Objecto de Devoção

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Numa cul­tura um tanto hos­til às suas árvo­res como a por­tu­guesa, e numa metró­pole um tanto desar­bo­ri­zada como Lis­boa, as cla­rei­ras em que cimento e alca­trão se abrem para peda­ços de natu­reza ainda por recla­mar são um objecto de devo­ção para os den­dró­la­tras. Entre estes, os espi­ri­tu­a­lis­tas encon­tram em tais luga­res uma liga­ção com o que os trans­cende, os utó­pi­cos a prova da pos­si­bi­li­dade de um mundo melhor, os físi­cos um lugar pro­pí­cio ao esforço mus­cu­lar e car­díaco, os poé­ti­cos suges­tão e ima­gi­na­ção, os orga­ni­za­dos um emprego con­ve­ni­ente dos tem­pos livres e os prá­ti­cos um ata­lho agra­dá­vel para che­gar a casa.

Este (aqui no Goo­gle Maps) é um des­ses encla­ves. Um vale onde corre um troço de algu­mas cen­te­nas de metros da Ribeira das Jar­das, a meio cami­nho entre a sua nas­cente da Serra da Car­re­gueira, uns 10 qui­ló­me­tros acima, e a sua foz em Caxias, uns 10 qui­ló­me­tros abaixo. É povo­ado por gru­pos de frei­xos e ami­ei­ros à borda da cor­rente, aque­les já inver­no­sa­mente nus, estes ainda com folha­gem indi­fe­rente ao Outono. Depois, na orla de uma encosta de euca­lip­tal abor­re­cido, há ali­nha­men­tos den­sos de plá­ta­nos e car­va­lhos (fagi­nea e robur), sobrei­ros, peda­ços de pinhal e um choupo-negro ou um cas­ta­nheiro oca­si­o­nal a ama­re­lar rapidamente.

O que é que estas ima­gens quase ocul­tam? A mega­ló­mana esta­ção de Mele­ças e o ruído cons­tante dos com­boios mati­nais; a urba­ni­za­ção pesada e árida de Fita­res sem­pre à espreita no alto poente; um decente bairro público do outro lado da linha; um via­duto que ainda nem existe, pro­jec­tado a sul para ligar icês (do 19 ao 16); lixo oca­si­o­nal espa­lhado e água de fraca lim­peza na ribeira; apro­pri­a­ções sel­va­gens do espaço público, com as suas veda­ções e tapu­mes. Quase ocul­tam, tam­bém, uma uti­li­za­ção per­sis­tente e intensa de resi­den­tes pró­xi­mos, tes­te­mu­nhando a sede que temos de luga­res assim.

  1. Publicado 2 de Novembro de 2009 às 23:01 | Link

    Que belo recanto! Que belas fotos!

    Tão impor­tante regis­tar estes peque­nos espa­ços, mui­tos com risco de desa­pa­re­cer às mãos de uma ‘lim­peza’ anti-incêndio ou de uma urbanização.

  2. Publicado 2 de Novembro de 2009 às 23:04 | Link

    “Um euca­lip­tal abor­re­cido” ora aí está a adjec­ti­va­ção que tanto pro­cu­rava para os magri­ços que me esprei­tam A8 fora! Belís­simo e poé­tico texto, mara­vi­lho­sas fotro­gra­fias e sobre­tudo mag­ni­fíca sen­si­bi­li­dade de quem, por entre o betão e os IC des­co­bre estes encan­ta­dos e encan­ta­do­res recantos.

  3. Publicado 3 de Novembro de 2009 às 10:48 | Link

    Junto à esta­ção vê-se um esta­ci­o­na­mento para cen­te­nas de auto­mó­veis, com­ple­ta­mente vazio. Deve ser um deses­pe­rado apelo, que nin­guém ouviu, para a prá­tica da inter­mo­da­li­dade. Ou seria domingo no dia em que a foto foi tirada?

  4. Pedro Arrabaça
    Publicado 3 de Novembro de 2009 às 22:28 | Link

    É ver­dade que estes espa­ços dei­xa­dos em pou­sio pela expan­são urbana estão sem­pre em risco. Este em par­ti­cu­lar, segundo creio, foi cedido ao muni­cí­pio para uso público no pro­cesso do lote­a­mento a poente, por isso não corre risco de urba­ni­za­ção. É claro que corre outros ris­cos – por exem­plo, um misto de aban­dono e sobreu­ti­li­za­ção que o degrade, ou um pro­jecto de melho­ra­men­tos disparatados.

    O esta­ci­o­na­mento vazio pode ter sido num domingo, mas nos dias de semana pouco enche. Esta esta­ção pre­ten­deu ser o iní­cio de um per­fil subur­bano na linha do Oeste, des­do­brando a linha de Sin­tra, mas ficou por aqui, mais ou menos fora de mão e no meio de nada. Os des­con­fi­a­dos estão à espera da urba­ni­za­ção dos ter­re­nos vagos à volta, para jus­ti­fi­car o inves­ti­mento feito. Além de que, entre­tanto, há uma nova auto-estrada com um nó muito pró­ximo (que o Goo­gle Maps ainda não mostra).

    E muito obri­gado pelos elo­gios generosos.

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