Este texto é um desabafo sobre mais um episódio comum de maus tratos de árvores em Portugal, apimentado por um encontro in loco entre o seu autor e o funcionário de um serviço responsável por árvores municipais que assume detestá-las – um parente próximo de bombeiros incendiários e de polícias que lideram quadrilhas.
O caso passa-se em Sintra. Quem lá chega descendo as curvas da estrada de Chão de Meninos tem à sua esquerda uma confluência de ruas e um pequeno jardim a que chamam Largo do Morais. No jardim sobrevive um grupo de plátanos que em tempos foram cortados à selvagem mas que desde há duas décadas eram deixados viver mais ou menos em paz. Pois essas duas décadas chegaram ao fim. A Câmara Municipal decidiu que tudo aquilo eram verduras a mais e, no preciso momento em que mais uma geração de folhagem de abria ao sol e preparava as sombras de mais um Verão, ligou a motosserra e acabou com a brincadeira.
Os cortes começaram primeiro por dois exemplares a meio do conjunto, talvez para dar menos nas vistas – o caso foi noticiado pelo Rio das Maçãs – mas nesta semana foi alargado aos plátanos restantes e eu, que até ali me tinha deixado ficar em estado de negação, dirigi-me ao local com máquina fotográfica. Estava a chegar ao fim da sessão quando fui abordado com insistência por um homem automobilizado:
– Porque é que está a fotografar? Porque é que está a fotografar? (pausa) É para reclamar? É para reclamar? (pausa) Se é para reclamar não vale a pena!
Como sou optimista e ingénuo, achei que podia tratar-se de mais um cidadão amargurado pela carnificina e desiludido pela sua impotência face aos poderes públicos. O tom, no entanto, parecia demasiado irritado e um tanto provocador. Respondi que sim, que era para reclamar e que achava que, pelo contrário, valia a pena.
– (agora realmente irritado) Escusa de reclamar! Escusa de reclamar! Isto está tudo autorizado! Tudo! Eu trabalho aqui (no edifício ao lado), nos serviços de ambiente. Temos autorização para podar até Abril!
– Mas isto não é uma poda! Estão simplesmente a dar cabo dos plátanos!
– (mais irritado ainda) Eu acho que deviam é arrancar os plátanos todos. Isto é uma porcaria! (tentando recompor-se e dando um tom sábio à voz) Não sabe que os plátanos são umas infestantes? (pondo o carro em movimento e afastando-se) Está tudo autorizado, escusa de reclamar!
Portanto, este era um funcionário “do ambiente”. Não é difícil imaginar que represente bem os serviços onde trabalha – serviços cuja existência pagamos e que lentamente arrasam o legado de arborização pública deixado por gerações mais iluminadas. A situação ganha contornos novos quando nos recordamos de uma série meritória de acções de formação que decorreram há menos de um ano, onde responsáveis políticos, dirigentes, técnicos e outros cidadãos pareciam concordar na necessidade de mudar práticas, atitudes e cultura.
Serão os dirigentes responsáveis por esta situação apenas ignorantes? Ou estúpidos, porque não aprendem o que se lhes ensina? Ou brutos, porque não se apercebem do valor raro do que destroem? Ou sonsos, porque destroem dissimuladamente, sabendo que muitos os reprovam? Ou cobardes, porque não afrontam práticas primitivas dos seus subordinados? Ou incompetentes, porque não conseguem fazer com que se faça o que deve ser feito?
Enfim, destroçado com o martírio dos plátanos e deprimido pelo encontro com o funcionário, decidi fazer um pouco de auto-terapia (só enquanto não reclamo) e vim para aqui desabafar.
(Nota final: esta história é verídica.)




O homem que é insensível ou indiferente à poesia, à música ou à pintura (e aos Plátanos de Sintra, acrescento eu) é um homem ensurdecido no seu ser e diminuído na sua existência. Um homem mutilado, anormal e temível. É o destruidor da alegria.
*
Sophia de Mello Breyner Andresen
É uma história aberrante. Mas também as tílias em frente do Café Paris e os plátanos do adro da Igreja de São Martinho, tudo bem perto do Palácio Nacional de Sintra, foram mais uma vez barbaramente podados, a condizer com estes do Largo do Morais.
No seguimento disto, hoje (o que já tinha acontecido há uns dias) o princípio da R. D. João de Castro tem as árvores todas marcadas, para os carros não estacionarem, para corte/poda(?), que deve começar amanhã …
Rio de Moinhos não! mais propriamente pelo http://riodasmacas.blogspot.com/
Obrigado. Lapso corrigido.
P.S. – Obrigado, igualmente, ao Pedro Macieira e ao seu blogue, Rio das Maçãs, que tanto têm feito pela denúncia dos atropelos ao património arbóreo do concelho de Sintra.
Realmente o mundo anda cheio de Palhaços! Será que estes pulhas não têm vergonha de se ver ao espelho? Como é possível as pessoas serem tão ignorantes, é em Sintra, é em Loulé e por aí fora… Meus Deus por onde andas?
Terrível. É uma história verídica que se repete por todo o país. E contribuímos nós para esta gente ter emprego. Estes autênticos “infestantes”.
Bem… na R. D.João de Castro ainda está a ser pior… até doi o coração.
Parece ser fado de muitos serviços responsáveis por árvores públicas estarem infestados de gente “mutilada, anormal e temível”. A desinfestação não é fácil e está por inventar um remédio realmente eficaz. Talvez umas valentes colheradas de Sophia pela goela abaixo. Um pouco mais de cidadania também pode ser que ajude.
Ainda não tive o desprazer de ver as tílias e os plátanos da Vila Velha, mas passei nas tílias da D. João de Castro e o espectáculo é aterrador. Eram tílias altas, muito cortadas até talvez aos anos 80 mas que se tinham recomposto e formavam um magnífico túnel verde no início desta rua, que nesta altura do ano já estava meio formado. Estão a ser arrasadas.
(Obrigado pelo reparo sobre o “Rio de Moinhos” e pela rápida rectificação feita pelos espíritos benfazejos deste blogue!)
Este caso é absolutamente sórdido e demonstra, se necessidade houvesse, a que tipo de gente estão entregues os serviços de ambiente de muitas das nossas autarquias. É como por o lobo a guardar o rebanho… É que, ao contrário dos plátanos, a ignorância é uma das piores infestantes deste país, sobretudo dentro de muitos serviços públicos.
A arrogância e o desconforto do dito senhor virão, certamente, não apenas do seu ódio aos plátanos, mas também do provável incómodo provocado nos serviços da Câmara de Sintra, por todos os que têm denunciado este tipo de situações na vila. Sabe a pouco, infelizmente, pois esta luta não foi suficiente para suster estes actos irracionais que se irão repercutir futuramente, por muitos anos.
A propósito do que se passa em Sintra, e na esmagadora maioria dos demais municípios portugueses, convém relembrar que não existe qualquer legislação que impeça pessoas, ou empresas, sem qualquer habilitação técnica em arboricultura, para podar árvores ornamentais.
É como se para desenhar e construir uma ponte não fosse necessário recorrer ao trabalho de engenheiros; ou como se, qualquer pessoa, mesmo sem formação em medicina, pudesse trabalhar num hospital, receitando medicamentos ou fazendo operações.
Apesar do surreal dos exemplos anteriores, é assim, em Portugal, no que concerne à manutenção de árvores em espaços públicos: a empresa que apresentar o preço mais baixo no concurso público é a que ganha, ainda que não possua qualquer funcionário habilitado para podar árvores. No nosso país, qualquer pessoa com uma motosserra nas mãos pode destruir, em minutos, o que levou dezenas de anos a crescer.
É assim, anualmente, em centenas de municípios. Vandalismo, puro e simples, pago com o dinheiro dos nossos impostos!
O espectáculo da rua agora é dantesco … e elas que já estavam a deitar o seu belo perfume, é criminoso o que se anda a fazer !
Costumo comparar as infestantes a um cancro das florestas. Como foi por vós referido este termo a respeito deste tipo de gente, limito-me a aplicar lógica básica.
Acho que já contei esta situação mas vou repetir o episódio. A primeira vez que me dirigi aos serviços de ambiente da CM Loulé e disse quem era, perguntaram-me logo: “Não me diga que também é dos anda aí a escrever sobre as árvores?!” A enorme irritação do senhor no episódio do Pedro, é mais uma pequena vitória dos que se preocupam e que se dão ao trabalho de denunciar estas barbaridades ignorantes.
O primeiro passo é tornar-se incómodo. Em Sintra, em Loulé, no Porto e em Lisboa já se atingiu esta primeira etapa. Está no hora de alastrar esta tendência pelo resto do país! Não podemos é desanimar em face das toneladas de madeira viva caídas aos nossos pés, ainda que isso nos torture a alma. O movimento de pessoas preocupadas com as árvores é cada vez maior e, muito importante, cada vez mais esclarecido, pelo menos no que refere ao que não deve nem pode ser feito: rolagens e podas bárbaras ignorantes.
Obrigado, Pedro, pelo teu desabafo!
Olá Miguel,
Totalmente de acordo. Deveriamos estabelecer uma rede através da NET em que cada vez que isto acontece o caso pudesse viajar com a maior intensidade possível por toda a rede. Um guarda chuva do género “Amigos das Árvores de Portugal” avançaria pela rede massivamente em defesa das árvores do nosso país. Eu sou da opinião do Miguel. Isto só muda com muito incómodo. E ao mesmo tempo há que fazer os aliados certos que eduquem para os bons exemplos.
Isto é uma calamidade nacional. Se a ignorância pagasse imposto tinhamos a segurança social assegurada por muitos e bons anos.
Abraços
João Martins
Olá João,
Um dos objectivos da Associação Árvores de Portugal é vir a ser, precisamente, esse guarda-chuva, sem, com isto, querermos ficar com o exclusivo da defesa das árvores do nosso país.
A eficácia da nossa acção dependerá da força, do empenho e da capacidade de iniciativa dos que, connosco, quiserem lutar em prol da defesa das árvores deste país.
Uma das primeiras batalhas é, efectivamente, ser incómodos até ao ponto de não mais podermos ser ignorados.
Abraço.
http://riodasmacas.blogspot.com/2010/04/arvores-de-sintra-novos-abates.html
Gostaria de me juntar a essa rede de protesto de que falam nos posts. Talvez seja uma outra forma de tentar mudar mentalidades. É que há mais de 10 anos que trabalho numa autarquia e tenho feito de tudo para alterar más práticas mas é muito dificil.
Há sempre Alguém que dá ordens para fazer como sempre se fez! Infelizmente a grande parte dos portugueses acha estes trabalhos bem feitos porque foi o que sempre viram, outros têm medo das árvores muito altas… enfim o roll de justificações sem fundamento são enormes. Outra grande parte está-se literalmente a borrificar nunca ninguém os ensinou a respeitar e a gostar de ver uma árvore bonita.
Mas reclamar e escrever apenas num blog não é suficiente.
Olá Carla e obrigado pelo seu comentário.
Foi precisamente por acharmos que um blogue não é suficiente, que nos decidimos pela criação de uma associação virada para a defesa da árvore e dos jardins de Portugal.
O impacto da nossa associação dependerá do apoio que tivermos, ou seja, da adesão de pessoas com vontade de ajudar e trabalhar para esse objectivo: defender as árvores. Ninguém ouvirá uma associação com 500 sócios, mas uma associação com 5 000 sócios já terá outra força.
No entanto, mais do que 5 000 nomes, interessam-nos pessoas com ideias e capacidade de iniciativa para, por exemplo, sugerir e implementar acções que possam ajudar a combater o problema da rolagem das árvores ornamentais, nas nossas vilas e cidades.
Temos várias ideias que oportunamente divulgaremos. Ideias para projectos que actuem onde, no nosso entender, é necessário actuar: ao nível da mudança de mentalidades, começando pelas escolas e pelo reforço da educação para com o respeito ao papel das árvores nas nossas vidas. Como qualquer guerra, esta também se vencerá pelo lado da informação e é preciso que, desde muito novas, as crianças possam conhecer algumas das nossas árvores monumentais e classificadas, para que melhor compreendam os erros cometidos pelos adultos. Porque, sobretudo para as crianças, uma imagem vale mais do que 1 000 palavras… Como professor, faço desta questão uma luta (quase) diária. E sei que, com persistência, se pode vencer.
Em segundo lugar, ao nível da legislação, pretendemos lutar para que as cidades tenham planos de arborização, desenvolvidos por técnicos competentes, e que, por lei, apenas empresas com arboricultores certificados possam podar árvores.
Contamos com todos os que se interessam por estas questões e estão dispostos a fazer a diferença, dando parte do seu tempo e da sua energia para esta causa.
Sem esse apoio, muitas destas ideias não passarão disso mesmo, ou seja, de ideias.
P.S. – Sabemos que nas câmaras municipais há uma geração de pessoas com ideias novas sobre esta temática, que lutam contra um passado de más práticas na manutenção de árvores no espaço público. É preciso dar força a essas pessoas, como a Carla.
A barbaridade continua:
http://riodasmacas.blogspot.com/2010/04/as-infelizes-arvores-de-sintra-ii.html
Desta vez foram as tílias, da rua D.João de Castro…
Pedro Macieira
Bom dia Pedro,
Também recebemos as fotografias desse deplorável acto. Serão publicadas amanhã, juntamente com um texto sobre o caso.
Os campos de futebol não tem árvores, não é verdade? Quem autoriza estes crimes devia ser banido de Sintra e arredores.
[...] 1 Ler texto do Pedro Arrabaça, publicado neste blogue: Ignorância, Estupidez & Companhia: Um Desabafo. [...]