Porque é que, simplesmente, não as abatem?
Esta foi a questão que a Rosa colocou, nos comentários ao texto Destruir, publicado neste blogue, a propósito das podas radicais que têm sofrido as árvores de Sintra.
(Acrescente-se, em abono da verdade, que esta interrogação poderia ser feita tendo, por base, não apenas o que se passa na vila de Sintra, mas em centenas de outros municípios, tal como na situação ilustrada por estas fotografias, no Fundão.)
Podia facilmente enumerar, sem grande esforço, uma dezena de motivos que “justificam” a embirração de muitas pessoas com as árvores. Apesar de tudo, quero acreditar, apesar dos meus discursos contra os dendroclastas deste país, que apenas uma minoria dos meus compatriotas mostra uma intolerância cega contra a presença das árvores nas cidades.
E, gente intolerante com as árvores, existe em todo o lado, mesmo em países onde as árvores merecem mais respeito e não sofrem estes tratamentos. Assim sendo, é justo que nos interroguemos, se há gente que despreza as árvores em todo o lado, de onde vem a fundamentação para esta constante guerra contra as árvores a que assistimos, ano após ano, na generalidade das cidades portuguesas?
Esta é, obviamente, uma questão que pode ter múltiplas respostas. No entanto, no meu entendimento, o problema não está nesta minoria de pessoas que sofre de dendrofobia aguda. O problema está na maioria de pessoas que afirma gostar de árvores nas cidades, mas que gosta delas assim, ou seja, domesticadas à vontade humana.
Cito palavras de Henrique Pereira dos Santos, retiradas de um texto do blogue Ambio, que me parecem adequadas ao assunto:
O jardim é uma representação (…) mantida pelo esforço constante de domesticação dos elementos naturais que demonstram o triunfo da razão do homem sobre a irracionalidade aparente da natureza.”
Como o Henrique Pereira dos Santos diz, e bem, os jardins e, de um modo mais abrangente, todos os espaços verdes urbanos, são construções nas quais a imaginação humana, através da escolha das espécies e da forma com as dispõe no espaço, tenta disciplinar o aparente caos da natureza. Por outras palavras, estes espaços verdes são fruto da intervenção e vontade humana e este facto, em si mesmo, não acarreta nenhum problema, excepto quando esta filosofia é levada ao extremo, nomeadamente quando se pensa que, apenas através da “razão do homem” a natureza pode sobreviver e, inclusive, atingir o seu grau máximo de beleza.
E isto sim é um problema, pois quando estas práticas são aplicadas às árvores ornamentais, sem critérios, apenas para impor o conceito estético de certos homens, daqui resulta não apenas a deformação da beleza natural da árvore mas, mais grave, o aparecimento de nefastas consequências para a sua saúde.
Esta ideia, esta permanente vontade do ser humano em intervir sobre a natureza, está subjacente a muitas das intervenções que são feitas nas árvores e nos jardins das nossas urbes. Muitas das pessoas que apoiam as rolagens que as câmaras municipais efectuam periodicamente nos arvoredos urbanos, seriam das primeiras a opor-se se, esses mesmos serviços municipais, as quisessem, simplesmente, abater.
A maioria dos cidadãos não tem fobia às árvores. Muitos, a maioria porventura, até acreditará, genuinamente, que estas práticas beneficiam e são imprescindíveis às árvores, ou seja, a tal “domesticação dos elementos naturais” de que falava o Henrique Pereira dos Santos.
Os portugueses transplantaram para as cidades as mesmas práticas que sempre aplicaram às árvores de produção, sejam as árvores ditas de fruto ou as árvores usadas para produzir varas, como os salgueiros, por exemplo. As próprias árvores dos montados, sistemas que ocupam parte substancial das nossas paisagens, são regularmente podadas.
À falta de verdadeiras florestas que pudessem moldar a nossa visão do que é uma árvore, a imagem que associamos a esta é a que vemos nos campos e nos montados. Árvores domesticadas e moldadas à nossa vontade. É isso que, ainda que inconscientemente, assumimos como normal e como necessário a uma árvore. É esse o nosso modelo de árvore. O nosso erro é aplicar estas ideias, este modelo de árvore, nas vilas e cidades, aos exemplares ornamentais.
Citando o Eng.º António Fabião1:
As razões para se podar uma árvore podem ser variadas, mas estão todas mais relacionadas com a necessidade que temos de condicionar o desenvolvimento destas plantas, por motivos nossos, do que com necessidades da árvore, que pode perfeitamente sobreviver, crescer e reproduzir-se sem intervenção humana.
Dito por outras palavras, as árvores de produção, como as árvores de um pomar, por exemplo, necessitam de podas regulares que estimulem a produção de mais ramos frutíferos. No entanto, numa cidade, as árvores ornamentais, como as tílias, necessitam de outro tipo de intervenção, que não a mesma que se aplica a uma macieira.
As espécies ornamentais necessitam de ser podadas apenas para remover ramos doentes ou secos, ou seja, podas de aclaramento efectuadas de forma ligeira e regular, espaçadas alguns anos. Eventualmente, poderá ser necessário reduzir o volume da copa, mas sem cortar a sua flecha e sem remover, no limite, mais de metade da sua copa. Longe, muito longe, das práticas a que assistimos na maior parte das situações aqui relatadas.
E, mais importante, estas intervenções têm que ser feitas por quem sabe, ou seja, por arboricultores certificados. O que nos leva à recorrente denúncia de que, em Portugal, qualquer pessoa que saiba ligar uma motosserra se julga, automaticamente, habilitada para podar uma árvore. Porque, não duvidemos, uma poda mal feita é o pior que pode acontecer à saúde de uma árvore.
1 Artigo completo (ficheiro pdf).
(Fotografias da autoria de Albano Mendes de Matos.)




Infelizmente, em pleno século XXI, a mentalidade de muitas pessoas continua a ser a mesma que reinava no século XIX: a Natureza apenas foi criada para que o Homem a dominasse e dela tirasse proveito. Por seu lado, o alto propósito do Homem e o seu maior desafio é domar os elementos naturais, para sempre antagónicos aos seus desígnios egocêntricos.
A diferença é que hoje sabemos mais. Sabemos já que a nossa espécie é apenas uma entre muitos milhões e cujo futuro está inextrincavelmente ligado ao futuro de todas elas. É por isso que não consigo entender esta mentalidade.
Ainda temos tanto para evoluir.
Mais dois novos locais com cenários de horror:
http://riodasmacas.blogspot.com/2010/05/paisagens-antinaturais-sintrenses.html
A saga destas podas camarárias, parece só acabar quando acabarem as árvores!!
Ainda hoje estive no Fundão e essas “árvores” estão com um ar deprimente, meia duzia de folhas a rebentar em cada “toco”.
Ainda por cima deixaram uma intacta para se poder observar a asneirada que ai fizeram.
Deplorável……..
Ainda hoje estive a falar com um colega teu de profissão, que se queixava que a situação piorou muito este ano, em parte devido à crise.
Dizia ele que há muitas empresas, sem qualquer capacidade técnica para podar árvores mas que, há falta de outro tipo de serviços, se está a virar para este sector e a pulverizar os preços nos concursos públicos.
A maioria das câmaras, que já não morre de amores por árvores e que estão com dívidas até ao pescoço, não resiste a esta espécie de “saldos”, quando chega a hora de atribuir a manutenção das árvores do seu concelho.
Desconheço se esta é a sensação que tu tens mas, independentemente do que se está a passar este ano, considero que os bons arboricultores deste país se deviam unir e pugnar por legislação que impedisse que empresas sem credenciais técnicas, pudessem podar árvores ornamentais nas nossas vilas e cidades.
Especificamente sobre o Fundão…É uma pena, sobretudo no caso das tílias visíveis na imagem mais à direita. Estão situadas na principal avenida da cidade, uma via desenhada há várias décadas mas que, ao contrário de muitas avenidas modernas, foi bem concebida. Tem passeios largos e verdadeiros lugares de estacionamento, sem que haja justificação para, à portuguesa, se estacionar nos passeios. Mas, mais importante para o que aqui se fala, tem espaço para arborização e as árvores foram implantadas, na minha opinião, a uma distância generosa das casas.
Esta avenida, em resumo, podia ter um túnel fabuloso composto pela união das copas de várias tílias. Claro que são tílias e que, apesar da distância aos prédios, alguns ramos poderiam ter que ser podados. Mas, evidentemente, nada do que se vê aqui. Isto é vandalismo, puro e simples! E pago com o dinheiro dos nossos impostos.
E, para cúmulo, as câmaras ainda se orgulham destas “acções de limpeza”, justificando-as com a preocupação com a segurança dos cidadãos. Só podem estar a brincar!…
Sabes que, agora que já vão aparecendo, um pouco por todo lado, uns tipos chatos que não gostam de podas destas, as câmaras descobriram este Graal. A segurança das pessoas é explorada até à exaustão para justificar a ignorância e a casmurrice.
Prezado Pedro Nuno, sou brasileiro, de uma província em Minas Gerais, região linda e abençoada por muita água e árvores. Moro atualmente no centro do Brasil, na capital federal, Brasilia. Descobri seus escritos em pesquisa na internet sobre poda drástica. Também cometem este crime ambiental aqui no país e eu tentarei ver formas de ajudar a divulgar o tema. Parabéns pelas excelentes resportagens em defesa das árvores (as utilizarei, com sua permissão, em minhas mensagens de alerta por aqui). A árvores se comunicam, mas sua voz é tão suave que somente mentes mais sensíveis conseguem captar seu canto e sua poesia. Pessoas como você, Pedro, determinadas e preocupadas com o futuro dos nossos filhos, que cantam em defesa das árvores, são um exemplo a ser seguido! Parabéns, meu amigo!