Sobre a Poda de Árvores em Sintra

A propósito do que se tem passado em Sintra, no corrente ano, no que concerne à poda de árvores ornamentais, a Associação Árvores de Portugal e a Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza, decidiram emitir o seguinte comunicado:

A Quercus-ANCN e a Associação Árvores de Portugal vêm, por este meio, manifestar a sua indignação pelo modo como têm estado a ser executadas as podas de centenas de árvores, na Vila de Sintra.

Os cortes nas copas e troncos das árvores foram incorrectos porque, entre outros motivos, privaram as árvores de todos os ramos que estavam já cobertos de folhas (ver levantamento fotográfico que acompanha este texto, a título meramente exemplificativo). Mesmo se houvesse uma necessidade, sempre pontual, de poda, a Primavera não é a estação do ano mais indicada para o fazer.

Os serviços camarários – para mais de uma Autarquia como a de Sintra -, não podem ignorar que a rolagem, ou seja, o corte de ramos com diâmetro superior a 8 cm, é desaconselhado pelos técnicos de arboricultura, como forma de efectuar uma correcta manutenção das árvores ornamentais. Entre outras consequências nefastas, esta prática reduz o valor patrimonial das árvores, diminui a sua longevidade e aumenta o risco de acidentes por originar pernadas com menor resistência.

Deste modo, as intervenções realizadas evidenciam uma preocupante falta de conhecimentos na área da arboricultura. Seria de esperar, de uma edilidade como a de Sintra, vila que é Património da Humanidade, pelo conjunto dos seus valores paisagísticos, maior profissionalismo na gestão dos seus espaços verdes.

Esta situação é particularmente incompreensível num concelho que organizou, ainda não há um ano, um ciclo de conferências, intitulado “Coisas d’Árvores”, destinado, precisamente, a divulgar boas práticas no domínio da arboricultura. A própria autarquia publicitou esta iniciativa, na sua página oficial na Internet, com as seguintes palavras: “Contribuir para que, se as árvores se pudessem ver ao espelho, gostassem da imagem reflectida e louvassem o cuidado posto na sua fisionomia, saúde e preservação é o tema para o ciclo de acções formativas que a autarquia promove, gratuitamente, no Palácio Valenças, em Sintra.”

Olhando para o que se passa, na actualidade, nas ruas de Sintra, duvidamos que alguma dessas árvores gostasse de ver a sua imagem reflectida. Mais incompreensível ainda é o facto da Edilidade de Sintra, ao mesmo tempo que permite a delapidação do seu vasto património arbóreo, apelar a que seja eleita esta Vila como uma das Maravilhas Naturais de Portugal.

As Associações signatárias reiteram, publicamente, a disponibilidade para colaborar com a Autarquia, no sentido de garantir que, de futuro, as intervenções camarárias nas árvores ornamentais do Concelho, sejam orientadas por boas práticas.

Para já, é fundamental suster as operações em curso e promover a recuperação, dentro do que for tecnicamente possível, das árvores que foram severamente mutiladas.

Pela Direcção Nacional da Quercus – ANCN,
Ana Cristina Figueiredo

Pela Direcção da Associação Árvores de Portugal,
Pedro Nuno Teixeira Santos

Caso concordem com o teor deste comunicado, solicitamos que assinem e divulguem a petição A Favor das Árvores de Sintra. Muito obrigado.

(Fotografias da autoria de Pedro Macieira.)

32 Responses to “Sobre a Poda de Árvores em Sintra”

    • Pedro Nuno Teixeira Santos

      Cara Sintrense,

      As fotografias, que solicitei ao Pedro Macieira, são meramente ilustrativas. Infelizmente, como bem sabe, poderiam ser mostradas dezenas de outras imagens, mostrando muitas outras árvores. Inclusivamente, já foram publicadas neste blogue imagens, de sua autoria, de tílias roladas na vila de Sintra. Imagens esses que, uma vez mais, muito agradecemos.

      No entanto, o essencial no caso deste texto em concreto, ou seja, o que vai chegar à comunicação social, local e nacional, é o conteúdo do nosso comunicado e este, como terá constatado, refere árvores (e não plátanos, tílias ou qualquer outra espécie), porque o problema está na incorrecta forma como as árvores foram podadas e não nas espécies em si.

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  1. Miguel Rodrigues

    Para que se perceba o grau de incoerência dentro da Câmara Municipal de Sintra, leia-se, à luz do que está acontecer nas suas ruas, o Regulamento para a Intervenção em Árvores de Sintra, publicado pela própria câmara no seu sítio. Ver: http://www.cm-sintra.pt/pgcdr/pg/f30.html

    Neste texto podem ler-se passagens como estas:

    “Objectivos:
    A árvore, elemento fundamental da paisagem é de vital importância para o Concelho, pelo que urge preservar e cuidar para que se mantenha o seu equilíbrio ecológico, pelo que importa regulamentar toda e qualquer intervenção. Pretende-se então definir regras claras e concretas de actuação quer para munícipes quer para serviços públicos, clarificando procedimentos e competências.”

    “O corte e a poda de árvores reduzem-se ao mínimo indispensável”.

    Estaremos a falar da mesma entidade? Ou será que, no manual da CMS, as “regras claras e concretas de actuação” incluem as rolagens como técnica de tratamento das árvores?

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  2. Miguel Rodrigues

    Mais um excerto, que me deixou os cabelos em pé, do documento que referi no comentário anterior:

    “7. Dotação Financeira
    Não qualificável
    Estudos efectuados com os recursos humanos e técnicos, permanentes, da CMS, e das outras entidades envolvidas

    8. Entidades envolvidas
    Câmara Municipal de Sintra
    Instituto de Estradas de Portugal
    Direcção Geral das Florestas
    Parques de Sintra–Monte da Lua
    Parque Natural Sintra-Cascais
    Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico (IPPAR)”

    Ou seja, os estudos são efectuados por um grupo de entidades, de quem se advoga ter competência para avaliar correctamente o estado fitossanitário e biodinâmico das árvores. Tal como a CMS e a Estradas de Portugal, claro. Está visto porque as copas dos nossos arvoredos, vão paulatinamente desaparecendo da paisagem portuguesa.

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    • Pedro Nuno Teixeira Santos

      Com o devido respeito às instituições citadas e aos bons técnicos que aí trabalham, das entidades referidas, a única que poderia ter algum pessoal com formação específica na manutenção de árvores ornamentais, seria a Direc­ção Geral das Flo­res­tas [agora designada Autoridade Florestal Nacional (AFN)].

      E digo isto com reservas porque, não duvidando que na AFN trabalham pessoas com elevado brio profissional e competência em diversas áreas, não me parece que faça parte das competências de um técnico florestal, dominar os procedimentos para podar uma árvore ornamental.

      E, se estiver enganado, corrijam-me por favor.

      P.S. – Para não ser injusto, digo, em abono da verdade, que não sei muito bem o que é a Par­ques de Sintra–Monte da Lua. Desconheço, deste modo, se possui arboricultores nos seus quadros.

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      • Miguel Rodrigues

        A questão é exactamente essa. Todas estas entidades terão os seus técnicos especializados, e com certeza competentes, nas suas áreas de actuação. Mas no que refere à medicina das árvores ornamentais, a arboricultura, não me parece que possuam assim tantas pessoas com a formação profunda e detalhada que se requer nestes casos.

        Mas é como dizes, corrijam-me se realmente estou enganado. No entanto, quando se fazem rolagens generalizadas, e sublinho “generalizadas”, em diferentes espaços, os técnicos que as ordenam põem seriamente em causa as suas competências.

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      • Florestal

        Só para corrigir ;-)

        Uma boa parte dos Arboricultores que conheço são Engenheiros Florestais de formação. Mais, no programa da Licenciatura (agora Mestrado de Bolonha) em Eng.ª Florestal do ISA faz parte uma cadeira denominada “Introdução aos Espaços Arborizados Urbanos”, sendo o programa da cadeira o seguinte:

        Programa Resumido:
        I – Funções e tipologia dos espaços arborizados em áreas urbanas; limitações do espaço urbano ao crescimento e à sanidade de árvores e núcleos arbóreos e formas de mitigação.

        II – Selecção e produção de espécies de árvores e/ou arbustos para arborização em meio urbano; qualidade das plantas, selecção de espécies e implicações na saúde pública.

        III – Condução das árvores urbanas: instrumentos de gestão e requalificação de árvores e núcleos arbóreos urbanos; podas em árvores ornamentais.

        IV – Introdução à avaliação visual do risco associado à presença de árvores em meio urbano.

        Competências:
        introduzir os alunos às principais questões colocadas pela manutenção e conservação de árvores em espaço urbano, nas vertentes de concepção técnica da arborização, manutenção e condução das árvores urbanas e implicações ambientais e na saúde e bem estar dos habitantes.

        Era bom é que os decisores políticos da nossa praça também tivessem este tipo de formação, e não andassem constantemente a desautorizar técnicos com formação e conhecimentos… Era também muito bom que não houvesse uma pressão popular tão intensa no sentido da rolagem, pois frequentemente os munícipes não aceitam facilmente uma poda tecnicamente correcta, pressionando os responsáveis políticos no sentido das más práticas… Por outro lado, por vezes também se verificam pressões por parte de defensores do património arbóreo que, ainda que bem intencionados, não dominam o tema e não estão abertos a serem esclarecidos (já têm uma opinião estabelecida e não a alteram de modo algum). E, claro, também existem maus técnicos, ou técnicos sem formação ou competência na área da arboricultura urbana. Importa ter consciência é que todos os actores intervenientes nesta problemática têm a sua cota parte de responsabilidade!

        Saudações florestais

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        • Miguel Rodrigues

          Caro florestal

          Sei que, a nível académico, existe muita boa formação de técnicos, em várias instituições de ensino superior, conheço pessoas que realmente demonstram na prática isso mesmo. Mas a arboricultura não é só uma cadeira ou disciplina. É uma profissão que requer um alto nível de qualificação, quer na parte de diagnóstico quer na parte da intervenção e planeamento. Para além disso, e como refere no seu comentário, existem muitos “técnicos” que ou não aprenderam grande coisa ou não aplicam o que aprenderam. Basta pesquisar neste blogue por “Dendroclastia” e as imagens dos textos falam por si. Raras são as autarquias que tratam correctamente os seus arvoredos.

          O poder político dentro destas autarquias, ou outras instituições do estado, não tem que ter formação nesta área, tem é a obrigação de se aconselhar com os técnicos que contrataram para o efeito, pagos com o dinheiro do Estado. O problema é, realmente, que se contratam as pessoas para depois as ignorar quando, fundamentadamente, defendem opções que não vão ao encontro à vontade de quem manda. Casos destes, conhecemos vários.

          Por outro lado (e agora vou dar-me ao luxo de ser lírico) a caça ao voto autárquico não pode fazer com que quem tem responsabilidades de governação ,vá atrás das opiniões infundadas da população. Claro que também não podem ignorar essas mesmas opiniões, as pessoas merecem esse respeito. Mas o que costuma acontecer, com raras e honrosas excepções que conheço, é que é mais rentável (politicamente) fazer o que nos pedem, do que explicar e ensinar às pessoas o que é necessário fazer e porquê. Claro, lirismo meu.

          Mas as coisas estão a mudar aos poucos, em grande parte porque há muitos cidadãos que começaram a acordar para os problemas que afectam as árvores ornamentais e tomam posições, em parte porque algumas associações se preocupam com este tema e tentam fazer a sua parte na promoção desta mudança de atitude.

          Responder
          • Florestal

            Caro Miguel,

            A minha “correcção” referia-se ao comentário do Pedro Nuno Teixeira
            Santos, e era apenas para ilustrar que muito Arboricultores são Eng.º
            Florestais de formação, e que no âmbito dessa Licenciatura são ensinados
            os primeiros rudimentos nessa área.
            No restante, totalmente de acordo, a Arboricultura não se resume a uma disciplina. É, por si só, uma especialização. Mas tudo tem de ter um
            princípio, e fornecer as bases gerais teóricas em que esta assenta permite, a
            meu ver, duas coisas:

            1) Sensibilizar os futuros técnicos para esta problemática
            2) Fomentar o interesse por esta área, permitindo que alguns desses alunos
            dêem seguimento ao seu interesse e obtenham formação complementar
            nessa área.

            Gostei do seu parágrafo “lírico”, tem toda a razão no que refere! Que
            bom seria se os políticos não fossem quase todos iguais, não era?

            Ainda em relação ao poder político, obviamente que eles não têm de ter formação nesta área. Mas julgo que não me fiz entender no que queria
            dizer: já que aqueles (os políticos) não confiam nos seus técnicos e têm o
            hábito de “atirar bitaites”, mais valia que tentassem obter alguns
            conhecimentos nesta área! Aliás, o nosso País está repleto de treinadores
            de futebol e de engenheiros florestais, pois todos acham que não é
            necessária formação adequada para serem detentores da mais profunda sapiência nessas áreas!

            Confesso que na prática não noto grandes mudanças. Continuam a
            verificar-se incontáveis más intervenções sobre o arvoredo urbano. Por
            outro lado, é um facto que finalmente começam a aparecer cidadãos preocupados e interventivos, mas muitos deles carecem do interesse e humildade para ouvir ou tentar perceber os motivos técnicos que poderão
            estar no cerne de uma determinada intervenção. Isto é, está-se a passar de
            um tempo onde os cidadãos defendiam as podas camarárias (como são vulgarmente denominadas), para uma época em que todo e qualquer tipo
            de intervenção é imediatamente classificado como um crime perpetrado por assassinos de árvores, mesmo que os princípios técnicos subjacentes a tal intervenção sejam devidamente explicados aos cidadãos e decisores
            políticos. Tal não invalida, obviamente, que a participação dos cidadãos não seja importante (é, e muito!), mas não deve ser uma participação extremista
            e inflexível. Por outro lado, os técnicos devem saber ouvir os cidadãos e, sempre que possível, actuar de modo a defender os interesses do
            património arbóreo e das pessoas (e também devem ter a humildade de reconhecer e aprender com os seus erros).

            Mas tudo isto é a minha opinião, claro.

            Saudações florestais

        • Miguel Rodrigues

          Claro que também eu não sou arboricultor, sei apenas o quase nada que me permite apontar , com alguma segurança, os erros mais grosseiros que vão sendo cometidos. Por isso aceito e valorizo a informação e a opinião de quem sabe mais do que eu. Se existe uma justificação técnica para efectuar rolagens sistemáticas e generalizadas (ainda por cima em plena Primavera), estou sinceramente curioso por conhece-la.

          Mas a própria CMS já veio dizer que está muito admirada com a contestação, porque todos os anos faz o mesmo, como se isso justificasse que se continue a fazer. Se esta opção pelas rolagens estiver realmente errada, parece-me excelente que, este ano, os cidadãos de Sintra se tenham finalmente revoltado contra ela. Se, por outro lado, estiver correcta, venha então a informação que a justifique.

          Infelizmente, como sempre, aquilo de que sentimos mais falta é a informação às populações sobre o que se vai fazer às árvores, o que, antes de mais, é falta de respeito pelos cidadãos.

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  3. Florestal

    Só para esclarecer melhor algumas coisas que escrevi.

    Obviamente que não julgo que exista uma justificação técnica para este tipo de intervenções, especialmente quando generalizadas, como pelos vistos tem acontecido!

    Obviamente que também não é necessária formação especializada formal para aprender o que quer que seja, em qualquer área. Longe de mim ser elitista! Mesmo quem possui formação académica em qualquer área pode (e comete!) erros e pode aprender coisas novas com qualquer pessoa, independentemente do estrato sócio-económico. O importante é haver sempre um diálogo aberto e franco.

    Os meus comentários não são críticos para a contestação desta situação (e de outras). Apenas dei a minha opinião contra a contestação autista que por vezes se verifica (e também existe um problema ainda mais grave de execução autista por parte de muitos municípios!)! Aliás, se não concordasse com o vosso ideal de defesa das árvores e da participação popular não seria visitante assíduo da “Sombra Verde” e da “Árvores de Portugal”!

    Saudações florestais

    Responder
    • Miguel Rodrigues

      Caro florestal

      Agradecemos a correcção que nos envia (e que eu desconhecia) e o seu contributo para esta discussão, que esperamos que possa ajudar a esclarece um pouco mais os leitores quanto a estes temas.

      Felizmente, existem actualmente várias pessoas formadas na área da Engenharia Florestal que dão uso a essa formação inicial, quer do ponto de vista técnico quer da sensibilidade.

      Concordo com praticamente tudo o que refere, com a excepção de alguns pequenos pontos, que passo a explicitar:

      1) Pessoalmente, e sabendo como funcionam as cosias em Portugal, prefiro que os políticos “mandões e prepotentes” não tenham qualquer tipo de formação nesta área. Assim, sempre lhes podemos exigir que sigam os concelhos dos seus técnicos, pelo menos dos bons. Estes políticos mandam e desmandam, mesmo sem “perceberem nada da poda” (neste caso, no sentido literal da expressão popular). O que seria de desvario, se percebessem apenas um pouco? Prevejo que, em muitos casos, se advogariam conhecimentos suficientes para decidir sem ter que consultar com ninguém.

      2) Infelizmente também, ainda não saímos do tempo em que as próprias populações são as primeiras a pedir os abates e rolagens. Ainda agora mesmo recebemos mais uma notícia destas. Valham-nos os cidadãos mais sensíveis, esclarecidos ou não sobre a parte técnica do assunto. São eles os nossos olhos e ouvidos que nos permitem tentar fazer alguma coisa, nos casos em que isso se justifique. Cabe-nos a nós, às câmaras e a outras entidades com responsabilidades nesta matéria, veicular a informação.

      3) Neste seguimento, é claro que muitas pessoas criticam de forma autista, sem querer saber das razões. Já nos temos debatido com este problema, porque há quem não entenda como uma associação chamada Árvores de Portugal, chega a defender o abate de certas árvores. Mas para tentar esclarece estas situações, estão as entidades que referi, incluindo as associações, que deverão, dentro das suas possibilidades, às vezes escassas, tentar averiguar. No entanto, todo este processo seria muito mais fácil, pedagógico e democrático se quem decide uma intervenção informasse ANTECIPADAMENTE as pessoas. Reduziam-se as críticas despropositadas e podíamos sempre confrontar a opção feita com outras possíveis. Não creio que nenhum verdadeiro arboricultor se oponha a isto, conheço até os que o defendem abertamente. Mas as decisões, como concordamos os dois, são muitas vezes de cariz político e não técnico.

      Responder
    • Pedro Nuno Teixeira Santos

      Viva Florestal,

      A troca de opiniões vai longa e interessante. Vou tentar resumir a minha em função do que foi escrito:

      a) Antes de mais, agradeço ao leitor a forma cuidada e detalhada colocada nas suas respostas, nomeadamente nos detalhes relativos ao currículo do mestrado em Engenharia Florestal, do Instituto Superior de Agronomia (ISA). E, adicionalmente, agradeço a visita assídua que faz aos blogues nos quais escrevo.

      b) Sobre os assuntos propriamente em discussão…Considero extremamente positivo que o referido mestrado do ISA possua uma cadeira sobre a temática da manutenção de árvores ornamentais, pelos motivos que o leitor, e bem, refere. No entanto, como o próprio leitor reconhece, não é uma cadeira que transforma um estudante de Engenharia Florestal num futuro técnico de arboricultura.

      Dito por outras palavras, os Engenheiros Florestais que exercem como arboricultores tiveram que, posteriormente, obter uma especialização. Ou seja, ser-se engenheiro florestal, não habilita ninguém, automaticamente, para saber podar um plátano, por exemplo. Obviamente, e gostaria muito de sublinhar este aspecto para não parecer que estou a atacar uma profissão, esta constatação aplica-se a todas os outros cursos relacionados, directa ou indirectamente, com arborização/gestão de espaços verdes.

      Para resumir, nunca quis dizer que não haja Engenheiros Florestais que saibam podar árvores ornamentais. Alguns destes, eventualmente, até pertencerão aos quadros da, agora assim designada, Autoridade Florestal Nacional (AFN).

      O que pretendi dizer com o meu primeiro comentário é que a menção à Direcção-Geral das Florestas (agora AFN), como consultora da Câmara Municipal de Sintra, por si só, não me tranquiliza, a menos que os técnicos florestais em causa tenham, efectivamente, essa especialização que o curso em causa, por si só, como já foi reconhecido, não confere.

      Concluindo: nunca quis atacar, ou sequer beliscar, os nossos Engenheiros Florestais e as instituições de Ensino Superior responsáveis pela sua formação. Por vários motivos, a começar por não ter competência científica para tal avaliação.
      Apenas quis afirmar, e aqui parece que estamos todos de acordo, que, independentemente da sua formação de base, a arboricultura exige uma posterior especialização.

      c) Sobre os demais aspectos referidos pelo leitor, não poderia estar mais de acordo. A saber:

      – O facto dos decisores políticos nas Câmaras Municipais, entenda-se “os responsáveis políticos pela gestão dos espaços verdes e árvores”, terem alguns conhecimentos sobre esta área, evitaria que pactuassem, ou até que incentivassem, com algumas intervenções desastrosas feitas por funcionários municipais. Não é por acaso que as rolagens de árvores são, vulgarmente, designadas, no nosso país, como podas camarárias.

      – Infelizmente, o leitor tem toda a razão quando afirma que a pressão para a rolagem vem de grande parte dos nossos concidadãos, muitas vezes do nosso vizinho do lado. As autarquias cedem porque nos faltam políticos com lucidez, que poderia advir de terem alguma formação na área, mas também com carácter, ou seja, políticos que soubessem resistir ao mais elementar populismo.

      – Para concluir, o leitor tem ainda razão quando refere também existirem cidadãos que não compreendem que, por vezes, é preciso podar, ou mesmo abater, uma árvore.
      Ainda recentemente, sentimos isso na “pele”, ao defendermos o trabalho de uma empresa de arboricultura que aconselhou o abate de algumas árvores na cidade de Loulé.

      Infelizmente, algumas pessoas recusam-se a compreender que, numa cidade, não nos podemos dar ao luxo de deixar de pé uma árvore com reconhecidos problemas de sustentabilidade. Não apenas pelos danos humanos e materiais que poderia causar a sua queda, ou de parte dos seus ramos, mas também pela pressão popular que tal situação criaria para que se rolassem, ou abatessem, muitas outras árvores saudáveis.

      d) Por último, e apesar de não ter sido referido, por ninguém , nos comentários anteriores, faz falta que os bons arboricultores deste país se juntem e consigam duas coisas fundamentais:

      – Fazer uma auto-regulação do sector, identificando, e divulgando, o nome das empresas e dos arboricultores em nome individual, que estão efectivamente habilitados para intervir nas árvores ornamentais.
      – Pressionar o poder político para que crie legislação que obrigue a que a intervenção nas árvores ornamentais seja feita, obrigatoriamente, pelos tais arboricultores certificados.

      Os arboricultores podem contar com o apoio da Associação Árvores de Portugal para estes dois objectivos. Mas não podem esperar que sejamos nós, ou qualquer outra associação ambientalista ou movimento de cidadãos, a fazer o que só eles têm competência e capacidade para fazer.

      Finalmente, termino este já longo comentário, que tinha prometido, no início, ser resumido (!), reafirmando, uma vez mais, a minha admiração pela profissão de Engenheiro Florestal e Silvicultor que nos tem dado grandes admiradores das árvores, como foi o caso, por exemplo, dos Engenheiros Vieira Natividade e Ernesto Goes.

      Cumprimentos.

      Responder
      • Miguel Rodrigues

        Pedro, o teu ponto d) dava, por si só, um texto importantíssimo. Acresce que, se esta organização interna existisse, ficariam de fora as empresas não especializadas (até empresas de construção civil que se dedicam, entre outras coisas, a demolições), que competem em grande vantagem com os arboricultores. Apresentam a concurso preços ridículos, com os quais ninguém de boa fé acredita que possam realizar um trabalho decente nas árvores ornamentais.

        Uma vez retirados os reconhecidamente maus profissionais, ficaria mais espaço de mercado para os verdadeiros técnicos, podendo estes praticar preços mais aceitáveis pelas câmaras e outras entidades, públicas ou particulares. Neste momento, contratar uma empresa de arboricultura pode não ser muito barato, em parte devido à especificidade das técnicas e dos equipamentos, em parte porque muito do mercado se escapa para as mãos daqueles que apresentam orçamentos do tipo “basta ligar a motosserra”.

        Responder
        • Pedro Nuno Teixeira Santos

          No fundo, e resumindo, é apenas isto: é preciso definir ou, se preferirem, certificar quem é arboricultor e quem não é.

          Quem não é arboricultor, pura e simplesmente, não deveria exercer a profissão. Isto deveria ser tão pacífico e fácil de entender como a necessidade de ter uma licenciatura em Medicina para se ser médico, por exemplo.

          Quanto aos bons e menos bons arboricultores porque, como em todas as profissões, há melhores e piores profissionais, seria o mercado a fazer essa selecção. Claro que isto exigiria que esse mercado fosse exigente quanto ao trabalho desenvolvido, isto é, que o princípio para definir um bom arboricultor fosse a qualidade do seu trabalho e não o preço praticado.

          Responder
  4. Florestal

    Pedro e Miguel,

    Para não alongar ainda mais os comentários, basta dizer isto: estou totalmente de acordo com vocês!

    Caro Pedro,

    Não achei que estivesse a atacar os Eng.º Florestais. Eu até não sou muito corporativista nessas coisas pois, como em tudo, existem bons e maus profissionais! Achei apenas que desconhecia que a poda de uma aŕvore ornamental pode fazer parte das competências de um técnico florestal, daí ter dado a achega sobre o currículo do curso no ISA. Embora, naturalmente, uma disciplina não faça o especialista! Peço desculpa se de algum modo pareceu que eu estava incomodado, não foi de todo essa a situação!

    Esperemos que o futuro das nossas árvores de arruamento seja risonho, e que o vosso trabalho (e o de todos nós, cidadãos, técnicos e decisores políticos) consiga fazer a diferença nesse sentido!

    Um abraço (florestal e, acima de tudo, arbóreo!)

    Responder
    • Pedro Nuno Teixeira Santos

      Caro Florestal,

      Foi uma profícua e interessante troca de ideias, embora receie, infelizmente, que mais ninguém tenha paciência para ler os longos comentários, por nós, aqui deixados.

      Apesar da mudança de mentalidades e de práticas, no que concerne à manutenção das árvores ornamentais, ser um trabalho de gerações há, timidamente, alguns sinais de esperança. Em parte pelo aparecimento de vários projectos na “blogosfera” (não esqueçamos o papel pioneiro do Dias sem Árvores, por exemplo), tem-se conseguido chegar, com maior frequência, à comunicação social. Mesmo à nacional, como neste caso de Sintra.

      E, sem os blogues e os conhecimentos que eles proporcionaram, não teria sido possível constituir uma associação destinada exclusivamente à defesa das árvores, como a nossa.

      Ou seja, e resumindo, o caminho é difícil e longo, mas já foi iniciado…

      Um abraço arbóreo!

      Responder
  5. João Martins

    O modo como são tratadas as árvores urbanas em Portugal demonstra que em cada autarca habita um potencial idiota. Não admira que o país esteja à beira da bancarrota!
    João Martins

    Responder
    • Pedro Nuno Teixeira Santos

      Caro João,

      Esta história das rolagens nas nossas cidades é um pouco como uma “pescadinha de rabo na boca”, ou seja, e longe de mim querer desculpar os nossos políticos, mas há tanto de culpa dos autarcas, como das populações que os apoiam.

      A verdade, como já por diversas vezes tivemos oportunidade de discutir, em comentários nos nossos blogues ou por e-mail, é que o real problema está no facto destas práticas serem apoiadas pela maioria das pessoas.

      Como escrevi, recentemente, no texto Porque é que, simplesmente, não as abatem?, acredito que uma parte significativa das pessoas apoia estas práticas não por ser intolerante às árvores, mas porque gosta de ver as árvores roladas ou mesmo porque acha estas práticas indispensáveis e benéficas para os arvoredos.

      A solução? Denunciar, sim. Mas também, e muito importante, educar. Ensinar às populações porque é que estas práticas são erradas.

      Quando tivermos uma população mais informada sobre estas questões, essas mesmas pessoas serão mais exigentes perante os actos dos políticos e, estou certo, não tolerarão situações como as de Sintra, de Loulé e de tantas e tantas outras vilas e cidades.

      Esse é o caminho, a meu ver, educar! O problema é que mudar mentalidades é das coisas mais difíceis de fazer…Apesar disso, na Árvores de Portugal estamos com vontade de prosseguir esse caminho, por mais difícil e ingrato que possa ser.

      Um forte abraço.

      Responder
  6. Pedro Nuno Teixeira Santos

    As “justificações” avançadas à Lusa (ler no jornal Público) para estas podas, por parte da Câmara de Sintra, são simplesmente confrangedoras.

    Nenhuma justificação técnica, como seria de esperar porque não se pode justificar o injustificável, mas apenas a triste constatação de que as podas foram feitas de modo:

    exactamente igual ao de anos anteriores

    Ou seja, não interessa se está bem feito ou mal feito. Como se fez sempre assim, ainda que seja errado, é para manter a tradição!

    Quer-me parecer que a Lusa falou com o mesmo funcionário camarário que o Pedro Macieira. Já não se recordam?! Então, nesse caso, façam-me o favor de perder um par de minutos a reler o texto Uma tradição a Abater.

    Responder
  7. João Martins

    Olá Pedro,

    Nesta questão estamos quase de acordo. Sim, totalmente de acordo, as populações e o seu desconhecimento ambiental não ajudam à resolução do problema. Mas quem governa não tem a grande responsabilidade de dar o exemplo? Se toda a população de uma cidade defender a pena de morte os autarcas devem pô-la em prática? A barbárie não admite comprensões de quaisquer tipo. Ela é demasiado cruel e está à vista de toda a gente. Quanto a qualquer tipo de compreensão para com as autarquias que levam a cabos abates de árvores e podas desse género, sou radical. Como as podas.
    Abraço

    João Martins

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    • Pedro Nuno Teixeira Santos

      Boa noite João,

      Eu não sou muito bom com metáforas, se é que posso usar esse termo e, se há bocado falei da “pescada”, agora apetece-me citar a figura do “ovo e da galinha”.

      Ou seja, e dito por outras palavras, o exemplo deve partir de cima para baixo ou vice-versa? Já tive discussões destas, de horas, com o Miguel Rodrigues, sobre diversos tipos de questões. Ele pensa como tu, que o exemplo deve vir sempre de cima. E concordo que esse exemplo que dás, da pena de morte, é quase imbatível…

      No entanto, não discordando dessa obrigação moral do exemplo ter que vir de cima, acho que as mudanças relevantes, sólidas e duradouras na sociedade, e não apenas no que concerne às árvores, são as que nascem da própria sociedade.

      Dando um exemplo fora do “mundo das árvores” para ver se me consigo entender melhor. Nos países nórdicos há menos evasão fiscal porque, sim, a máquina fiscal funciona melhor e o Estado dá o exemplo gastando bem o dinheiro dos impostos mas, sobretudo (a meu ver), porque existe uma cultura na sociedade favorável ao cumprimento das obrigações fiscais. Ao contrário do que existe por cá, onde as pessoas se gabam publicamente, e genuinamente se orgulham, dos esquemas que inventam para defraudar o Estado. E isto não pode ser combatido eficazmente com nenhuma lei, apenas mudando a nossa cultura de sociedade.

      Claro que, João, podes argumentar dizendo que, tal como nos países nórdicos que citei, o Estado deveria dar o exemplo a vários níveis. Claro que sim, de acordo, eu próprio falei no comentário anterior da história da “pescadinha…”, ou seja, da dificuldade em compreender onde acabam as responsabilidades dos políticos e começam as dos cidadãos. Na forma como vêem as árvores, na política fiscal e em tantas outras coisas, para não dizer em tudo.

      Claro que as autarquias e os seus decisores políticos têm a obrigação, no mínimo ética e moral, de dar sempre bons exemplos. Na gestão das arborizações urbanas também, como é evidente.

      Mas, para ser fiel à minha filosofia, acredito, de forma utópica (bem sei), que a mudança tem que partir da sociedade. Assim, e voltando às árvores, acredito que uma sociedade mais culta, em termos de valores de cidadania, como os do respeito para com as árvores, saberá, no futuro, ser mais exigente e gerar melhores políticos.

      Porque, para mim, os políticos são um reflexo da sociedade, e não o contrário, e se temos autarcas que não gostam de árvores ou que gostam delas roladas, é porque cresceram e foram educadas numa sociedade avessa ao amor por essas mesmas árvores.

      Tudo resumido, João, este meu discurso não quer dizer que “compreenda”, no sentido de desculpar, os nossos autarcas dendroclastas. Não desculpo, e também sou radical nisso.

      O que eu quero dizer é, simplesmente, que enquanto tivermos uma sociedade que, na sua maioria, não dá grande importância às árvores nas cidades, não podemos esperar que essa mesma sociedade gere melhores autarcas do que os que temos na actualidade.

      Na forma como tratam as árvores, como em tudo o resto…

      Abraço.

      Responder
  8. João Martins

    Olá novamente Pedro,

    O que interessa, no fundo, é que a Árvores de Portugal tem tido uma actuação exemplar a todos os niveis. E, sim. a educação ambiental é crucial nesta questão.

    Um grande abraço
    João Martins

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    • Pedro Nuno Teixeira Santos

      Olá João,

      Com atraso face ao teu último comentário, agradeço as palavras dirigidas à nossa associação. Os nossos esforços só serão viáveis com o empenho de cidadãos atentos e empenhados nesta causa, como tens demonstrado no teu blogue.

      Ainda sobre os autarcas do nosso país, tenho que reconhecer que há uma minoria de concelhos onde as árvores não são, pelo menos de forma sistemática, roladas. Um dos objectivos futuros da Árvores de Portugal é prestar o reconhecimento a essa minoria que tenta contrariar a cultura dominante de desprezo face à árvore, inclusive entre os munícipes do seu concelho.

      Responder
  9. ECOGRUPO

    gostariamos de copilar artigos promovendo o vosso site como contribuição para a defesa das arvores e gostariamos de receber a vossa premissão.

    Responder
    • Miguel Rodrigues

      Caros senhores

      não vemos qualquer problema na publicação de textos nossos, desde de que, obviamente, seja feita referência à origem (o nosso blogue) e ao autor do texto em questão e seja disponibilizada uma hiperligação para o mesmo.

      Obrigado.

      Responder
  10. Heber Lobato Jr.

    Amigos de Cintra,

    Cá no Brasil, também estamos vivendo situações como a que relatam em Cintra. Em Petrópolis – Cidade Imperial brasileira no Estado do Rio de Janeiro, a prefeitura está há anos fazendo podas radicais nas árvores que são protegidas por lei pois integram o conjunto do patrimônio histórico local.

    Essa semana, lançamos na internet um vídeo para denunciar tais abusos e pediar a ajuda dos especialistas para comentarem as imagens e falarem sobre suas experiências, de forma a encontrarmos uma solução para esse mal. Afinal, somado as podas absurdas, temos também a estupidez dos políticos que mandam cortar árvores sadias para construir palcos para festas.

    A todos irmãos portugueses que quiserem nos ajudar nessa tarefa mandando seus comentários, o endereço do vídeo é:

    http://www.youtube.com/watch?v=J5jMnb9pW0o

    Junto com o vídeo estão mais informações sobre a situação atual. Daqui ficamos torcendo para que encontrem uma solução para a bela cidade de Cintra.

    Heber Lobato Jr.
    http://www.televisual.com.br
    http://www.youtube.com/televisualfilmes
    http://www.twitter.com/TelevisualFilms

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