É um ambiente que nos reporta aos cenários da I Guerra Mundial. Dezenas e dezenas de valas (trincheiras?) com um metro de profundidade. No entanto, estas valas não delimitam nenhuma “terra de ninguém”, mas alastram dentro de um jardim que pertence à população de uma cidade: Loulé.
O que fica, por demais patente nas imagens, são os milhares de raízes cortadas das muitas árvores deste espaço. O que não se vê, mas que sabemos que está a acontecer, logo abaixo da superfície, é a compactação do solo encharcado, pela pesada maquinaria que aqui opera (ver vídeo), afectando as raízes sobreviventes.
Também neste caso, procurámos um esclarecimento junto da Câmara Municipal de Loulé (CML), tendo sido recebidos por um responsável da Divisão de Projectos.
Segundo este técnico, a requalificação em causa era urgente e necessária pois este jardim, conhecido localmente por Parque da Cidade, sofreria de excesso de ensombramento devido a uma grande densidade do arvoredo. Para além disso, este espaço público é, na opinião da autarquia, pouco frequentado pela população, sendo pouco recomendável a sua visitação à noite.
Assim, terá sido necessário fazer algumas opções, tendo este gabinete municipal, no intuito de dinamizar o local, decidido instalar vários equipamentos (minigolfe, skate-parque, entre outros), arruamentos cimentados, iluminação, melhoramento do sistema de drenagem e um novo sistema de rega. Obviamente, tudo isto obedece a determinadas regras técnicas que o projecto terá que cumprir, o que, na opinião do citado técnico da CML, justificará o grau de impacto que estas obras estão a provocar no espaço.
O que nos preocupa, neste caso, vai muito além dos danos, no imediato, às árvores. Danos esses que não deixarão de prejudicar seriamente o seu sistema radicular e, com isto, afectar, a prazo, o seu vigor vegetativo e o seu equilíbrio fisiológico. Possivelmente, só nos iremos aperceber deste impacto mais tarde, quando algumas começarem a definhar ou mesmo a morrer, aumentando o risco de tombarem ou de deixarem cair ramos, isto num espaço onde, caso se consiga o objectivo do projecto, haverá mais pessoas a frequentá-lo e , logo, maiores serão os riscos para quem o frequentar.
Para além dos exemplares que está previsto abater (para aumentar a insolação), talvez nessa altura venha a ser necessário eliminar grande parte das árvores que agora consigam resistir. Especialmente delicada será a situação das resinosas (e são muitas), grupo muito sensível à danificação das suas raízes. Acresce que, devido a uma camada de solo compacto bastante superficial, o raizame se situa, na sua maior parte, no primeiro metro de solo. No Jardim do Príncipe Real , caso muito polémico e mediatizado, a intervenção ao nível dos solos é, ainda assim, menor do que aqui (também aqui).
Embora concordemos que, neste caso, todas as opções técnicas seriam difíceis de implementar sem que houvesse um impacto mínimo no arvoredo, consideramos que o que se verifica neste jardim é, notoriamente, demasiado drástico para que se possa ter esperança na futura saúde geral de muitas destas árvores. De forma alguma se aceita ou se compreende uma intervenção destas num espaço tão densamente arborizado e que se pretende mais dinâmico. A bem das árvores e das pessoas.




Há aqui duas coisas que me causam perturbação, a primeira ao nível das intenções por detrás deste tipo de projectos, ditos de “requalificação”, e a segunda, obviamente, ao nível do modo como as obras são implementadas no terreno.
Desde logo, incomoda-me, e não consigo compreender, juro que não consigo, esta necessidade, permanente e premente, de requalificar tudo o que é jardim, por esse país fora. Parece que a um jardim, para atrair as pessoas, já não basta ter árvores e sombras. Isso é passado…Agora, ao que parece, os jardins têm que ser modernos, o que implica a construção de uma série de equipamentos, tudo à conta da amputação do espaço para o verde.
Outra coisa que roça o surreal é esta queixa de um jardim ter excesso de ensombramento! Mas que diabo é o excesso de ensombramento num jardim?! Não é para dar sombra que se plantam as árvores? Não será esse o objectivo de um parque, especialmente numa cidade com clima mediterrânico, com centenas de horas de sol por ano?
Eu diria que o problema das ruas e dos jardins em Portugal é precisamente o oposto, ou seja, a insuficiência de sombras derivada do hábito de estarmos permanentemente a rolar as árvores ornamentais. Fruto dessas práticas selvagens, as nossas árvores urbanas mais não têm do que copas raquíticas, nunca chegando a atingir o seu desígnio: maravilharem-nos com o perímetro de frescura das suas sombras.
E o que acontece quando, num parque, estas escapam a tão triste fim e chegam ao seu estado adulto, com a forma que a natureza lhes deu? Malvadas que dão muita sombra e é preciso podá-las…ou resolver logo o problema pela base e cortá-las! Excesso de ensombramento?! Não consigo parar de pensar no absurdo deste argumento.
De repente, lembro-me dos jardins da Irlanda. Num país com escasso número de dias de sol, onde um dia de Agosto de céu encoberto e 20ºC é um excelente dia de Verão, e penso como seria ridicularizada a ideia de se querer cortar as árvores dos jardins por excesso de ensombramento.
Lembro-me de um magnífico jardim no centro de Dublin, com árvores enormes, com pessoas almoçando sobre os relvados, aproveitando a escassa luz de um dia de verão irlandês, e nada de minigolfes ou de parques de desportos radicais a quebrar a paz e o sossego daquela pausa vespertina. Que também por lá haverá parques de desportos radicais ou minigolfes, não duvido, mas não às custas de amputar espaços verdes.
O único equipamento extravagante que esse parque tinha era um coreto, onde uma banda tocava perante dezenas de pessoas que faziam tempo, após o almoço, para regressarem ao trabalho e perante turistas, como eu, que se questionavam porque tal imagem não seria possível num jardim português. (Ver imagens do jardim de Dublin.)
Existe uma qualquer fobia que afasta uma maioria de portugueses dos nossos parques, um qualquer incómodo no contacto com o verde da natureza. É ridículo pensar-se que as pessoas passarão a frequentar um parque porque se cimentam os caminhos ou que se sentirão mais seguras com iluminação cénica, por debaixo das copas das árvores.
A segurança cria-se com guardas que zelem por quem frequenta esses jardins e que impeça actos de vandalismo; os hábitos de visitar e usufruir de um parque não são fáceis de criar, mas podem-se organizar eventos culturais, por exemplo, que criem uma rotina de visita a esses espaços. Ou a instalação de circuitos de manutenção, de baixo impacto visual, que fomentem a prática desportiva.
E depois há todos os outros portugueses. Aquela minoria, à qual pertenço, e à qual bastam as árvores num jardim; e a maioria, a qual nunca irá a um jardim a menos que aí estacionem um centro comercial!
Mas há ainda o segundo lado desta questão, ou seja, o modo como as obras estão a ser feitas. Acaso foi estudado o efeito que a abertura destas valas terá na saúde e, logo, na segurança, destas árvores? Foi feito algum estudo sobre esta matéria? Se sim, qual o nome da entidade que o executou e quais as suas conclusões? Foram propostas medidas de minimização para o impacto das mesmas nas árvores e na paisagem?
Claro que haverá sempre o argumento que as obras tinham que ser feitas assim e que não podiam ser feitas de outra maneira. Falemos então de custos/benefícios.
Será que os pretensos efeitos benéficos que esta intervenção trará ao Parque de Loulé compensarão os danos causados? Se sim, dêem-me um exemplo, em Portugal ou no estrangeiro, um único exemplo, de uma intervenção em que o corte de árvores ou a construção de minigolfes, tenham tornado um parque mais seguro e mais visitado.
Acaso alguém imagina um cenário de guerra como este, no nova-iorquino Central Park? Alguém imagina os nova-iorquinos a aplaudirem o corte de árvores e a verem o seu parque esventrado por maquinaria pesada?
O Parque de Loulé, como a maioria dos nossos jardins mais antigos, precisam de duas coisas muito simples: jardineiros, que os cuidem e evitem a imagem de desleixo causada pelo crescimento de matos e infestantes, bem como a acumulação de lixo, e de vigilantes, que os tornem em locais mais seguros, de dia ou de noite, para quem os frequenta.
Toda a modernice que estas ditas “requalificações” encerram não é mais do que saloiice pegada de quem não conhece os grandes jardins e parques do mundo.
Excesso de ensombramento?! Francamente…
Não entendo porque insistem em chamar a isto requalificação, mais vale abater tudo e fazer de novo. Com estas obras vamos ter árvores a definhar durante muitos anos e a morrerem lentamente…
Pelo que conheço de Loulé, “excesso de ensombramento” é o que faz mais falta, não é?
Infelizmente, Rosa, tens cada vez mais razão. Nos últimos anos, Loulé tem vindo a perder, paulatinamente, as suas árvores e tudo o que elas proporcionam. No entanto, há muitas pessoas contentes com isto (os dendrofóbicos esquizofrénicos, como gosto de lhes chamar), o que dá um apoio meramente popular às devastadoras intervenções que têm sido feitas. Quem tem o dever de educar e explicar, parece que se limita a seguir as modas e fazer a vontade de populares que carecem de formação e/ou informação.
Caro Pedro,
É só para esclarecer que só agora depois de quase quarenta anos de vida fiquei a saber que o Parque Municipal de Loulé é um jardim. Já nada me espanta nesta cidade. São as minhas raízes que estão a ser devoradas.
Estou desolado. Estes senhores mexeram nas minhas memórias, estes senhores mexeram na minha identidade pessoal. Estes senhores não sabem o que fazem. O parque onde toda a minha vida fiz desporto e que no verão é bem frequentado acaba de ser destruído. O louco devo ser eu. Já faltou mais para me convencer disso. Mas estes senhores que governam a minha cidade não são dignos da minha loucura.
João Martins
Macloulé
Se querem apanhar sol vão para a praia! Não é muito longe. Ou então para a avenida que já não tem tílias.
Excesso de ensombramento em Loulé? No coração do “Allgarve”?
Há dois problemas que observo serem recorrentes nestes e noutros casos: excesso de dinheiro e falta de accountability. E assim se governa na mais sossegada falta de responsabilidade.
Se lhes saísse do bolso, se um dia tivessem de responder pelos desmandos enquanto autarcas, não faziam um décimo das asneiras.
Esta intervenção não beneficia o parque. Se não beneficia o parque, não beneficia as pessoas. Se não beneficia as pessoas é em benefício de quem?