As Infestantes de Sintra

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A chocante rolagem de plátanos do Largo do Morais1, em Sintra, foi “justificada” por um funcionário dos Serviços de Ambiente da Câmara Municipal de Sintra (CMS), nos seguintes moldes:

Eu acho que deviam é arran­car os plá­ta­nos todos. Isto é uma por­ca­ria! Não sabe que os plá­ta­nos são umas infes­tan­tes?

Perante o cenário que estas tristes imagens retratam, presume-se que, em Sintra, aos olhos de muitos funcionários municipais, as tílias sejam, do mesmo modo, consideradas como sendo “umas infestantes”. Apetece-me desabafar que a verdadeira desinfestação deveria ser feita no interior dos serviços do Estado que utilizam dinheiros públicos para destruir o património que é de todos.

Ao contrário dos plátanos e das tílias de Sintra, a ignorância é uma verdadeira e perigosa infestante. Mas que tem solução e simples. Basta ter vontade de aprender. Informação, nos dias que correm, é coisa que não falta. Dá-se o caso, inclusive, da própria CMS ter organizado, no ano transacto, um ciclo de conferências denominado Coisas d’ Árvores. A apresentação do evento rezava assim:

Contribuir para que, se as árvores se pudessem ver ao espelho, gostassem da imagem reflectida e louvassem o cuidado posto na sua fisionomia, saúde e preservação é o tema para o ciclo de acções formativas que a autarquia promove, gratuitamente, no Palácio Valenças, em Sintra.

Passado um ano, e após as barbaridades que têm sido relatadas em vários blogues, permitam-me retirar a seguinte conclusão: de nada serviu o dinheiro gasto nestas conferências. Nada se aprendeu! Talvez porque, arrisco a opinar, o objectivo real nunca foi o de aprender a saber gerir o património arbóreo do concelho mas, tão-somente, criar a ilusão, entre os sintrenses, de que a manutenção das árvores ornamentais iria mudar para melhor.

No que concerne à manutenção das árvores ornamentais, o factor “dinheiro” é mais importante do que se possa pensar à primeira vista, pois o actual cenário de crise económica tem acentuado uma tendência que vem de anos anteriores. Várias empresas de média dimensão, sem qualquer técnico capacitado para podar árvores, estão a concorrer a concursos públicos para a manutenção de árvores ornamentais.
Dada a sua maior dimensão e o facto de não trabalharem com mão-de-obra especializada, conseguem fazer preços muito baixos, com os quais as empresas de arboricultura têm dificuldade em competir.

A maioria das câmaras municipais do nosso país, infelizmente, opta pelas empresas que propõem o preço mais baixo, sem se preocuparem com a competência técnica com a qual o trabalho irá ser executado. O mais irónico é que as rolagens acabam por se revelar, a médio prazo, uma opção mais cara, pois obrigam a intervenções periódicas, a posteriori, para remover ramos de inserção mais frágil e para tentar prevenir a decrepitude da árvore. Em muitos casos, as árvores não sobrevivem a estas práticas, acabando por morrer no próprio ano ou a curto prazo, o que acarreta os custos de remoção das mesmas e da plantação de novos exemplares.

No caso de Sintra, teria sido preferível, à CMS, ter poupado o dinheiro do citado ciclo de conferências e ter investido o mesmo na contratação de uma boa empresa de arboricultura. As árvores do concelho, e os seus habitantes, teriam agradecido.

Infelizmente, em Sintra como em muitos outros locais do país, as autarquias, na hora de decidir, continuam a confiar a manutenção das árvores a empresas sem qualquer credibilidade no sector. Pessoas sem a mínima formação técnica destroem, em minutos, o que levou anos a crescer. Impunemente e pago com o dinheiro de todos nós!

Termino este texto, relembrando que existe uma petição, denominada A Favor das Árvores de Sintra, dirigida ao Presidente da autarquia, solicitando explicações sobre estas intervenções. Se ainda não a assinou e se sente, como nós, indignado com o que ocorre nesta vila, Património Mundial na categoria de Paisagem Cultural, assine-a por favor!

Não seja cúmplice, pelo silêncio. Obrigado.

1 Ler texto do Pedro Arrabaça, publicado neste blogue: Ignorância, Estupidez & Companhia: Um Desabafo.

(Fotografias gentilmente cedidas por uma leitora do blogue.)

  1. Rúben Boas
    Publicado 17 de Abril de 2010 às 10:02 | Link

    É indignante! Além de podarem em excesso, podam no momento errado, logo quando as folhas já estão a crescer.
    Lamento haverem tantas situações destas pelo país. Ainda é mais estranho isto acontecer em Sintra, que é candidata a Maravilha Natural.
    No entanto, por exemplo, em Coimbra, não costumo assistir a estes cenários. Talvez seja influência do departamento de Botânica / Jardim Botânico.

    Petição assinada. ;)

  2. Publicado 17 de Abril de 2010 às 13:43 | Link

    O contraste de uma câmara promover palestras sobre um tema e fazer exactamente o oposto, infelizmente não me admira. Basta ver o exemplo de Valença, onde um gabinete realiza um enorme esforço na rearborização do concelho e os responsáveis dos Espaços Verdes destroem, de forma sistemática e bem calculada, árvores antigas ou novas (para breve, neste sítio). O que se passa em Sintra é apenas a versão institucional do dito popular “olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço”. Por outro lado, parece indicar que ninguém dos Serviços de Ambiente da CMS compareceu ao evento organizado pela própria câmara.

    O pior tipo de ignorância é a que é voluntária. Dá vontade de a classificar de outra forma, uma vez que, no que se refere a princípios básicos nos cuidados a ter com as árvores, informação não falta. O marco histórico que é o livro A Árvore, de Francisco Caldeira Cabral e Gonçalo Ribeiro Teles apresenta toda esta informação básica. Está lá tudo. Há 50 anos!

    Quanto a empresas que andam por aí a ganhar estes concursos, vão desde madeireiros (que, como se sabe, a especialização é apenas “cortar”) até empresas de construção civil que até fazem demolições. Estamos bem entregues.

    Se não forem as pessoas a começarem a exercer pressão sobre os decisores, vamos continuar na mesma.

  3. Publicado 17 de Abril de 2010 às 22:50 | Link

    Pedro,
    Agradeço o apoio que as “Árvores de Portugal” e a “Sombra Verde” tem dado a este movimento a favor da árvores de Sintra.
    Hoje de novo publiquei mais um post sobre este grave assunto:

    http://riodasmacas.blogspot.com/2010/04/as-infelizes-arvores-de-sintra-iii.html

    Divulgando amanhã no “Rio das Maçãs” com link para o texto que hoje aqui foi publicado.
    Um abraço
    Pedro Macieira

    • Publicado 18 de Abril de 2010 às 10:37 | Link

      Caro Pedro,

      Não há necessidade de agradecer ou, então, eu e tantas outras pessoas também teríamos que lhe agradecer tudo o que tem feito, pelas árvores de Sintra, no seu blogue.

      A luta é de todos nós. A razão está do nosso lado e é isso que nos motiva.

      Abraço.

  4. Publicado 18 de Abril de 2010 às 8:35 | Link

    Esta rua sobe em curvas e contracurvas na direcção de São Pedro se Sintra. É arborizada por tílias neste seu troço inicial e por plátanos por mais acima (que, aliás, estão a ter uma sorte semelhante). O troço das tílias que se vê nas fotos foi, em grande parte, vedado e identificado com umas folhas A4, presas aos troncos, avisando que iria proceder a podas no dia 13 de Abril. Apesar da destruição que aqui se vê ser grande, o trabalho não parece estar completo, permanecendo as vedações e os avisos. Pergunto-me se os trabalhos foram simplesmente adiados (talvez falta de verba para pagar aos lenhadores?) ou se estes protestos tiveram algum eco. É que o vereador com a responsabilidade politica sobre a área do ambiente (Marco Almeida) foi alertado para o assunto, sendo que se trata de alguém cujas manifestações públicas têm sido contra estas práticas primitivas.

    A pergunta que se pode pôr é esta: será possível que o dirigente politico (e mesmo dirigentes técnicos) defendam uma determinada posição e que a realidade acabe por revelar resultados opostos? Nada mais comum na nossa administração local, diria eu, especialmente em grandes municípios cheios de bolhas de poderes contraditórios. Mas se assim é, é necessário que as coisas se clarifiquem, e seria bom que este caso ajudasse essa clarificação. Vamos lá a saber se a CM de Sintra quer as suas árvores reduzidas ao menor número possível e sob a forma de cotos, ou se quer manter e reforçar o legado das gerações passadas que fizeram a sua fama – legados como, por exemplo, a arborização das suas ruas com estas “infestantes”.

    • sintrense
      Publicado 18 de Abril de 2010 às 9:46 | Link

      No sabado de manhã tinham recomeçado o trabalho mas, talvez devido à chuva foram-se embora, deve ser mesmo só por isso …

    • Publicado 18 de Abril de 2010 às 10:52 | Link

      Há, em mui­tas autar­quias e de acordo com pes­soas que conheço e que tra­ba­lham no sec­tor da arbo­ri­cul­tura, uma nova gera­ção de téc­ni­cos com uma forma dife­rente de ver a forma como as árvo­res devem ser tratadas.

      O pro­blema é que, infe­liz­mente e na mai­o­ria dos casos, estão iso­la­dos e em mino­ria, con­tra vozes supe­ri­o­res a favor da tra­di­ção de rolar as árvo­res. (Ler este comen­tá­rio, de Carla Silva, por exem­plo, no último texto do Pedro Arrabaça.)

      Acre­dito que este vere­a­dor, Marco Almeida, possa ser uma das vozes iso­la­das den­tro da Câmara de Sin­tra, a favor de uma prá­tica dis­tinta no que con­cerne à manu­ten­ção das árvo­res. Vamos acre­di­tar que a força da voz dos cida­dãos de Sin­tra, revol­ta­dos com estas bar­ba­ri­da­des, aca­bará por aju­dar aque­les que, den­tro da autar­quia, que­rem mudar o actual estado de coisas.

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