Nem sempre que se decide plantar uma árvore em ambiente urbano se tomou uma decisão acertada, visto nem todas as espécies serem uma boa escolha para um certo local: o tamanho da árvore adulta pode ser excessivo para o espaço; a árvore pode não estar adaptada para o ambiente onde é colocada; pode ser uma árvore cujo pólen, ou pêlos das folhas, causem alergias e cujas raízes danifiquem o passeio, os canos de água ou os edifícios próximos; pode ser uma espécie de carácter invasor. Outros problemas podem, ainda, surgir, com a frequente escolha errada de árvores pelos serviços camarários e a ainda pior manutenção ao longo dos anos, com podas desadequadas, frequente cortar das raízes sempre que se quer intervir no subsolo, etc.
Não é por isso errado, nem chocante, nem sequer indesejado que por vezes se decida pelo abate de certas árvores. Mas todo o abate de árvores deve ser feito de modo a minimizar o impacto emocional, visual e ambiental do seu desaparecimento e pelas razões certas. E os cidadãos têm o direito a serem informados desses abates, das suas causas, e a participar no processo decisório antes do facto consumado.
Nada disto foi acautelado no abate de árvores que decorreu no Jardim do Príncipe Real. É verdade que, tecnicamente, a opção pelo corte das árvores feito até ao momento não é chocante. As espécies envolvidas — Populus x canadensis, Populus nigra var. italica, Robinia pseudoacacia — são todas de vida curta, ou seja, raramente chegam ao meio século em bom estado de conservação, especialmente em ambiente urbano. Não são também espécies ideais para arruamento e a sua substituição progressiva é necessária. Alguns destes exemplares estavam também demasiado próximos de algumas das árvores de maior interesse do jardim. Até aqui, todos de acordo.
O problema é que não foi desta forma, expondo de maneira ponderada as causas para se querer substituir estas árvores, que esta questão foi exposta e defendida pelo vereador Sá Fernandes. Vejamos. É falso que fosse urgente o abate das árvores este ano. A grande maioria dos exemplares abatidos –se não todos — não estava em avançado estado de degradação, nem representava perigo para a segurança pública. As causas estéticas apontadas, estarem mal-formadas (a forma como os serviços camarários as podam dificilmente poderia resultar noutra coisa), não justificam por si um abate apressado.
E é isto que deve ficar claro: tratou-se de um abate de conveniência. Ao que tudo indica, e se pensarmos no que recentemente se passou com as saudáveis e bem-formadas laranjeiras de Alvalade, para facilitar a instalação e posterior manutenção de uma nova calçada que deverá nascer à volta do Jardim do Príncipe Real. De facto, é difícil conceber que fosse urgente o abate de todas as árvores da periferia dos lados Nordeste, Sudeste e Sudoeste do jardim, sobrando apenas algumas árvores no canto Sul do lado Noroeste. Sejamos claros: foi um abate de conveniência, talvez até por razões acertadas. Qualquer tentativa de justificação com condições fitossanitárias — como relatórios escritos depois das árvores tombadas — é um engodo. E ninguém gosta que lhes passem um atestado de estupidez como o Sr. Sá Fernandes tentou fazer a todos. Se havia boas razões para se fazer o abate, não devia ter existido medo de o defender antes do mesmo ter sido feito. As razões para o abate devem valer por si. Ou o Sr. Sá Fernandes ganhou aversão à democracia e ao poder dos cidadãos de intervir nas decisões que os afectam?
Havia outra forma de conseguir o mesmo resultado, de forma ponderada e, acima de tudo, respeitosa para com as pessoas que usufruem do jardim. É uma fórmula simples que deveria ser aplicada sempre que é necessário fazer este tipo de intervenções. É a forma, por exemplo, já seguida pelos Estudos de Impacto Ambiental que, em tempos, Sá Fernandes tanto defendeu.
Deve-se começar por informar a população sobre o que se quer fazer e o porquê. Antes de ser feito. Vivemos em democracia, temos direito à informação. As pessoas ganham afectos pelas árvores, pelos espaços que utilizam. Têm direito de ser respeitadas e informadas. O comportamento do vereador Sá Fernandes foi o comportamento de alguém que vê os cidadãos para quem trabalha como um empecilho à sua genialidade. Idealmente, a democracia deve ser, também, participativa e as pessoas devem ter oportunidade de manifestarem a sua opinião sobre um assunto antes de este lhe ser imposto. Nada disso aconteceu aqui, onde se ignorou por completo as pessoas que mais importam nesta questão: os Lisboetas.
Posteriormente, uma vez tomada a decisão de abater as árvores e explicadas as suas verdadeiras razões, deve ser minimizado o impacto emocional, visual e ambiental de tal abate. Neste caso, foram dezenas de árvores abatidas, toda a cortina de protecção do arvoredo central do jardim. O abate do arvoredo deveria ter sido feito de forma progressiva, algumas árvores por ano. Respeitava-se desta forma as emoções verdadeiras das pessoas que usufruem e amam aquele jardim. É assim tão descabido, respeitarem-se as emoções das pessoas, chegando ao mesmo resultado de forma mais suave?
Um abate progressivo minimizava, igualmente, o não menos importante impacto que a eliminação de uma só vez desta barreira de protecção irá ter em muitas das árvores que de repente ficaram expostas ao vento de Norte — caso das imponentes figueiras Ficus macrophylla1 — ou que antes estavam à sombra e que de repente vão passar a estar ao sol — caso, por exemplo, de um Metrosideros excelsa2 virado a Sudeste. As condições micro-climáticas no interior do jardim foram alteradas bruscamente. Espera-se que sem grandes impactos futuros, mas o princípio da precaução é sempre bom conselheiro. Algumas árvores irão, sem dúvida, beneficiar das novas condições mas a velocidade da mudança poder piorar o seu estado antes que venham a usufruir de mais luz ou mais espaço para as raízes. Idealmente, não se retirava uma barreira de protecção ambiental antes de outra barreira estar a tomar o seu lugar. Não se interrompia, desta forma, durante anos, a contribuição que as árvores têm em ambiente urbano para amenizar o clima, capturar poluição, reduzir o ruído, embelezar a paisagem e fornecer habitat a aves e outros animais.
Só uma substituição progressiva permitiria ao Sr. Sá Fernandes dizer, como disse, que as árvores vão ser substituídas e não, simplesmente, abatidas. Como tudo está, no entanto, a ser feito, perdeu-se uma barreira de protecção rapidamente, e demorará anos a que uma nova (haverá uma nova? Ainda nada sabemos sobre os planos da Câmara Municipal de Lisboa) ganhe alguma dimensão.
Como já foi referido em alguns textos, Lisboa parece ter ganho uma certa aversão a árvores. Árvores que sombreiam calçadas e nos protegem das enormes flutuações de temperaturas a que estamos expostos. Árvores que melhoram a qualidade de vida dos que habitam a cidade. Que previnem erosão. A lista dos benefícios seria comprida.
Acrescento ainda uma nota pessoal. Com o abate das árvores do Príncipe Real caiu também, para mim, qualquer ilusão que tinha que o vereador Sá Fernandes era um tipo diferente de político, alguém preocupado com a cidadania e correcto funcionamento das instituições. Tornou-se claro que a pessoa que interveio com uma providência cautelar para garantir que o processo de decisão sobre o túnel do Marquês de Pombal era legal e respeitava as instituições não o fez por um amor superior aos direitos dos cidadãos e do seu poder de intervenção. A forma como foi arrancado um parecer favorável pós facto consumado ao IGESPAR (Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico), assinado pelo futuro director ainda não em funções, para legalizar a intervenção no Jardim do Príncipe Real, a crescente irritação do vereador face às mais que legítimas — e legais! — intervenções de cidadãos a questionar o que se está a passar no Príncipe Real, a incapacidade que Sá Fernandes mostra neste caso de admitir qualquer erro ou pedir desculpa reflectem, não um Herói da Cidadania mas, um banal político a fazer política medíocre. O herói que fez frente a Santana Lopes tornou-se no anti-herói.
É, por isso, com dupla tristeza que acompanho o que acontece no Jardim do Príncipe Real.
Mas com uma enorme alegria. O papel das árvores como contribuintes para a qualidade de vida e bem-estar das pessoas é cada vez mais reconhecido. A vontade dos cidadãos de intervir naquilo que afecta as suas vidas é, claramente, crescente. Se perdemos um herói, ganhámos uma comunidade que luta pelas árvores. Que luta por si.
Haja esperança.
1Visível na terceira imagem a partir da esquerda.
2Visível na quarta imagem a partir da esquerda.




Mais do que um pedido de desculpas do vereador, o que precisamos mesmo é que ele nos esclareça não só dos planos para o jardim, mas principalmente a forma como os vai executar, falam-se em valores exorbitantes que serão gastos nesta obra, em vários meses de obras. Afinal em que é que se vai transformar o Jardim do Príncipe Real? O que é que o Sr. Vereador entende por “requalificação”?
Se isso não acontecer vamos andar com o “coração nas mãos” até ao fim das obras.
Adoro este site e há momentos em que me comovo até às lágrimas com a insuperável generosidade e inteligência de quem aqui defende as nossas irmãs árvores. Todavia, como os anos me ensinaram, haverá muito pouco que seja tão quixotesco como esta luta interminável a favor das árvores. Meus irmãos, os portugueses NÃO gostam de árvores. Tornámo-nos um país de novos-ricos, de cultura suburbana, em que as novas gerações renegam vigorosamente a sua origem rural e coram de vergonha quando se lembram dos tempos de pé-descalço da sua juventude e do frequente analfabetismo dos pais e avós. Trazer árvores para a cidade é implantar no espaço urbano uma parte dessa ruralidade que os envergonha e repugna. Estamos sós, irmãos; nós e as árvores, que já nem deixam morrer de pé, com a dignidade que mereceriam. Abraços solidários.
Caro Carlos,
Essa é uma das características dos portugueses que mais me desagrada, a aversão às nossas origens. A ruralidade envergonha, tudo o que cheire a campo, tudo o que transpire portugalidade. Isso vê-se nas questões de arborização urbana, estou totalmente de acordo. Tal verifica-se, como refere, na aversão de tantas pessoas em relação às árvores (é assustador ver como milhões de portugueses se conformam em viver nas selvas de betão da Grande Lisboa e Porto), mas verifica-se, igualmente, na forma como se despreza o potencial ornamental de tantas espécies autóctones nos nossos jardins e arruamentos.
No entanto, a forma como as árvores são roladas está longe de ser um exclusivo nacional, basta, para tal, atravessar a fronteira. Aliás, penso que em todos os países em que tenham ocorrido alterações rápidas e dramáticas ao nível da ocupação do território, como as que ocorreram em Portugal nas últimas dezenas de anos, haverá uma certa dificuldade para que o urbano aceite e conviva com o rural.
Em relação ao blogue e à Associação Árvores de Portugal, queremos que funcione não apenas como um muro das lamentações, mas que inspire os que, como nós, gostam de árvores, para que usem esse amor na defesa diária das árvores e na passagem desse sentimento aos outros, nomeadamente aos mais novos. Aqueles que, no futuro, poderão fazer a diferença…
Cumprimentos.
Em Abrantes, no largo onde moro, houve abate total das bétulas de que sempre me lembro. Muitas poderiam continuar, ms o arboricídio total foi decidido sem dizer “água vai”.
Ver que a minha tristeza e indignação era partilhada por mais gente não foi consolo para a selvajaria.
Se tivesse havido um processo como o que refere, com a participação dos cidadãos, tudo seria mais suportável. Já não se lhes pede sensibilidade e bom gosto, mas mero bom senso e algum respeito pelos outros.
Muitos parabéns pelo seu “post” e pelo blog.
É de facto insuportável ser-se tratado como idiota, ser enganado por cima e perceber tudo desde o primeiro minuto. O mínimo que podia ser feito pela CML nesta altura era discutir publicamente o projecto que está na manga. Esperamos que não esteja cheio de necessidades de afirmação, como as casotas-design nas tipuanas de Santos. O comentário do Carlos enquadra muito bem o nosso pavor arbóreo: temos muita vergonha da lama que trazemos agarrada às solas.
Como diz o Rui Pedro, e muito bem, por vezes não é possível contornar o abate de árvores nas cidades. As pessoas devem estar conscientes de que, numa cidade, não se pode correr o risco de que uma árvore possa tombar e causar danos materiais avultados ou, pior, vítimas humanas. Para além desses danos, estaria criado o ambiente para justificar a rolagem de dezenas de outras árvores.
Mas esta questão, ou seja, o abate de uma árvore por motivos fitossanitários, remete-nos para uma palavra: confiança. Confiança que os políticos tomaram a decisão com base em relatórios técnicos de seriedade inquestionável, confiança de que os políticos não têm segundas intenções,…Ora, como muito bem se sabe, a confiança é daquelas coisas que só se perde uma vez!
Que confiança se pode ter em vereadores, como o Sr. Sá Fernandes, e no seu respeito pelo património arbóreo de Lisboa, quando o mesmo promoveu o abate de várias laranjeiras saudáveis, que não interferiam com nenhuma estrutura urbana, apenas para prolongar uma calçada? Com este tipo de antecedentes, Sá Fernandes deveria saber que as pessoas jamais acreditarão na sua bondade para com as árvores e com os jardins e que, agora como no futuro, as pessoas exigirão sempre provas escritas que sustentem as intervenções, deste executivo camarário, nos espaços verdes da cidade.
Mas, para além da confiança, também faz falta alguma humildade. A humildade de ouvir pessoas e instituições, a humildade de explicar.
Humildade que faltou, por exemplo, no caso da intervenção que envolve uma tipuana classificada, no Jardim de Santos, e a forma como esta foi anunciada como sendo (quase?) definitiva. Não saberá a CML aquilo a que obriga o Decreto-Lei n.º 28468/38 e a necessidade imperiosa da Autoridade Florestal Nacional autorizar qualquer intervenção numa árvore classificada? Ou dará a Câmara de Lisboa por garantida, antecipadamente, essa aprovação? Ou será que nem sequer ponderou (pondera) esse pedido de autorização?
Confiança e humildade, Sr. Sá Fernandes…Ainda sabe o que isso é?
No que refere ao parecer do IGESPAR (Instituto de Gestão do Património ARQUITECTÓNICO e ARQUEOLÓGICO), não cheguei a perceber qual a autoridade com que se poderão pronunciar acerca das árvores dos espaços públicos. A não ser que possuam técnicos habilitados para tal. Possuem?
Incrível.… Custa acreditar!!!!!
O que é que se passa na cabeça destes senhores???
Sempre foi um local de referência de Lisboa.
Espero que ainda estejamos a tempo de inverter este disparate.
«Com o abate das árvores do Príncipe Real caiu também, para mim, qualquer ilusão que tinha que o vereador Sá Fernandes era um tipo diferente de político, alguém preocupado com a cidadania e correcto funcionamento das instituições. Tornou-se claro que a pessoa que interveio com uma providência cautelar para garantir que o processo de decisão sobre o túnel do Marquês de Pombal era legal e respeitava as instituições não o fez por um amor superior aos direitos dos cidadãos e do seu poder de intervenção».
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Claro que não. Fê-lo porque precisava do mediatismo de uma causa fracturante para a sua própria projecção pessoal; para levar as pessoas a acreditarem que o Zé fazia falta na Câmara de Lisboa :)
Tomei hoje conhecimento que foi iniciada a 24 de Novembro, logo no início dos trabalhos no jardim do Príncipe Real, uma petição sobre esta questão. Convido todos a lerem o texto e subscreverem se concordarem aqui:
http://www.petitiononline.com/prpreal/petition.html
Sexta-feira, 18 de Dezembro de 2009, vai decorrer às 21h00 uma sessão pública de esclarecimento sobre o que se passa no Jardim do Príncipe Real. no auditório Quintanilha na ex-FCUL à rua da Escola Politécnica (entrada pelo caminho para o Jardim Botânico).
Foram convidados para este debate várias entidades envolvidas no projecto:
Presidente e vereador do pelouro dos espaços verdes da CML, IGESPAR, Autoridade Florestal Nacional, Junta de freguesia das Mercês,e orgãos da comunicação social.
Descobri que um grupo de “Amigos do Príncipe Real” tem se mobilizado para defender o Jardim e perceber o que se passa. Convidaram-me a estar presente no debate e tentarei não faltar.
Fica aqui também a informação para que todos os que queiram possam participar. Serão todos certamente bem vindos.
Conseguir este debate é uma vitória, para que se perceba que há quem ame os nossos jardins e o defenda. Que as árvores em Lisboa não desaparecem sem que alguém note e as chore. E nem tudo está encerrado sobre o Jardim. É preciso perceber exactamente o que é que a Camara quer fazer.
Talvez com iniciativas populares como esta se consiga evitar barabaridades futuras.