Numa cultura um tanto hostil às suas árvores como a portuguesa, e numa metrópole um tanto desarborizada como Lisboa, as clareiras em que cimento e alcatrão se abrem para pedaços de natureza ainda por reclamar são um objecto de devoção para os dendrólatras. Entre estes, os espiritualistas encontram em tais lugares uma ligação com o que os transcende, os utópicos a prova da possibilidade de um mundo melhor, os físicos um lugar propício ao esforço muscular e cardíaco, os poéticos sugestão e imaginação, os organizados um emprego conveniente dos tempos livres e os práticos um atalho agradável para chegar a casa.
Este (aqui no Google Maps) é um desses enclaves. Um vale onde corre um troço de algumas centenas de metros da Ribeira das Jardas, a meio caminho entre a sua nascente da Serra da Carregueira, uns 10 quilómetros acima, e a sua foz em Caxias, uns 10 quilómetros abaixo. É povoado por grupos de freixos e amieiros à borda da corrente, aqueles já invernosamente nus, estes ainda com folhagem indiferente ao Outono. Depois, na orla de uma encosta de eucaliptal aborrecido, há alinhamentos densos de plátanos e carvalhos (faginea e robur), sobreiros, pedaços de pinhal e um choupo-negro ou um castanheiro ocasional a amarelar rapidamente.
O que é que estas imagens quase ocultam? A megalómana estação de Meleças e o ruído constante dos comboios matinais; a urbanização pesada e árida de Fitares sempre à espreita no alto poente; um decente bairro público do outro lado da linha; um viaduto que ainda nem existe, projectado a sul para ligar icês (do 19 ao 16); lixo ocasional espalhado e água de fraca limpeza na ribeira; apropriações selvagens do espaço público, com as suas vedações e tapumes. Quase ocultam, também, uma utilização persistente e intensa de residentes próximos, testemunhando a sede que temos de lugares assim.




Que belo recanto! Que belas fotos!
Tão importante registar estes pequenos espaços, muitos com risco de desaparecer às mãos de uma ‘limpeza’ anti-incêndio ou de uma urbanização.
“Um eucaliptal aborrecido” ora aí está a adjectivação que tanto procurava para os magriços que me espreitam A8 fora! Belíssimo e poético texto, maravilhosas fotrografias e sobretudo magnifíca sensibilidade de quem, por entre o betão e os IC descobre estes encantados e encantadores recantos.
Junto à estação vê-se um estacionamento para centenas de automóveis, completamente vazio. Deve ser um desesperado apelo, que ninguém ouviu, para a prática da intermodalidade. Ou seria domingo no dia em que a foto foi tirada?
É verdade que estes espaços deixados em pousio pela expansão urbana estão sempre em risco. Este em particular, segundo creio, foi cedido ao município para uso público no processo do loteamento a poente, por isso não corre risco de urbanização. É claro que corre outros riscos – por exemplo, um misto de abandono e sobreutilização que o degrade, ou um projecto de melhoramentos disparatados.
O estacionamento vazio pode ter sido num domingo, mas nos dias de semana pouco enche. Esta estação pretendeu ser o início de um perfil suburbano na linha do Oeste, desdobrando a linha de Sintra, mas ficou por aqui, mais ou menos fora de mão e no meio de nada. Os desconfiados estão à espera da urbanização dos terrenos vagos à volta, para justificar o investimento feito. Além de que, entretanto, há uma nova auto-estrada com um nó muito próximo (que o Google Maps ainda não mostra).
E muito obrigado pelos elogios generosos.