes no jar­dim, é algo que me deixa apre­en­sivo. Como as pobres árvo­res não falam, gri­ta­mos nós por elas “Deixem-nas em paz!”

Parece que vol­ta­mos ao século XIX, onde tudo o que é natu­ral é para ser domado e tem que, obri­ga­to­ri­a­mente, ser agra­dá­vel e útil ao ser humano. Enfim, van­guar­dismo de há dois séculos.

“O pro­jecto — que, entre outras coi­sas, pre­tende mos­trar como o design pode ser usado para melho­rar os espa­ços públi­cos — está orça­men­tado em 1,2 milhões de euros, sendo o finan­ci­a­mento tam­bém da total res­pon­sa­bi­li­dade da Experimenta.”

Melho­rar? Apa­ren­te­mente, esta é uma opi­nião tudo menos con­sen­sual, a jul­gar pelos nume­ro­sís­si­mos comen­tá­rios nos blo­gues que têm abor­dado o assunto. À pri­meira vista, parece que a regra que vigo­rou, por parte da CML, foi a de que “a cavalo dado não se olha o dente”. Com uma pequena parte desse inves­ti­mento, muito pode­ria ser feito pelo jar­dim. Mas claro que, sem esta moder­ni­dade com auto­ri­za­ção para tudo, os desig­ners não pode­riam meter a sua cri­a­ti­vi­dade pelos olhos a den­tro a toda gente.

Mas toda esta dis­cus­são pode­ria ser ape­nas aca­dé­mica se hou­vesse cora­gem de fazer algo muito sim­ples: per­gun­tar aos lis­bo­e­tas o que dese­jam para este espaço. Isso foi, claro, algo que não ocor­reu a nin­guém, não fosse dar-se o caso de o bom senso imperar.

O que mais nos pre­o­cupa neste caso são os danos pla­ne­a­dos às árvo­res do jar­dim, par­ti­cu­lar­mente aos espé­ci­mes clas­si­fi­ca­dos. Para além disso, é tam­bém pre­o­cu­pante falta de evo­lu­ção das men­ta­li­da­des retró­gra­das, que pre­ten­dem melho­rar a qua­li­dade de vida recor­rendo sem­pre à huma­ni­za­ção e à cons­tru­ção. Enfim, a requa­li­fi­ca­ção em Por­tu­gal não deixa de ser um sinal da nossa (falta de) evo­lu­ção cultural.

Adenda: Sou­be­mos hoje que se irá rea­li­zar um debate rela­tivo a esta situ­a­ção. Embora seja muito difí­cil pes­soal e pro­fis­si­o­nal­mente, ire­mos, obvi­a­mente, fazer um esforço por estar presentes.

(Foto­gra­fias gen­til­mente cedi­das pelo Fórum Cida­da­nia LX.)

  1. Publicado 24 de Novembro de 2009 às 0:25 | Link

    Los árbo­les son en las ciu­da­des ele­men­tos de ornato, y en arqui­tec­tura ornato es la parte super­flua del edificio.

    Esta afir­ma­ção de Ber­nabé Moya, botâ­nico, sin­te­tiza a forma como a árvore nas cida­des é vista, não por todos, mas por mui­tos, ou seja, como um orna­mento dis­pen­sá­vel e mol­dá­vel à vai­dade humana.

    A ver­da­deira arte ensina-nos a humil­dade. São assim as árvo­res gran­des. Pena que haja tão pou­cas pes­soas dis­pos­tas a ouvi-las…e respeitá-las.

  2. Publicado 28 de Novembro de 2009 às 15:00 | Link

    Oiçam, mas por­que não avan­çar com uma pro­vi­dên­cia cau­te­lar para impe­dir a cons­tru­ção da casa na árvore?

    Era uma boa cam­pa­nha para a vossa asso­ci­a­ção. Pode­riam fazê-lo em con­junto com a Quer­cus, com o SOS-Lisboa, Cida­da­nia Lisboa.

    Penso que é altura de alguem mos­trar ao Sr. Sá Fer­nan­des o que sig­ni­fica Estado de Direito e Demo­cra­cia, já que ele anda um pouco esquecido.

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