A Sanha Vingadora

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Com os temporais que se têm abatido sobre a Península Ibérica, as notícias de desastres começam a tornar-se perturbadoramente frequentes. No passado Sábado, porem, a ferramenta manipulada pelo mau tempo, foi uma árvore.

Em Paredes, um menino de dez anos, que jogava à bola em frente à igreja, morreu atingido por uma pernada que caiu. Uma perda irreparável.

Depois de chamado o INEM, a primeira medida que a senhora Vereadora da Protecção Civil tomou, com impressionante prontidão, foi ordenar o abate de várias árvores na zona. No entanto, a própria senhora Vereadora afirma, em afirmações à SIC, que a árvore estava saudável.

Mas na notícia RTP (minuto oito), a mesma Vereadora informa que cinco equipas da Protecção Civil, armadas de motosserras, cortaram “todas as árvores que apresentavam sinais de degradação”, com ajuda de “madeireiros profissionais certificados” que actuaram em conjunto com a Câmara Municipal de Paredes.

Obviamente que, numa situação destas, as autoridades têm as suas prioridades, sendo uma das principais arranjar um bode expiatório para os olhos da opinião pública.

Sobressaem, imediatamente, três questões:

1) Quem avaliou, tão prontamente, este estado de degradação? Os melhores profissionais da arboricultura do país (e temos vários e bons) não teriam, provavelmente, feito um trabalho tão rápido. Ou deveríamos dizer “sumário”?

2) Quem fez a avaliação estrutural destas árvores? Foram técnicos arboricultores verdadeiramente habilitados ou os chamados “madeireiros profissionais certificados”? Neste último caso, seria como por um lobo a cuidar das ovelhas.

3) E a principal questão que se levanta é: como é que se consegue fazer em pouquíssimas horas o que não se fez em vários anos? Como é que, depois (e só depois) da morte de uma criança, se percebe instantaneamente quais são as árvores maléficas e estropiadas que ameaçam a segurança das pessoas?

Esta última questão levanta ainda várias dúvidas, que poderão estar por detrás da larga maioria de acidentes relacionados com queda de árvores ou ramos: que cuidados foram dispensados a estas árvores durante a sua vida? Qual a frequência das avaliações fitossanitárias e estruturais, quem as fez e onde se podem consultar estes resultados?

É sabido que o potencial perigo aportado por uma árvore é criado ou gravemente agravado por quem tem a seu cargo a própria segurança das pessoas. Excesso de rega, compactação excessiva dos solos, má escolha das espécies e falta de espaço para o seu desenvolvimento, caldeiras apertadas, destruição de raízes, rolagens e podas absurdas e mal realizadas, tudo isto são factores de fragilização destes seres de cuja majestosa presença não queremos e podemos não prescindir nas nossas cidades e vilas.

Contrariamente ao que é comum, e segundo o que consegui apurar, estes exemplares não foram vítimas das omnipresentes podas ou rolagens.

Em condições adversas e se sujeitas a tratamentos desajustados, as árvores podem ser, efectivamente, perigosas. Também a permissão para construir dentro de uma ribeira ou o encanamento da mesma é motivo de enormes desgraças, como temos visto ultimamente. Falta saber se os responsáveis por estes actos criminosos serão punidos com a mesma celeridade.

Em Nova York, a queda de um ramo matou igualmente um transeunte (New York Times, também no Weather Channel) igualmente um transeunte no Central Park. Esta é uma das cidades mais populosas do mundo, sujeita a temporais como nunca ou raramente temos por cá. Apesar disso, tem ruas arborizadas e uma “floresta” no seu coração. No entanto, os benefícios do parque são infinitamente superiores aos riscos que estas grandes e velhas árvores acarretam, pelo que é impensável, na sequência de um acidente lamentável como este, as árvores serem roladas ou abatidas às cegas. O que existe por lá, com certeza, são inspecções periódicas, feitas por técnicos verdadeiramente habilitados.

Por cá, foi noticiado também que vários bombeiros ficaram feridos a tentar abater uma outra árvore. Infelizmente, no nosso país todos percebem de tudo e qualquer um mexe nas árvores: jardineiros, madeireiros, bombeiros. Parece que quem é menos chamado a tratar delas são precisamente as únicas pessoas habilitadas para isso: os técnicos de arboricultura.

Lamentamos profundamente a perda desta família, e esperamos que no futuro imediato se comece, finalmente, a olhar para as árvores das nossas ruas e jardins com mais atenção e, especialmente, com mais conhecimento técnico fundamentado. Para que se reduzam as possibilidades de ocorrerem mais tragédias como esta.

  1. Publicado 1 de Março de 2010 às 8:34 | Link
  2. Publicado 1 de Março de 2010 às 16:28 | Link

    Felizmente, estes casos são raríssimos. Se utilizássemos o mesmo critério para cada acidente que acontece, ainda não se tinha saído das cavernas. Como diz no texto, sensato seria proceder a uma avaliação do estado das árvores — antes. Não evitava todos os acidentes, mas evitaria alguns.
    Outra coisa sensata, seria que num fim de semana em que a protecção civil emite alertas vermelhos por causa do vento, os pais não deixarem os filhos brincar lá fora. Pode ser uma árvore, uma tampa de ecoponto, uma telha, uma chapa de zinco que voa…
    É caso para questionar para que servem os alertas da protecção civíl e também porque se emitem tantos alertas sem significado, tornando o assunto uma banalidade. A agenda é mediática, ou para proteger as pessoas?

  3. João Bicho
    Publicado 2 de Março de 2010 às 15:08 | Link

    O que me espanta é a pronta destruição de elementos de prova (isso é crime!). Também me espanta que a policia fique indiferente a este crime.

    Falta tornar crime este tipo de ocorrência, porque entendo que há responsáveis que deveriam responder por estas perdas tão pesadas para as famílias das vítimas.

  4. Publicado 3 de Março de 2010 às 23:08 | Link

    Quer isso dizer que sempre que alguém é atropelado numa passadeira manda-se abater todos os carros que apresentem qualquer dano, certo?

    Também achei que não. E no entanto, infelizmente, os carros matam muito mais sem que ninguém pestaneje.

    É a ignorância aliada ao oportunismo. De facto somos um povo que odiamos árvores.

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