O Ulmeiro Humilhado

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A his­tó­ria, triste, é sim­ples de con­tar. A árvore mais alta e bonita da vila his­tó­rica de Almeida foi muti­lada, como se observa pela foto­gra­fia mais à direita. As duas ima­gens mais à esquerda, infe­liz­mente, per­ten­cem ao pas­sado.

As suas dimen­sões acima da média e a sua beleza deve­riam ter sido moti­vos sufi­ci­en­tes para evi­tar esta acção cri­mi­nosa, come­tida pela autar­quia local. Mas não foram…Como tam­bém não demo­veu os auto­res desta poda desas­trosa, o facto de a árvore em causa se tra­tar de um ulmeiro (Ulmus minor Mil­ler1), espé­cie cada vez mais rara nas nos­sas pai­sa­gens, devido aos efei­tos da gra­fi­ose.
Nem mesmo o facto desta árvore ter sido refe­ren­ci­ada, no con­curso Em Busca da Maior Árvore, como uma das mai­o­res do dis­trito da Guarda, sen­si­bi­li­zou os res­pon­sá­veis autárquicos.

Motivo para este acto bár­baro? Existe um esboço de motivo, para ser sim­pá­tico, mas, como sem­pre, insu­fi­ci­ente para jus­ti­fi­car o crime per­pe­trado. Apa­ren­te­mente, o pro­blema com esta árvore era atrair dema­si­a­dos insec­tos que, pos­te­ri­or­mente, aca­ba­riam por cair sobre o telhado da casa mais pró­xima, moles­tando a sua proprietária.

Sem que­rer meno­ri­zar o pro­blema e sem que­rer menos­pre­zar alguns even­tu­ais incon­ve­ni­en­tes pro­vo­ca­dos pelas árvo­res, para quem vive no seu entorno, é-me difí­cil acei­tar que a reso­lu­ção para este pro­blema pas­sasse pela rola­gem deste ulmeiro.
Sem men­ci­o­nar que os bene­fí­cios desta e de todas as árvo­res supe­ram, em muito, esses even­tu­ais incon­ve­ni­en­tes. Neste caso, esses bene­fí­cios perderam-se às mãos da arro­gân­cia e da igno­rân­cia que auto­ri­za­ram e, pos­te­ri­or­mente, mano­bra­ram a motosserra.

Um pre­si­dente de Câmara, um vere­a­dor ou o res­pon­sá­vel máximo pelos espa­ços ver­des de uma autar­quia, não têm que ser, obvi­a­mente, espe­ci­a­lis­tas em pra­gas vege­tais. Mas deve­riam ter a humil­dade de soli­ci­tar, a quem sabe do assunto, uma solu­ção para este caso que resol­vesse o pro­blema à senhora e não des­truísse a árvore.
Mas duvido que tal ideia tenha sequer pas­sado pela cabeça do man­dante deste acto. Mais fácil e rápido é cor­tar uns ramos e não defrau­dar o pedido de um par­ti­cu­lar, ainda que, como neste caso, tal pedido leve à perda de um patri­mó­nio que é de todos.

O Antó­nio Mon­teiro, da Asso­ci­a­ção Tran­su­mân­cia e Natu­reza (ATN), res­pon­sá­vel pela orga­ni­za­ção do refe­rido con­curso, e que há muito conhe­cia e amava esta árvore, martiriza-se por não ter pedido a sua clas­si­fi­ca­ção como Árvore de Inte­resse Público. Como num infe­liz caso de que fala­rei bre­ve­mente, a clas­si­fi­ca­ção de uma árvore não a põe a salvo des­tas atrocidades.

Pelo con­trá­rio, uma árvore como esta deve­ria estar pro­te­gida, não ape­nas por uma lei espe­cí­fica da Repú­blica, mas por uma lei mais vasta e que não deve­ria ser neces­sá­rio trans­cre­ver para o papel, a lei do res­peito para com o nosso patri­mó­nio natu­ral. A Câmara Muni­ci­pal de Almeida, como qual­quer outra autar­quia, deve­ria ter um res­pon­sá­vel, um ape­nas seria sufi­ci­ente, que com­pre­en­desse a impor­tân­cia de pre­ser­var o patri­mó­nio local, o cons­truído e o natu­ral, como é o caso das árvores.

Numa vila his­tó­rica, como a de Almeida, cujo turismo passa, em larga medida, pela forma como pro­tege o seu patri­mó­nio, ou seja, como res­peita a sua his­tó­ria, custa-me que nin­guém tivesse com­pre­en­dido a impor­tân­cia de pre­ser­var este ulmeiro monu­men­tal. E que, de forma levi­ana, se tenha auto­ri­zado a des­trui­ção, em minu­tos, daquilo que levou deze­nas de anos a cres­cer. E isso, meu amigo Antó­nio, não é culpa tua, nem de todos aque­les que ama­mos as árvores.

Pela forma como tra­ta­mos os ani­mais e as árvo­res nas cida­des, por exem­plo, tam­bém se ava­lia o grau de desen­vol­vi­mento de um povo e a sua gran­deza. Este, como tan­tos outros casos simi­la­res, revela o atraso na nossa cul­tura cívica, o des­prezo a que vota­mos o nosso patri­mó­nio e a mes­qui­nhez de quem decide de forma cega, sem pro­cu­rar alter­na­ti­vas à pre­po­tên­cia da destruição.

1 Sinó­nimo de Ulmus pro­cera Salisb.

(As duas foto­gra­fias mais à esquerda foram gen­til­mente cedi­das pelo Antó­nio Mon­teiro, da Asso­ci­a­ção Tran­su­mân­cia e Natureza.)

  1. Publicado 21 de Novembro de 2009 às 13:02 | Link

    Enviem à CM Almeida. Que­rem con­cor­rer a Patri­mó­nio da Unesco. Per­gun­tem se é assim que espe­ram conseguir.

    Não sabem estar qui­e­tos, mete dó. Que linda árvore era!

  2. Publicado 21 de Novembro de 2009 às 15:16 | Link

    A falta de res­peito pelo patri­mó­nio arbó­reo do País é assus­ta­dora. Penso que na maior parte das vezes bas­ta­ria ter algum cui­dado e se neces­sá­rio fazer alguns tra­ta­men­tos fitos­sa­ni­tá­rios para evi­tar males mai­o­res e mui­tas situ­a­ções de con­flito desnecessárias.

    À uns anos atrás, estive em Madrid a fazer um curso de “Con­trol Inte­grado en Espa­cios Ver­des” da Bio­best Ibé­rica e falei com alguns res­pon­sá­veis da ‘Câmara’ de Madrid que resol­viam grande parte dos pro­ble­mas com ‘afí­deos’ recor­rendo aos bom­bei­ros para lavar as árvo­res e redu­zir as inci­dên­cias dos ata­ques des­tes. Cá as Câma­ras recor­rem aos bom­bei­ros, para estes cor­ta­rem as árvo­res (p.e. a Câmara de Portalegre).

    Enfim, pode dizer-se que a igno­rân­cia mata (pelo menos as árvores…)

  3. Publicado 21 de Novembro de 2009 às 16:22 | Link

    Tratava-se efec­ti­va­mente de um belo exem­plar!
    Em jeito de “des­cu­bra as dife­ren­ças”, ou se calhar de forma mais acer­tada, “des­cu­bra as seme­lhan­ças”, esta ima­gem deve­ria ser reen­vi­ada para todas as câma­ras muni­ci­pais do país…

  4. Henrique Souto
    Publicado 21 de Novembro de 2009 às 16:37 | Link

    Mais uma bar­ba­ri­dade a jun­tar a tan­tas outras que se vêem por esse país fora.

  5. Publicado 21 de Novembro de 2009 às 21:21 | Link

    Uma per­gunta: Não há nenhuma lei que pro­teja as árvo­res deste ata­que de igno­rân­cia?
    Haverá alguma coisa que se possa fazer para impe­dir que não se repi­tam estas bar­ba­ri­da­des?
    Sinto-me enver­go­nhado de per­ten­cer a este pobre país.

    • Publicado 21 de Novembro de 2009 às 22:18 | Link

      Existe uma lei espe­cí­fica que pro­tege os exem­pla­res clas­si­fi­ca­dos como árvo­res de inte­resse público, o Decreto-Lei nº 28468, que data de 1938 (e que está em fase final de refor­mu­la­ção).
      Depois exis­tem leis mais gerais, como o Decreto-Lei n.º 169/2001, que pro­tege os povo­a­men­tos de sobrei­ros e azi­nhei­ras.
      Nos Aço­res, algu­mas árvo­res estão clas­si­fi­ca­das ao abrigo do Decreto Legis­la­tivo Regi­o­nal n.º 29/2004/A e, na Madeira, existe o Decreto Legis­la­tivo Regi­o­nal n.º 35/2008/M, que pro­tege os recur­sos flo­res­tais (e que, por exten­são, pro­te­gerá, supo­nho, as árvo­res monu­men­tais do arquipélago).

      É natu­ral que exista mais legis­la­ção, nome­a­da­mente no con­ti­nente, rela­tiva à pro­tec­ção dos recur­sos florestais.

      No entanto, no caso con­creto das árvo­res orna­men­tais das nos­sas cida­des e vilas, existe um vazio legal que deixa cami­nho livre à actu­a­ção das autarquias.

      Pegando no que escrevi no texto, acerca do lamento do Antó­nio Mon­teiro, quero dei­xar bem claro que sou favo­rá­vel à clas­si­fi­ca­ção do maior número pos­sí­vel de exem­pla­res. Eu pró­prio já pro­pus algu­mas árvo­res para clas­si­fi­ca­ção. Quis ape­nas real­çar, com as minhas pala­vras, que nenhuma lei poderá pro­te­ger as árvo­res, monu­men­tais ou não, enquanto sub­sis­tir uma cul­tura entra­nhada de ódio à árvore, mais forte que qual­quer lei escrita.

      Sem que­rer pres­cin­dir das leis e dos ins­tru­men­tos que estas for­ne­cem, ou podem for­ne­cer, para pro­te­ger os arvo­re­dos, o que importa é come­çar a mudar esta cul­tura de “den­dro­fo­bia”, come­çando pelos mais novos. Só uma cul­tura de res­peito para com a árvore poderá come­çar a mudar as coi­sas nas pró­xi­mas gera­ções, pois é irre­a­lista pen­sar que, neste país, algum dia possa exis­tir uma lei que pro­teja todas as árvores.

  6. Publicado 23 de Novembro de 2009 às 12:25 | Link

    As árvo­res não votam…

  7. Publicado 25 de Novembro de 2009 às 18:54 | Link

    Só uma per­gunta: o ulmeiro já lá estava quando cons­trui­ram as casas, não?

    • Publicado 25 de Novembro de 2009 às 21:25 | Link

      Sim, as casas são do tempo do retorno das pro­vín­cias ultra­ma­ri­nas por altura do 25 de Abril de 1974. É um daque­les bair­ros pro­vi­só­rio que ficou definitivo.

  8. Publicado 26 de Novembro de 2009 às 22:37 | Link

    que hor­ror!!!

  9. Pedro
    Publicado 30 de Novembro de 2009 às 14:42 | Link

    Se as plan­tas votas­sem eram rai­nhas… assim são um incó­modo. Com tan­tas coi­sas a pre­ci­sa­rem de ser “arran­ja­das” urgen­te­mente… e esses… pacó­vios a estra­gar o que está qui­eto.
    Quem vota neles… atura-os.

  10. Guilherme dos Montes
    Publicado 30 de Novembro de 2009 às 21:18 | Link

    Eu diria que para além de humi­lhado é um Ulmeiro ferido de morte, o último Ulmeiro gigante de Almeida, o único que se safou da gra­fi­ose… morreu

    • Publicado 30 de Novembro de 2009 às 22:26 | Link

      Há aqui uma per­ver­si­dade suple­men­tar na des­trui­ção des­tes ulmei­ros que sobre­vi­ve­ram à gra­fi­ose. E isto por­que tal­vez um dia se venha a des­co­brir que estes ulmei­ros guar­dam nos seus genes algo que os dife­ren­cia e torna mais resis­ten­tes. E se tal se vier a con­fir­mar, nesse dia tere­mos mais uma razão para lamen­tar a estu­pi­dez des­tes arbo­ri­cí­dios con­tra os negrilhos.

      Sonho com um Por­tu­gal onde a edu­ca­ção cívica e ambi­en­tal da mai­o­ria das pes­soas cons­ti­tua, por si só, um seguro de vida para todas as árvo­res monu­men­tais. Sem neces­si­dade de qual­quer lei, pro­te­gi­das por­que há uma mai­o­ria que as ama!

      Sonho ? Uto­pia? Não sei, mas vamos con­ti­nuar a tra­ba­lhar nesse sen­tido, ensi­nar a amar as árvores.

  11. Luis A.F.Ribeiro
    Publicado 3 de Janeiro de 2010 às 19:17 | Link

    Sim­ples­mente ignorantes…Que culpa tem a mae deles.?

  12. Daniel
    Publicado 4 de Fevereiro de 2010 às 22:16 | Link

    Tenho nojo desta gente! Valha-me Deus esta­mos entre­gues mesmo aos lobos, isto não há sal­va­ção pos­sí­vel, árvo­res assim como a res­tante natu­reza é lixo para esta gente!! Escre­vam o que vos digo, não cui­dem os par­ti­cu­la­res e pre­ser­vem o que já têm nas suas pro­pri­e­da­des e fechem a 7 cha­ves os terrenos(sim por­que tal como me acon­te­ceu numa mata que tenho cortaram-me um sobreiro com lar­gas deze­nas de anos assim como metade de outro que ficou só o cepo e um car­va­lho com a queda dos dois sobrei­ros e deixaram-os lá cor­ta­dos no chão) ou então a única natu­reza que vamos ver são paus espe­ta­dos na rua por­que nor­mal­mente che­gando a uma certa idade e tama­nho tá na hora do abate por­que já são muito gran­des e feias, por isso é melhor com­prar mais umas(paus espe­ta­dos) novas que são mais giras e não dão tra­ba­lho!! Pes­soas como as desde blo­gue sejam os sal­va­do­res deste triste país plan­tem e dei­xem cres­cer, ponham os vos­sos ter­re­nos exuberantes!

  1. Por Quinta do Sargaçal – Actualização no Climategate + a 27 de Novembro de 2009 às 15:41

    […] O Ulmeiro Humi­lhado Um Ulmeiro mag­ní­fico em Almeida, arrui­nado. Árvo­res de Por­tu­gal. Já tinha mos­trado aqui esta desgraça. […]

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