Ainda estamos a tempo de uma mensagem de Natal, não estamos? Então cá vai: diz-nos o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa que a árvore de Natal é um «pinheiro natural ou artificial, ou qualquer outra coisa ger. semelhante a uma árvore, que recebe ornamentos (bolas, lâmpadas, fitas, representações de figuras humanas ou animais etc.) para ser us. como principal elemento de decoração natalícia». Mas que nome daremos a um pinheiro, ou qualquer outra coisa ger. semelhante a uma árvore, utilizada como ornamento de um pedaço grosseiro ou sofisticado de arquitectura?
Como exemplo de pedaço grosseiro, admirem-se as duas imagens da esquerda, nada menos que um centro comercial com arquitectura de centro comercial (o Allegro de Alfragide), ele próprio semelhante a um gigantesco enfeite de Natal, por sua vez enfeitado de cubos que suportam um pequeno olival (a oliveira, na sua versão quase-bonsai, tem vindo a tornar-se uma favorita em espaços públicos onde, por um lado, se considera que as árvores são seres incomodativos mas, por outro, onde se sente a obrigação de fingir um pouco de verde).
Como exemplo sofisticado, duas imagens do grande projecto da Aires Mateus Associados para duas torres adjacentes na metrópole-bolha do Dubai. As fachadas, de um rendilhado cintilante apropriado aos gostos decorativos mais cultos, abrem-se em intervalos regulares, em varandas-nicho onde parecem existir pequenos bosques.
Eu pensava que as árvores deviam habitar terreno sólido, seguro, terreno que pudesse permanecer décadas, séculos ou milénios no mesmo local. Que as árvores cresciam lentamente, ao ponto de os seus semeadores nunca chegarem a desfrutar verdadeiramente delas. Que lentamente se transformavam em tesouros apenas revelados às segundas, terceiras ou quartas gerações, que ainda assim tinham de cuidar da sua herança para a merecer. Mas estas árvores-ornamento suspensas em aço ou betão, pelo contrário, foram pensadas para acompanhar a moda da estação: sem passado, sem futuro, plantadas no presente infinito, desaparecerão rapidamente, sem memória, com o rebentar das bolhas ou o murchar dos revestimentos vistosos das fachadas.
Arquitecturas como grandes ornamentos, ornamentadas por coisas semelhantes a árvores, talvez representem a própria inversão do conceito de árvore de Natal. Entretanto, não é irónico que as oliveirinhas que ornamentam o grande edifício-ornamento tenham elas próprias sido ornamentadas com luzinhas e convertidas assim em árvores de Natal? Arvorezinhas de Natal de conceito convencional, como os dicionários descrevem.




Gostei muito da mensagem de Natal. A propósito, ou talvez nem por isso, lembrei-me das “Árvores” do Kafka:
“Pois somos como troncos de árvores na neve. Aparentemente eles jazem soltos na superfície e com um pequeno empurrão deveria ser possível afastá-los do caminho. Não, não é possível, pois estão firmemente ligados ao solo. Mas veja, até isso é só aparente.”
Grotesco e tristemente burlesco.
Creio que tudo isto deriva da nossa tendência para olhar para o elemento natural como um objecto cujo o único fim é ser útil ao ser humano (hoje vai assim mesmo, em minúsculas) ou desaparecer para não atrapalhar. Mais uma vez, mentalidade “muito à frente” de gente culta e ao melhor “bom gosto” do séc. XIX..
Bem achado, esse excerto de Kafka. Mas um pouco inquietante, não? Por mim, prefiro sempre uma raiz sólida, daquelas que não são só aparentes.
Grotesco e burlesco são palavras que também me ocorrem. A utilização “útil” da natureza não seria revoltante se se soubesse respeitá-la, mesmo usando-a. Mas é manifesto que tal, frequentemente, não acontece.