Árvores no Manicómio

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Ao contrário de outras cidades mais a norte, em particular naquelas em que se falam línguas que arranham a garganta, é difícil encontrar em Lisboa um desses bairros onde os edifícios nadam num mar de árvores e as folhas tocam nas janelas, como é comum em Berlim, Estocolmo ou Amesterdão. É curioso que tenhamos que procurar um hospital para doentes mentais para encontrar o maior e mais feliz exemplo dessa convivência entre copas e paredes nesta cidade.

O Novo Manicómio de Lisboa – hoje não se diz manicómio, é o Centro Hospitalar Psiquiátrico – começou a ser projectado em 1912, mas passaram três longas décadas até à sua inauguração. Em 1942 a arquitectura dos seus pavilhões era já um tanto antiquada, embora funcionalmente fosse considerada uma instituição modelo. Para dar forma ao conceito de edifícios no meio de um parque, Francisco Caldeira Cabral e Mário de Azevedo Gomes trabalharam o projecto paisagístico que hoje, em diversidade e exuberância, ultrapassa todos os bairros habitacionais criados com raiz no mesmo modelo (aqui, no GoogleMaps).

O acesso ao Hospital Júlio de Matos é fácil mesmo para quem lá não trabalha nem lá se trata. Pude entrar sem objecções e contei, num passeio rápido mas deliciado numa manhã de Outubro, umas quarenta espécies diferentes de árvores cobrindo as ruas e envolvendo os pavilhões, fazendo parecer mesquinho o verde dos Olivais ou de Alvalade e rivalizando mesmo com os mais ricos jardins da cidade.

Não se pense que este pequeno paraíso de dendróbatas urbanos tem o seu futuro assegurado. Nos anos 80, planos de reestruturação do parque hospitalar apontaram para estes apetecíveis 20 hectares em pleno enfiamento da Av. de Roma como instalações caducas a demolir e fonte de preciosas mais-valias imobiliárias. Esse projecto ficou suspenso, mas quem sabe se não poderão voltar a ver-se bulldozers no horizonte, com o agravamento das contas públicas e o eventual encerramento do aeroporto e da pista que, distando uns meros 500 metros do hospital, prejudica a sua rentabilização.

Entretanto, espantemo-nos com o facto dos frequentadores dos antigos Pavilhões dos Doentes Agitados e dos Doentes Semi-Agitados conviverem melhor com uma arborização densa do que os lisboetas sem patologias psiquiátricas diagnosticadas, que preferem os habitats mais áridos do resto da sua cidade.

  1. Publicado 9 de Dezembro de 2009 às 18:30 | Link

    Vou, talvez, estragar a subtileza ( e a poesia do texto do Pedro) e dizer que os loucos de Lisboa não moram aqui, mas fora dos portões do Júlio de Matos.

    De fora desses portões, do alto da sua arrogância, a qual serve tantas vezes para mascarar a sua incompetência, condenam Lisboa e os lisboetas, de forma tão recorrente, a uma cidade que exclui as árvores à menor desculpa. Os lisboetas, muitos deles, acomodaram-se à cidade que lhes foi imposta, talvez por nunca terem espreitado do outro lado do muro. Não se pode amar uma cidade que não se conhece, uma cidade onde as casas e as pessoas podem conviver com as árvores.

    Toda a gente tem medo de espreitar por cima dos muros e descobrir o que está do outro lado. Aqui está um claro exemplo de como, por vezes, vale a pena ter essa coragem…

  2. Publicado 11 de Dezembro de 2009 às 14:47 | Link

    É de facto fascinante esta riqueza. Moro por lá perto, tenho que me aventurar e ir admirar o que aqui descreves.

    Obrigado por levantares o véu a este património!

  3. Publicado 11 de Dezembro de 2009 às 17:57 | Link

    Há muito tempo que sonho viver num local assim. Não exactamente no manicómio, mas num local onde as árvores sejam adultas e os jardins maduros, com mais de 100 anos, visitáveis como dizem os ingleses. Não é fácil de encontrar no país inteiro, nem no interior.
    Talvez a região com uma maior concentração desses jardins seja Sintra. No porto vão desaparecendo todos, um após outro.

  4. Publicado 13 de Dezembro de 2009 às 15:10 | Link

    É verdade, as nossas cidades, por uma mistura de desleixo e intencionalidade, excluem as suas árvores, em particular árvores a sério, aquelas grandes e velhas que se tornam rainhas dos sítios onde vivem e quase fazem esquecer a miséria urbana que exista à sua sombra. Sintra (que também tem sido alvo de muitos ataques) nunca foi uma vila “normal” e talvez por isso seja um caso à parte: tem sido desde sempre um subúrbio real e alto-burguês, estrangeiro ou estrangeirado. Sinto-me um pouco humilhado quando reconheço que, sem a influência norte-europeia, Sintra seria talvez tão careca como a maior parte dos lugares do nosso país.

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