O Sobreiro da Aldeia de Cabeça

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Com este mag­ní­fico sobreiro (Quer­cus suber L.), situ­ado no Outeiro da Ponte, na fre­gue­sia de Cabeça (con­ce­lho de Seia), ter­mino a série de tex­tos sobre um con­junto de árvo­res visi­ta­das, por mim e pelo Miguel Rodri­gues, no Verão de 2008.

A von­tade de visi­tar este exem­plar era antiga, datando da altura em que tomei conhe­ci­mento da sua exis­tên­cia atra­vés do Bloco de Notas do Cen­tro de Inter­pre­ta­ção da Serra da Estrela (CISE), n.º 5, rela­tivo ao Inverno de 2003/2004.

A foto­gra­fia do sobreiro cons­tante da refe­rida publi­ca­ção criou a curi­o­si­dade para a visita, mas, ao con­trá­rio do que é habi­tual, o que mais agu­çou essa curi­o­si­dade foram as dimen­sões refe­ri­das para o mesmo, nome­a­da­mente o valor da altura, 40 metros! Um sobreiro com 40 metros?! Tinha que o ver com os meus olhos…

Parte do encanto desta árvore reside no esforço neces­sá­rio para a encon­trar, per­dida num bonito recanto da ribeira de Loriga, não muito longe da aldeia de Casal do Rei, famosa pelos seus bos­ques onde sobres­sai o aze­reiro (Pru­nus lusi­ta­nica L.), espé­cie rara, relí­quia da Lau­ris­silva que outrora cobriu o nosso país.

Este sobreiro é impres­si­o­nante pelas dimen­sões e, igual­mente, por ter sobre­vi­vido a dois incên­dios. No entanto, as mar­cas da pas­sa­gem das cha­mas são bem visí­veis, como podem cons­ta­tar na ima­gem mais à direita.

Encos­ta­dos à árvore, ouvindo o som do vento a res­soar no inte­rior do tronco, a que se junta um cons­tante baru­lho de madeira a esta­lar, tive­mos a sen­sa­ção que este gigante poderá soço­brar perante um tem­po­ral mais violento.

E agora as dimensões…O valor do perí­me­tro à altura do peito (PAP) obtido (4,94 metros) aproxima-se bas­tante do valor refe­rido no Bloco de Notas do CISE (5,10 metros).

No entanto, a loca­li­za­ção da árvore impediu-nos de obter um valor exacto da altura. Ape­sar do refe­rido, esti­má­mos o valor da mesma, com recurso a um altí­me­tro, entre os 19 e os 23 metros. Cons­ci­en­tes do erro desta medi­ção, con­si­de­ra­mos, ainda assim, que esta esti­ma­tiva estará mais perto da altura real deste sobreiro, do que o valor de 40 metros refe­rido no citado Bloco de Notas do CISE.

Esta dife­rença na esti­ma­ção da altura deste exem­plar, em nada dimi­nui a sua monu­men­ta­li­dade e gran­di­o­si­dade. Aos seus pés, não duvi­dá­mos estar perante um dos mai­o­res sobrei­ros que alguma vez pude­mos contemplar.

Infe­liz­mente, dado o estado em que encon­tra, resul­tado das feri­das impos­tas pelos incên­dios flo­res­tais, o tempo de vida que lhe resta é, por certo, bas­tante infe­rior ao que mere­cia viver, com o seu majes­toso porte.

(Expe­ri­men­tem des­co­brir o Miguel Rodri­gues nas duas foto­gra­fias mais à esquerda.)

  1. Publicado 4 de Dezembro de 2009 às 12:48 | Link

    No entanto, olhando para a copa parece bas­tante sau­dá­vel. Ouvi em tem­pos o David Atten­bo­rough a falar das vir­tu­des das árvo­res ôcas, acho que era num pro­grama sobre os velhos car­va­lhos (podiam ser cas­ta­nhei­ros não me lem­bro bem) ingle­ses. Dizia ele que o facto de serem ôcas não pre­ju­di­cava em nada a sua saúde e tra­zia a van­ta­gem de as tor­nar muito mais resis­ten­tes às con­di­ções cli­ma­té­ri­cas (ven­tos for­tes) que mui­tas vezes são res­pon­sá­veis pela queda das gran­des árvores.

    • Publicado 9 de Dezembro de 2009 às 17:13 | Link

      Tenho memó­ria, se não me engano, de ter visto tal pro­grama. Não me recordo da espé­cie, mas é pro­vá­vel que fos­sem castanheiros.

      Nas Bei­ras abun­dam, nome­a­da­mente na zona da Guarda, deze­nas de cas­ta­nhei­ros velhos, com pro­fun­das cavi­da­des ao nível do tronco. Tanto quanto sei, este pro­cesso, faz parte do enve­lhe­ci­mento natu­ral da árvore e, por si só, não repre­senta qual­quer ame­aça à lon­ge­vi­dade da mesma. Excepto quando as pes­soas apro­vei­tam essas cavi­da­des para a depo­si­ção de lixo, situ­a­ção deplo­rá­vel mas recor­rente, as quais favo­re­cem o acu­mu­lar de humi­dade no inte­rior dos troncos.

      Infe­liz­mente, a situ­a­ção aqui é um pouco mais dra­má­tica pois este sobreiro já ardeu por duas vezes, sendo que, na última des­sas oca­siões, o fogo esteve a con­su­mir o inte­rior da árvore, de forma lenta, durante várias horas — isto segundo rela­tos de natu­rais da aldeia com os quais tro­cá­mos opi­niões sobre a árvore. Isto é, neste caso, as cavi­da­des não resul­ta­ram de um pro­cesso lento, e natu­ral, de enve­lhe­ci­mento da árvore, mas da destruição/carbonização de parte sig­ni­fi­ca­tiva da madeira do tronco. Em par­ti­cu­lar, na base do mesmo.

      No entanto, ape­sar de esta não ter sido uma situ­a­ção com ori­gem natu­ral, isso em nada inter­fere com a sua pos­sí­vel uti­li­dade no pre­sente para o espé­cime em causa. Ou seja, estas cavi­da­des pode­rão ser mesmo um dos fac­to­res que este­jam a aju­dar este sobreiro a resis­tir às adver­si­da­des cli­ma­té­ri­cas, ape­sar dos danos que este sofreu devi­dos ao fogo.

      Teria que ser algo a ana­li­sar por espe­ci­a­lis­tas nes­tes gigan­tes centenários…O pro­blema é que me parece que, em ter­mos de árvo­res velhas, ainda esta­mos no iní­cio da via­gem para as com­pre­en­der e como algu­mas das suas carac­te­rís­ti­cas actuam favo­re­cendo a sua longevidade.

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