Não há Páscoa que não me faça pensar nas olaias (Cercis siliquastrum L.) e no peso da culpa que carregam aos ombros.
A dita culpa provém de uma lenda, de origem desconhecida, que refere ter sido numa olaia que Judas Iscariotes se enforcou, angustiado e corroído pelos remorsos. Mas a lenda vai mais longe e insinua, inclusive, que as flores da olaia seriam originalmente brancas e que teriam corado de vergonha, perante os actos de Judas. O que a lenda não explica é o facto das olaias de flores brancas terem chegado até aos dias de hoje, indiferentes aos pecados alheios, mas isso já é outra história…
Todos nós sabemos como a botânica mente, pela mão humana, como no caso, um entre tantos, do cedro-do-buçaco que não é cedro e muito menos do Buçaco. Também no caso da olaia, a designação vulgar em língua inglesa (Judas tree) poderá não ser mais do que uma deturpação do nome vulgar desta espécie em francês (arbre de Judée), ou seja, árvore-da-judeia.
Independentemente de lendas e histórias, árvore alguma merece ficar presa ao passado e carregar a culpa alheia…
Porém, para mal dos seus pecados, a olaia carrega, hoje em dia, outra cruz. Nascida no seio de uma família (Fabaceae) que tantas dores de cabeça origina, em Portugal, em termos de invasões biológicas, também esta espécie foi colocada numa lista de possíveis invasoras. Não, nada de desatarmos a cortar as olaias ou proibir a sua plantação. Mas vamos manter-nos atentos, não vão estas nossas amigas começar a abusar da hospitalidade que o nosso país lhes tem dado.
Assim sendo, ainda que ilibada dos pecados de Judas, a olaia continuará a ser olhada de soslaio e deverá continuar a esforçar-se por merecer a nossa confiança. Há árvores que nascem com uma espécie de triste fado que lhes marca o destino.
Até nisso, as olaias, não sendo nossas, são tipicamente portuguesas…




Boa Páscoa a todos :) .