No que diz respeito às transformações que sofreu o litoral algarvio nas últimas décadas, deve haver uma certa unanimidade de opiniões: urbanizou-se mal e demais. As vistas aéreas dessa costa, coberta pela teia imparável de alcatrão, telhas e mosaicos, evocam o comentário de um americano radical e pouco ortodoxo, Edward Abbey, que nos anos setenta escreveu que “o crescimento pelo crescimento é a ideologia da célula cancerosa”.
Será que em tempos existiram bosques junto ao mar do Algarve? Se existiram, ou se pudessem ter existido, teriam desaparecido na luta desigual contra as mais-valias imobiliárias. Decerto que é difícil apontar uma mancha de árvores, mesmo não muito grande, nesta costa que tinha tudo para ser um paraíso. Por serem raros, os poucos bosques que sobrevivem são como divindades mágicas, que devem venerar-se e guardar-se com zelo.
Este (aqui no Google Maps), retratado no primeiro dia do novo ano, estendido ao longo de uma ligeira depressão e terminando no alto uma enseada minúscula e inacessível, é um mistério no meio dos aldeamentos propagados sem parar entre Portimão e Armação de Pêra. É um bosque abandonado, decerto não autóctone mas sim plantado num tempo talvez não muito distante, numa propriedade provavelmente privada mas de acesso não muito difícil, pelos caminhos traiçoeiros que percorrem o recorte da costa, entre os algares e o mar, ou por carreiros a partir da estrada do farol.
É um bosque feito de uma barreira de ciprestes, de salpicos de alfarrobeiras indisciplinadas e de um pequeno pinhal assente numa superfície musgosa, que termina pouco antes de uma falésia a pique. Nesses poucos metros quadrados preciosos, primeiro de sombra, depois de abertura para a luz do mar do sul, pode esquecer-se por um momento a costa que padece do crescer por crescer e imaginar-se um Algarve de mitologia, próprio para ser descrito por línguas mortas.




Belo achado. Obrigado pela partilha!
Entre outras qualidades, as fotos e as palavras do Pedro transformam aquilo que para a maioria das pessoas não passa de uma banal mata, de meia dúzia de hectares, num enorme bosque mágico de infinitas possibilidades.
O segredo está na forma como olhamos para o que nos rodeia…