A forma como lidamos com as árvores incomoda-me particularmente no Verão, quando a sua sombra mais é necessária. O nosso problema com a arborização urbana é cultural e, já no século XIX, o escritor dinamarquês Hans Christian Andersen, de passagem por Lisboa, se lamentava:
As cortinas estavam corridas, as portas das janelas fechadas para que não entrasse a luz quente do sol. Era uma verdadeira tortura sair, só se podia caminhar pela sombra minguada das casas (…) Cheguei atormentado pelo calor e atormentado regressei a casa…
O desconforto térmico das nossas urbes, se em grande medida de deve ao nosso clima, em muito fica a dever, igualmente, à falta de espaços verdes e de uma correcta arborização.
Curiosamente, hoje em dia, árvores não faltam em muitas das nossas urbes, inclusive em zonas sem características físicas para as suportar. Porém, uma grande maioria dessas árvores, são como as das imagens que acompanham este texto, ou seja, árvores que apesar de terem dezenas de anos, fruto de rolagens brutais, possuem copas raquíticas, incapazes de propiciar qualquer frescura aos transeuntes.
Há depois as outras, aquelas árvores que, ano após ano, insistem em não crescer. Conheço várias assim! Má escolha da espécie em função do local? Espécimes de má qualidade, mais susceptíveis a doenças ou à secura? Não sei, só sei que todos nós conhecemos árvores nas nossas cidades que correspondem a esta descrição.
Mas voltemos a essa lusitana tradição de rolar as árvores. De todos os textos que conheço sobre o assunto, nenhum será tão eloquente como o que a seguir transcrevo, da autoria de Joaquim Vieira Natividade, o grande agrónomo que foi também silvicultor e um dos maiores especialistas mundiais do sobreiro. O texto foi escrito em 1959 mas, meio século depois, continua, infelizmente e cada vez mais, perfeitamente actual.
Uma das coisas que desfavoravelmente impressiona quem visita o nosso País é a incapacidade, aparente ou real, para, com inteligência e dignidade, aproveitarmos a árvore no urbanismo. Há quem fale, à boca pequena, de atávicos instintos “arboricidas”, o que é desprimoroso, antipático, quando não degradante e sinistro, porque pode levar a crer que, apesar de baptizados e de nos termos por bons cristãos, de todo nos não libertámos ainda dos vícios e das tendências ingénitas, da infiel moirama. Para se contornarem os melindres, recorramos, não já ao neologismo “arborifobia”, porventura também cruel, mas a eufemismos suaves e eruditos, como a dendroclastia, para traduzir o desamor de muitos dos nossos municípios pela árvore ornamental. Em boa verdade, por esse País fora, em tantas caricaturas de jardins a que se dá por vezes o nome de parques municipais, raro se nos depara uma árvore verdadeira, uma árvore autêntica, em todo o esplendor da majestosa arborescência; a árvore esbelta, digna, umbrosa e acolhedora, orgulho da Criação. Onde acaso existiu, poucas vezes escapou a brutais mutilações que a transformaram em grotesco “Quasímodo”, sem o mínimo respeito pela dignidade do mundo vegetal.
Nos jardins, em lugar da árvore, plantou-se um reles “ersatz” uns arbustozitos burlescos, quase bobos arbóreos, tão inúteis que nem dão sombra a uma pessoa crescida: as tais falsas acácias de importação, maneirinhas, embonecadas, dengosas, com o ar, não de fazerem parte do jardim, mas de terem ali ido, em passeio, exibir ramagem, com a sua “permanente” manipulada no salão de qualquer “coiffeur” arborícola municipal. Compreende-se, num povo de fraca cultura, o desamor instintivo ao marmeleiro e ao castanheiro, árvores estas consideradas, desde remotos tempos, estimáveis ferramentas de educação e esteio dessa vida patriarcal, austera e digna, que os velhos, ao olharem o que vai pelo mundo, recordam com saudade e respeitoso enlevo. Já se não compreende, todavia, que se mutilem ou suprimam sem piedade o ulmeiro, o plátano, o umbroso freixo, o álamo esbelto, os nobres e austeros ciprestes, os cedros, os carvalhos e tantos outros soberbos gigantes vegetais que, estranhos, embora, muitos deles à nossa flora, encontraram na Lusitânia como que a sua segunda pátria.
Num país castigado por uma ardente canícula, dir-se-ia que temos horror à sombra; onde se pediam arvoredos frondosos e acolhedores, o ninho de um oásis a suavizar as inclemências do estio, fizemos terreiros imensos, cruamente ensoalheirados e inóspitos; quando tantos dos nossos monumentos lucrariam com uma nobre moldura vegetal que acarinhasse e aquecesse a frieza da pedra ou por vezes quebrasse, com a cortina da folhagem, a monotonia das grandes massas arquitectónicas, e num ou noutro caso escondesse até a sua real pobreza; quando a presença da árvore exaltaria o poder evocador e o poético encanto que emana de tantas ruínas, como acontece aos templos perdidos nos bosques sagrados da Grécia nós, pela calada, metodicamente, cinicamente, fomos degolando, mutilando, rapando tudo o que tivesse jeito de árvore para não prejudicar as “vistas”, tal como faria qualquer ricaço de letras gordas aos empecilhos que ofuscassem ou escondessem os arrebiques pelintras do seu “chalet”.
(As fotografias são da autoria de João Paulo Hermenegildo que, amavelmente, acedeu à publicação das mesmas neste blogue. Foram captadas na freguesia de Roliça, Bombarral.)




muito bem!