Mais uma vez, vemos as árvores das estradas portuguesas desaparecerem sem aviso, nem explicação prévia, com a excepção de um curtíssimo comunicado no portal da Estradas de Portugal S.A. (EP), que, na altura da sua publicação, incluía um erro no número de exemplares afectados.
Desta vez foram 17 plátanos e um carvalho, em plena cidade do Porto. A estrada da Circunvalação está agora mais pobre. Mais uma vez, os cidadãos revoltaram-se e, fazendo uso dos seus princípios de cidadania, questionaram e exigiram informação a EP e às câmaras municipais (ver este texto e também este, na Campo Aberto).
Neste caso, a polémica instalou-se, a meu ver, sem necessidade. Tanto quanto conseguimos apurar, até ao momento, a EP recorreu a técnicos externos credenciados. O problema está na forma como a (pouca) informação foi veiculada.
A informação tornada pública até ao momento parece-nos escassa e surgiu, apenas, quando a EP foi directamente solicitada, nesse sentido, por uma cidadã. Esta informação não inclui o relatório do estudo feito, mas apenas um parecer feito à posteriori, e onde se detalha, de uma forma que nos parece insuficiente, o estado em que as árvores estariam antes de serem cortadas.
Como noutros casos similares, é nossa opinião que estes dados devem ser sempre facultados antes das intervenções, de modo a evitar impactos emocionais nas pessoas e permitindo que outros técnicos se possam pronunciar, caso solicitados, sobre o teor desses mesmos estudos. Deste modo, ao actuar às claras, sem nada a esconder, as instituições estão a contribuir para eliminar possíveis dúvidas sobre os motivos subjacentes às suas intervenções.
Assim sendo, fizemos hoje um pedido de informação ao Gabinete de Ambiente da EP, no sentido de ser publicado o estudo de avaliação destas árvores.
Exma. Srª
Directora do Gabinete de Ambiente da Estradas de PortugalA Associação Árvores de Portugal (AP) está seriamente preocupada com o que, ultimamente, se está a passar com os arvoredos das nossas vias.
No caso em questão – as 18 árvores abatidas na EN12 (Estrada da Circunvalação) – e apesar de alguma informação já veiculada, subsistem algumas dúvidas que seria de todo interesse esclarecer.
Em primeiro lugar, a AP concorda e apoia a opção tomada de recorrer a uma empresa de arboricultura para realizar a intervenção. No entanto, e apesar da documentação que nos chegou, ainda não sabemos quem fez o estudo fitossanitário e de biomecânica destes exemplares, nem este foi publicado ou facilitado na integra.
Como em muitas situações anteriores, defendemos que as intervenções deste tipo devem sempre ser antecedidas, em prazo alargado, de dois passos imprescindíveis: 1) publicação dos estudos de avaliação das árvores, com a indicação explícita da intervenção a executar, do seu autor e da data de publicação; 2) Informação à população por via de vários canais ao dispor, nomeadamente através da Internet e da afixação de informação, no próprio local, sobre o que vai ser feito.
Neste caso, a Estradas de Portugal (EP) disponibilizou no seu portal informação extremamente sucinta que, na altura, incluiu um erro (entretanto corrigido) no número de exemplares a intervencionar, indicando apenas três árvores para abate.
Vimos, assim, pedir a V. Exª a publicação do estudo das árvores em causa. Nem o parecer, nem o relatório (também este extremamente sucinto e incompleto) emitidos no dia 14 de Junho substituem aquele documento, até porque são posteriores à intervenção.
Em segundo lugar, no citado parecer de dia 14 de Junho, deparámo-nos com a referência à obrigatoriedade do “cumprimento do Aviso Prévio de Intervenção no Arvoredo, em vigor na EP”. Esta é uma medida louvável e de acordo com o que expomos acima, mas que só terá plena utilidade e interesse se complementada com a disponibilização atempada da documentação que a justifique.
Aproveitamos para reafirmar que a AP está preocupada, acima de qualquer outra questão, com a segurança e bem estar das pessoas, o que inclui vias de circulação livres de perigo e com arvoredos saudáveis.
Por outro lado, de forma alguma pomos em causa o trabalho de técnicos devidamente habilitados na área da arboricultura, nem somos contra o abate de árvores para as quais, comprovadamente, não exista outra solução que não ponha em risco pessoas e bens.
Tal como em situações anteriores, comprometemo-nos a publicar a resposta que entendam por bem enviar-nos e colocamos, desde já, ao dispor os nossos canais, no sentido de ajudar a difundir essa informação, da mesma forma que fizemos uso dos mesmos para publicar este pedido.
Agradecemos desde já a atenção prestada a este assunto e ficamos a aguardar a sua resposta.
Atenciosamente,
A Associação Árvores de Portugal.
Resta-nos agradecer às pessoas que nos alertaram para esta situação e que, não se conformando com o que está a acontecer às árvores do nosso país, continuam a questionar e a manifestar-se pela sua preservação.
(Fotografias gentilmente cedidas por Elisa Fonseca.)




Desloco-me com frequência por essa via e nada notei de anormal nas árvores. Ora por formação profissional é improvável que as árvores estivessem doentes e eu nada tivesse notado.
Não é argumento o dizer-se que o trabalho foi entregue a uma firma especializada. Essas firmas fazem o que lhes mandam fazer, ou o que lhes interessa fazer.
Pelo contrário, o que deveria ter sido feito quer por razões viárias, quer paisagísticas, era acabar com os ridículos e perigosos estacionamentozinhos na faixa central, de forma a que esta pudesse ter sempre a mesma largura.
António Saraiva, arqto. paisagista
Infelizmente, sem que os estudos de avaliação das árvores estejam disponíveis antes dos abates, nunca se chegará a poder provar essa teoria. A verdade é que a observação de passagem não pode, de maneira nenhuma, contrapor um estudo feito no local e que, espera-se, tenha sido feito com todo o profissionalismo.
Não posso acusar alguém de má fé, sem qualquer tipo de prova conclusiva. Por isso, esperemos pelo relatório do estudo para tentar perceber o que se estava a passar com as árvores e o seu sistema radicular. Embora, nesta altura, qualquer acusação seja descabida, compreendo que as pessoas tenhas as suas suspeitas, pelo que a EP e a empresa de arboricultura são os mais interessados em que este documento venha rapidamente a público.. Pena é que não o tenham feito antes, evitando todos estes problemas. Não é possível compreender este secretismo, que é denominador comum em quase todos os casos de abates de árvores. Será porque as pessoas estão, actualmente, mais atentas?
Quanto aos estacionamentos, são da responsabilidade das câmaras municipais que, na sua iluminada ideia de urbanismo, beneficiam sempre o carro em detrimento das pessoas e do seu bem estar. Aliás, parece que foram as obras aqui realizadas – incluindo as dos estacionamentos, mas sem esquecer os depósitos subterrâneos da gasolineira, entre outras – que condenaram estas árvores. Penso que o relatório irá referir isso mesmo, coisa que não vai agradar aos autarcas.
Caro arquitecto António Saraiva,
Uma coisa são as suposições que cada um pode fazer com base na sua experiência diária e na sua formação, outra coisa é aquilo que uma pessoa pode e deve dizer, com base na informação disponível, quando escreve em nome de uma associação.
Portugal é um país que tem uma relação doentia com as árvores. Estamos cansados dos inúmeros casos que ocorrem anualmente, de árvores roladas ou abatidas sem qualquer explicação plausível (casos nos quais o nome da Estradas de Portugal surge de forma recorrente). Estamos ainda cansados das “requalificações” onde, com dinheiros públicos e de forma consciente, se cortam árvores saudáveis para as substituir por outros espécimes mais ao gosto do Sr. Presidente ou Vereador, ou mesmo do autor do dito projecto.
No entanto, nenhum destes arboricídios cometidos anualmente invalida o facto que existem árvores que, por razões de segurança, necessitam de ser abatidas. Muitas vezes, trata-se de espécimes sem sinais visíveis de debilidade ou doença na parte área, mas irremediavelmente condenados pela destruição do seu sistema radicular, em virtude de obras efectuadas.
Resta saber qual das duas situações ocorreu neste caso da Circunvalação, ou seja, se estas árvores estavam debilitadas a ponto de porem em risco as pessoas e os seus bens ou se, pelo contrário, tal não passa de uma “desculpa esfarrapada”. A nós parece-nos mais correcto e sensato, antes de crucificar, na praça pública, técnico, empresas e instituições, esperar pela divulgação do estudo que, supostamente, justificará esta intervenção.
Após a divulgação desse documento e a sua análise por outros técnicos credenciados e habilitados em arboricultura urbana, reservamos o direito de, de forma sustentada, nos voltarmos a pronunciar sobre esta matéria.
Provavelmente, se optássemos por uma estratégia de por tudo e todos em causa, obteríamos maior visibilidade, mas não creio que essa seja uma estratégia adequada. De certeza que há boas e más firmas de manutenção de árvores ornamentais, como há bons e maus professores ou bons e maus arquitectos.
Vamos aguardar, com serenidade, para ver se, neste caso, há ou não motivos para criticar o trabalho feito. Independentemente disso, e como bem disse o Miguel, ainda que havendo motivos válidos para cortar estas árvores, a Estradas de Portugal terá sempre responsabilidades por não ter sabido explicar, antecipadamente e de forma clara, os motivos desta intervenção.
Também nunca vi nada de anormal nas árvores. E concordo: não percebo qual a justificação para aqueles estacionamentos no meio da via.
A minha tese neste caso é que ramos caíam em cima dos carros estacionados em dia de vento. E algum figurão reclamou e a inefável EP geriu da forma que o sabe fazer: mandou tudo abaixo antes que fosse tarde.
Então, nesta ordem de ideias (e de actuação), todas as árvores que estejam dependentes da EP parecem correr sérios riscos de sobrevivência.
Muito preocupante !
É verdade. Por isso é que é tão premente conseguir que, de uma vez por todas, estas entidades (EP, Parque Escolar, câmaras municipais e outras) comecem a disponibilizar os planos que afectem arvoredos, bem como os estudo realizados a essas árvores.
A atenção dada as árvores das nossas cidades é tanta e tão tardia que só dão conta da existência delas quando são cortadas.
Foi um decisor activo no corte das árvores que tanto se fala. Fi-lo com a convicção e discernimento adequado e de acordo com rigor, que profissão me exige. Em minha opinião, afirmo ser necessário, noutros pontos da estrada da circunvalação o corte de mais árvores por muitos outros motivos que não os relacionados com doenças ou danos estruturais. Caso não se faça essa gestão a curto prazo comprometerão um número mais elevado de exemplares.
Não sou contra a manifestação de opinião de ninguém, mas há limites. Não aceito lições de Arboricultura Moderna de fundamentalistas e muito menos de pessoas que não estudam nem trabalham na área. Mas aceito que os meus pareceres sejam escrutinados por pessoas com conhecimento efectivo em arboricultura moderna. Lamentavelmente, só se fala de árvores quando estas são cortadas, mas ninguém está atento as condições a que estão sujeitas desde que se plantam.
Atrevo-me a dizer que mais de 70% das árvores que foram e estão a ser plantadas na cidade do Porto desde a capital da cultura, se encontram mal planeadas, mal plantadas, com danos estruturais e sem qualquer protecção que lhes valha. Todos estes factores irão condicionar o seu futuro e com toda a certeza antecipar a sua remoção.
Conheço muito bem quase todas as árvores da cidade e tenho registos que comprovam esse meu empenho na preservação das mesmas e no desenvolvimento da arboricultura Moderna. Para as pessoas que ainda se encontram com dúvidas acerca dos motivos que levaram ao corte das referidas árvores, disponibilizo-me em ir com elas ao local para que confirmem com os seus próprios olhos o estado das raízes. Acredito que desta forma, entenderão que a sua remoção foi a solução mais equilibrada e que não restava alternativa.
Desafio todos os Arquitectos, Engenheiros, Biólogos, Projectistas e todos os que mais interferem com as árvores no espaço urbano, a debater o futuro das árvores da circunvalação e não só. Pois tenho argumentos e informação recolhida suficiente para dizer que os mesmos, salva algumas excepções, são os principais responsáveis pelo mau planeamento e pelas péssimas condições a que estão sujeitas e pelos danos associados que quase sempre antecipam a sua remoção.
Caro Paulo
Precisamente por não estudar ou trabalhar nesta área, é que não critico o seu trabalho e a opção da EP. Critico sim, e continuarei a faze-lo, a falta de informação detalhada disponibilizada antecipadamente. Por isso fizemos o pedido à EP para que o relatório do estudo seja publicado, tentando reduzir o mal-estar criado por esta situação. Claro que esta informação, à posteriori, não resolverá todo problema nem convencerá todas as pessoas. Manifesto profundo respeito pela sua disponibilidade para “que os meus pareceres sejam escrutinados por pessoas com conhecimento efectivo em arboricultura moderna”. Por isso, dirijo-lhe o mesmo pedido: faculte o relatório do estudo e, na próxima situação, seria óptimo que isto fosse feito antes das árvores serem cortadas.
Por exemplo, relativamente às outras árvores da circunvalação, seria imprescindível que o seu conhecimento fosse divulgado. Por um lado, talvez se pudesse ainda fazer alguma coisa por alguns dos exemplares, por outro lado estaríamos a preparar as pessoas para a intervenção que terá que ser feita. Caso não veja inconveniente nisso, disponibilizamos desde já os nossos canais de informação para esse efeito.
Concordo consigo no que respeita ao péssimo planeamento da actual implantação da árvore em meio urbano. Aliás, encontrará neste blogue várias referências a esse problema, nomeadamente este texto do José Rui Fernandes.
Aqui encontrará sempre pessoas atentas não só aos abates e rolagens, mas também à forma como as árvores são escolhidas, plantadas e tratadas. Claro que precisamos da ajuda de todas as pessoas que se preocupam com este assunto. Este espaço está aberto a todos os que, no exclusivo interesse dos nossos arvoredos, queiram relatar situações de más práticas, sejam estas realizadas em árvores já existentes ou, preferencialmente, ainda em fase de planeamento. Se esta informação nos chegar a tempo, poderemos ainda dar o nosso contributo para ajudar a evitar estas situações que refere.
Os arboricultores têm aqui uma enorme responsabilidade. Uma vez que deverão possuir os conhecimentos e habilitações que os capacitam para tratar das árvores e são frequentemente contactados pelas entidades que gerem os nossos arvoredos, estão na posição ideal para ir passando conhecimento e sensibilidade no que respeita a todos estes problemas que menciona.
Caro Paulo,
Nos nossos textos, temos procurado denunciar aquilo que é mais fácil de denunciar como sejam as rolagens ou os abates injustificados. Mais difícil de fazer, por exigir mais coragem e ser difícil de explicar, é a defesa de que, por vezes, existem motivos que justificam o abate de árvores em meio urbano. Apesar de mais difícil temo-lo feito.
Mas as pessoas estão cansadas de inúmeras situações em que árvores, com as quais conviveram durante dezenas de anos, desaparecem, em secretismo e sem qualquer explicação, da noite para o dia.
Não é fácil fazer as pessoas acreditar na bondade destas decisões, num país com uma relação tão doentia com as árvores. Acresce, neste caso em concreto, que a decisão envolve uma entidade, como a Estradas de Portugal que, ao longo dos últimos anos, se tem envolvido em situações difíceis de explicar e justificar, como a que ocorreu, há pouco meses, em Trancoso.
Para voltar a ganhar a confiança das pessoas é preciso actuar com transparência, explicando, previamente, os motivos que ditam a necessidade de abater as árvores. E, mais do que isso, explicando quais os motivos, e os responsáveis, pela necessidade de abater, de forma precoce, os exemplares em causa.
Não se pode abusar da boa-fé das pessoas, num país onde, por tudo e por nada, se podam ou abatem árvores. Não se pode esperar que essas mesmas pessoas aceitem, sem questionar, os motivos pelos quais cortam as árvores que se habituaram a ver todos os dias.
Será pedir muito à Estradas de Portugal, ou a qualquer outra instituição, que, em situações similares e de futuro, organize, na junta de freguesia respectiva (por exemplo), sessões de esclarecimento onde os próprios técnicos possam explicar, de viva voz, estas situações e responder a qualquer dúvida?
Existe um outro aspecto, associado a estas questões, que não posso deixar de mencionar. A Árvores de Portugal nasceu para defender as árvores. Isto implica, infelizmente, ter que aceitar que, por vezes, há necessidade de aceitarmos a perda de certas árvores, nomeadamente em meio urbano.
Temos feito um trabalho de pedagogia, tentando explicar às pessoas que, em meio urbano, e dados os factores de degradação a que estão expostas (rolagens, obras, etc.), as árvores ornamentais estão sujeitas a problemas que, por vezes, ditam a tal necessidade de abate. Mas não nos peçam para, sistematicamente, fazermos de “advogados do diabo” e sairmos em defesa de todos aqueles que, no nosso país, actuam no sector da manutenção das árvores ornamentais.
São esses técnicos, como o Paulo Moura que, em primeiro lugar, devem lutar pela clarificação do sector, identificando os bons profissionais e empresas e denunciando aqueles que não têm competência e que fazem apenas aquilo que lhes pagam para fazer, seja rolar árvores ou, simplesmente, abatê-las. Em segundo lugar, o Paulo e todos os demais bons técnicos que existem no sector, têm que compreender, de uma vez por todas, que muitas destas polémicas se evitavam se as populações fossem avisadas previamente dos motivos para tais intervenções.
Cumprimentos.
http://www.campoaberto.pt/2010/06/17/corte-de-arvores-na-circunvalacao-resposta-da-c-m-porto/
Há quem tenha o relatório da EP e o ponha em causa.