Por Sintra e Pela Preservação da Sua Identidade

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Em Por­tu­gal, as pes­soas que, de forma desin­te­res­sada, defen­dem as árvo­res, emocionam-me quase tanto como as pró­prias árvo­res. Gos­tar de árvo­res e, mais ainda, defendê-las é, nos dias que cor­rem, um acto de coragem.

Num país onde fre­quen­te­mente se recorre, e abusa, das metá­fo­ras de índole fute­bo­lís­tica, não resisto a usar esse tipo de lin­gua­gem para dizer que, actu­al­mente, dar a cara pela defesa de uma árvore se afi­gura quase tão arris­cado como ir de cache­col ver­me­lho para o meio de uma cla­que ves­tida de verde e branco.

A boa notí­cia é que, ape­sar de tudo, há ainda quem demons­tre esse espí­rito ousado. É assim com um grupo de cida­dãos de Sin­tra, pre­o­cu­pa­dos com algu­mas situ­a­ções no con­ce­lho. Em causa estão uma série de rola­gens exe­cu­ta­das em árvore orna­men­tais e o abate de diver­sos exem­pla­res na Serra de Sintra.

Deci­di­dos a não ficar cala­dos perante esta situ­a­ção, deci­di­ram diri­gir uma carta aberta, na forma de peti­ção, ao pre­si­dente da Câmara Muni­ci­pal de Sin­tra. Por­que, para além do valor de cada árvore, indi­vi­du­al­mente, existe o valor de todas elas na cons­tru­ção da pai­sa­gem. E essa pai­sa­gem, em Sin­tra, é patri­mó­nio de toda a humanidade.

Convido-os, de seguida, a ler a citada carta e, caso con­cor­dem com o teor da mesma, a assi­nar a peti­ção A Favor das Árvo­res de Sin­tra.

Ex.mo Sr. Pre­si­dente
da Câmara Muni­ci­pal de Sintra

Assunto: Árvo­res e espa­ços ver­des em Sin­tra e fre­gue­sias adjacentes.

Apre­sen­tando ante­ci­pa­da­mente des­cul­pas por lhe des­viar a aten­ção de assun­tos à pri­meira vista bem mais pre­men­tes para o bem-estar do Con­ce­lho, vimos por este meio soli­ci­tar a sua inter­ven­ção pes­soal no que con­si­de­ra­mos ser uma afronta ao espí­rito de Sin­tra. Neste sen­tido, apresentamos-lhe um pro­blema que se tem vindo a agra­var nos últi­mos tem­pos e em muito vem con­tri­buindo para a degra­da­ção da qua­li­dade de vida dos muní­ci­pes e de todos os que visi­tam estas belas fre­gue­sias. Referimo-nos às árvo­res, algu­mas cen­te­ná­rias, que têm sido aba­ti­das ou des­truí­das com podas pouco cui­da­das.
No Largo 1.º de Dezem­bro em São Pedro de Sin­tra foram aba­ti­das do ano pas­sado até agora várias tílias cen­te­ná­rias, dei­xando o espaço com­ple­ta­mente deso­lado, se bem que as vis­tas dos auto­mo­bi­lis­tas tenham ficado bem mais alar­ga­das.
Tam­bém em São Pedro (e um pouco por todo o con­ce­lho) as podas que têm sido efec­tu­a­das nas árvo­res mais não fazem do que deformá-las e criar pon­tos de fra­gi­li­dade por onde irão apo­dre­cer e obri­gar, mais cedo ou mais tarde, ao seu abate.
A estrada de São Pedro para Sin­tra, a cada ano que passa, tem vindo a per­der mais e mais árvo­res, aba­ti­das sem se saber porquê ou com que objec­tivo.
No Linhó foram aba­ti­dos mui­tos chou­pos que cons­ti­tuíam um perigo para a saúde pública. À entrada da povo­a­ção, foi aba­tido um euca­lipto cen­te­ná­rio que se encon­trava debi­li­tado e que pode­ria ter sido tra­tado caso neste con­ce­lho – e país – não se pri­vi­le­gi­asse a des­trui­ção de tudo o que é antigo. Antes dele um outro fôra aba­tido anos antes e agora um outro teve o mesmo des­tino bem no cen­tro da loca­li­dade.
Ainda no Linhó, e no mesmo espaço acima refe­rido, foram aba­ti­dos há pou­cas sema­nas dois cedros que não apa­ren­ta­vam qual­quer pro­blema fitos­sa­ni­tá­rio ou de blo­queio da visi­bi­li­dade do trân­sito.
Na estrada de Sin­tra para Cola­res têm sido aba­ti­dos plá­ta­nos enquanto que outros têm sido sujei­tos a podas radi­cais que alte­ram o seu cen­tro de gra­vi­dade e que os farão cair com qual­quer vento menos mode­rado. Junto à Adega pintaram-se alguns plá­ta­nos com o intuito de serem estu­da­dos e por cujo futuro a popu­la­ção se encon­tra pre­o­cu­pada.
No Car­ras­cal as podas às árvo­res junto à estrada cho­cam qual­quer pes­soa, o que demons­tra a capa­ci­dade de resis­tên­cia des­tas espé­cies a tanto mal­trato, uma vez que parece ser uma prá­tica recor­rente.
Na Estrada de Sin­tra para a Pena e para o Cas­telo várias são as árvo­res cor­ta­das ao longo do per­curso, sem que a popu­la­ção saiba por­que razões se fize­ram tais aba­tes. O mesmo se tem pas­sado na Estrada para os Capu­chos e em vários locais na Serra de Sin­tra. Res­tam à beira da estrada os tocos cor­ta­dos rente ao chão mas que per­mi­tem con­jec­tu­rar terem sido de grande porte.
Na Estrada de Chão de Meni­nos para Sin­tra tam­bém se pro­ce­deu a um des­baste de árvo­res dei­xando deso­lado um local ante­ri­or­mente ver­de­jante e exu­be­rante de vida. Algu­mas das árvo­res res­tan­tes tive­ram podas que as dese­qui­li­bram e os ter­re­nos fica­ram sem o suporte das raí­zes das árvo­res e da ante­rior vege­ta­ção pondo inclu­si­va­mente em perigo a esta­bi­li­dade da terra.
Bem sabe­mos que as árvo­res e as plan­tas – de um modo geral – são vis­tas neste país duma pers­pec­tiva mera­mente uti­li­tá­ria; mui­tas vezes são plan­ta­das espé­cies ina­pro­pri­a­das para os locais onde as colo­cam, outras vezes quem as planta esquece-se que o seu ine­vi­tá­vel cres­ci­mento irá cho­car com outros valo­res tidos por melho­res. No entanto, em nenhum país dos que conhe­ce­mos se encon­tra menos árvo­res velhas do que em Por­tu­gal; por toda a Europa se vê nos espa­ços públi­cos árvo­res cen­te­ná­rias – às vezes até mile­na­res – e são tra­ta­das com res­peito e con­si­de­ra­ção pelo seu bem-estar. Por esse mundo fora, pro­jec­tos de cons­tru­ção são modi­fi­ca­dos de modo a garan­tir a pre­ser­va­ção des­sas árvo­res; em paí­ses civi­li­za­dos investe-se no tra­ta­mento de árvo­res anti­gas que apre­sen­tam sinais de doença ou fra­gi­li­da­des estru­tu­rais. Neste país faz-se pre­ci­sa­mente o con­trá­rio, com a agra­vante de que por cada abate que se faz não se pro­cu­rar a subs­ti­tui­ção do que se per­deu. Este é tam­bém um dos sinais do nosso atraso cul­tu­ral.
Sin­tra foi con­si­de­rada Patri­mó­nio Mun­dial na cate­go­ria de Pai­sa­gem Cul­tu­ral e, de acordo com essa clas­si­fi­ca­ção é nosso enten­di­mento dever valorizar-se não só o patri­mó­nio ins­ti­tuído como o patri­mó­nio arbó­reo e natu­ral que o envolve tal como o rela­ci­o­na­mento das pes­soas com essas duas ver­ten­tes.
Sin­tra sem­pre foi conhe­cida pelas suas belas obras de arqui­tec­tura, mas não menos impor­tante são as estra­das sinu­o­sas cheias de arvo­redo e muros com musgo e fetos cele­bri­za­dos por Eça de Quei­rós ou mesmo por Lord Byron. Sin­tra é essa mís­tica que enlaça vivên­cia humana e arvo­redo.
Parece ser uma pre­o­cu­pa­ção da Câmara Muni­ci­pal de Sin­tra a pre­ser­va­ção, manu­ten­ção e tra­ta­mento das árvo­res pois em 2009 patro­ci­nou um ciclo de con­fe­rên­cias inti­tu­lado “Coi­sas d’Árvores” des­ti­nado a divul­gar boas prá­ti­cas em arbo­ri­cul­tura, con­tudo é com pre­o­cu­pa­ção que mui­tos dos que amam esta Sin­tra vêem desa­pa­re­cer a uma velo­ci­dade assus­ta­dora as árvo­res que sem­pre fize­ram parte das suas vidas.
As boas prá­ti­cas arbo­rí­co­las tam­bém pare­cem ser uma pre­o­cu­pa­ção de vossa exce­lên­cia uma vez que é do conhe­ci­mento público que em 2005 o Pre­si­dente da Câmara de Sin­tra assi­nou um regu­la­mento para a inter­ven­ção em árvo­res de Sin­tra que faz parte do Plano de Ges­tão da Pai­sa­gem Cul­tu­ral de Sin­tra onde está explí­cita a forma de pro­ce­der nas podas.
Por con­se­guinte gos­ta­ría­mos de ver escla­re­ci­das as seguin­tes ques­tões:
1. As árvo­res da vila de Sin­tra são dife­ren­tes ou obe­de­cem a regras diver­sas das árvo­res exis­ten­tes nou­tras loca­li­da­des do con­ce­lho?
2. Qual a com­pe­tên­cia téc­ni­cas das equi­pas que pro­ce­dem ao abate e podas das árvo­res?
3. A que enti­dade per­ten­cem estas equi­pas de abate e poda?
4. O que jus­ti­fica a poda radi­cal das árvo­res?
5. Que des­tino tem a madeira resul­tante de tais podas e aba­tes?
6. Quais são os pla­nos para os espa­ços ajar­di­na­dos acima cita­dos onde exis­tiam árvo­res?
7. Quais são os pla­nos para plan­ta­ção de árvo­res nos locais acima des­cri­tos?
Pedimos-lhes tam­bém que pro­vi­den­cie e dê ins­tru­ções para o fim da des­trui­ção do pouco patri­mó­nio arbo­rí­cola que nos resta e que se não for para nós pró­prios ao menos que seja para con­ti­nu­ar­mos a mere­cer a dis­tin­ção de ser­mos Patri­mó­nio Cul­tu­ral do Mundo.

Com os melho­res cumprimentos

Os Peti­ci­o­ná­rios

(As foto­gra­fias são da auto­ria, da esquerda para a direita, de: Pedro Maci­eira, Flor­bela Frade e Susana Félix.)

  1. Publicado 15 de Fevereiro de 2010 às 16:31 | Link

    Esta peti­ção é jus­tís­sima e a des­cri­ção pro­lon­gada que faz dos luga­res onde se tem vindo a assis­tir à muti­la­ção e exe­cu­ção de árvo­res, infe­liz­mente, pode­ria ser ainda muito maior. Sin­tra não é muito dife­rente da gene­ra­li­dade do país no que aos maus tra­tos às árvo­res diz res­peito, mas o facto da sua iden­ti­dade estar tão assente no poder e exu­be­rân­cia da sua arbo­ri­za­ção torna esta situ­a­ção par­ti­cu­lar­mente incom­pre­en­sí­vel. E, fora dos gran­des par­ques (sob a alçada da empresa pública Par­ques de Sin­tra – Monte da Lua), nos espa­ços públi­cos geri­dos pela Câmara Muni­ci­pal, que entre o fim do século XIX e mea­dos do século XX foram pro­fu­sa­mente arbo­ri­za­dos, a deca­dên­cia e o desa­pa­re­ci­mento pro­gres­sivo das suas árvo­res é assus­ta­dor. Assim, além de justa, é uma peti­ção muito opor­tuna, e os 27 segun­dos neces­sá­rios para cli­car o link e assi­nar não podiam ser mais bem empregues!

    • Publicado 18 de Fevereiro de 2010 às 17:45 | Link

      Efec­ti­va­mente, as árvo­res con­tri­buem para a cons­tru­ção da pai­sa­gem. E, em Sin­tra, a pai­sa­gem é patri­mó­nio. Quem pensa que o patri­mó­nio de Sin­tra é ape­nas o Cas­telo dos Mou­ros, o Palá­cio da Pena ou outros monu­men­tos his­tó­ri­cos, das duas uma: ou não conhece Sin­tra ou, pior, não a compreende.

      Em rela­ção a esta situ­a­ção ape­nas duas ache­gas:
      a) Sobre o abate de árvo­res na serra: tem havido infor­ma­ções, não con­fir­ma­das, que os mes­mos fariam parte de um plano para con­trolo de espé­cies inva­so­ras; se assim é, que se divul­gue qual a enti­dade que coor­dena este plano. Creio que essa ins­ti­tui­ção agra­de­cerá toda a publi­ci­dade à sua acção e estará dese­josa de expli­car os con­tor­nos da sua actu­a­ção.
      A menos, claro, que não haja nenhuma uni­ver­si­dade ou ins­ti­tuto público envol­vido nes­tes aba­tes e tudo não passe de uma acção casuís­tica que poderá, inclu­si­va­mente, agra­var o pro­blema das infes­tan­tes na Serra de Sin­tra.
      Pior ainda, seria o caso des­tes aba­tes nada terem a ver com o con­trolo de inva­so­ras e esta não pas­sar de uma des­culpa esfar­ra­pada para enco­brir outros interesses.

      b) Em rela­ção às podas no con­ce­lho: neste caso, e pelas infor­ma­ções de que dis­po­nho, trata-se de mais um caso simi­lar ao que ocorre em mui­tos outros muni­cí­pios do país; ou seja, dada a falta de regu­la­men­ta­ção no sec­tor, exis­tem gran­des empre­sas (flo­res­tais, de cons­tru­ção civil, etc.), sem a mínima com­pe­tên­cia em arbo­ri­cul­tura, a ganhar con­cur­sos públi­cos para a poda de árvo­res com base nos pre­ços bai­xos pro­pos­tos para o ser­viço. O resul­tado está à vista!

      • Publicado 19 de Fevereiro de 2010 às 0:56 | Link

        Pedro San­tos,
        O ata­que às “infes­tan­tes”, come­çou por estes lados em força em 2007 na zona sen­sí­vel dos Capu­chos (Tapada D.Fernando II).

        http://riodasmacas.blogspot.com/2007/08/os-cedros-tambm-se-abatem-na-tapada.html

        Pos­te­ri­or­mente a Par­ques Sin­tra Monte da Lua, (PSML) avan­çou para Mon­ser­rate, até Sete­ais, na altura o téc­nico res­pon­sá­vel enviou-me , a meu pedido uma extensa jus­ti­fi­ca­ção de carác­ter téc­nico, mas os efei­tos dessa devas­ta­ção estão à vista 3 anos depois…

        Não foi na altura (tam­bém) pos­si­vel arran­jar con­sen­sos sobre a inter­ven­ção, mesmo na área ambientalista…a Quer­cus, por exemplo.

        Hoje a ques­tão coloca-se com bri­ga­das coor­de­na­das(?) pela CMS, Caso das Tílias de S.Pedro de Sin­tra, e mais recen­te­mente no Car­ras­cal em Sin­tra pelas carac­te­rís­ti­cas da inter­ven­ção terá sido a mesma coisa.

        A peti­ção tem tor­nado público este pro­blema, que requer uma “solu­ção” rápida, e agora é tempo de pres­si­o­nar o Gabi­nete do Pre­si­dente da CMS, para assu­mir as res­pos­tas que lhe colo­cá­mos.
        Um abraço

  1. Por Quinta do Sargaçal – a 19 de Fevereiro de 2010 às 4:01

    […] Peti­ção pelas árvo­res de Sin­tra A des­trui­ção sis­te­má­tica das árvo­res do nosso país pelo sim­ples abate ou podas desas­tra­das é incom­pre­en­sí­vel. Em Sin­tra, um ver­da­deiro crime. Árvo­res de Portugal. […]

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