Sobreiro – A Árvore de Portugal

O sobreiro em Portugal, sóbrio, rústico, complacente e bonacheirão, vegeta em toda a parte e sujeita-se, com singular e impressionante humildade, às condições mais diversas, por vezes as mais pobres.

Joaquim Vieira Natividade in Aspectos da Cultura do Sobreiro em Portugal

As associações Árvores de Portugal (AP) e Transumância e Natureza (ATN) formalizaram no passado Sábado, à sombra do secular sobreiro do Cachão, com um aperto de mão entre os respectivos presidentes, o desejo de ver o sobreiro consagrado, oficialmente, como a Árvore Nacional de Portugal.

Apesar do sobreiro já estar protegido pelo Decreto-Lei n.º 169/2001, é entendimento de ambas as associações, que o simbolismo da classificação desta espécie como Árvore Nacional de Portugal reforçará o reconhecimento da importância do sobreiro para o nosso país e aumentará a pressão, junto dos diversos poderes, no sentido de serem encontradas novas soluções para os problemas que afectam esta espécie e os sectores de actividade que dela dependem.

Assim sendo, a caminhada que agora se inicia, visa não apenas a classificação do sobreiro como a árvore nacional do nosso país, mas, igualmente, ajudar a criar uma plataforma que funcione como um lóbi de defesa do sobreiro e da sua cultura, procurando ser parte activa na procura de soluções para alguns casos concretos que serão divulgados futuramente.

Esta iniciativa tem o seu ponto de arranque com a divulgação do comunicado que a seguir se transcreve, o qual será enviado à comunicação social. Em breve, será criado um blogue e uma página no Facebook, como forma de publicitar a iniciativa e de angariar apoios e sugestões.

As associações Transumância e Natureza e Árvores de Portugal pretendem, com o presente comunicado, lançar um movimento que visa desencadear o processo de atribuição ao sobreiro do estatuto simbólico de Árvore Nacional de Portugal.

Para fundamentar esta pretensão, encontram-se, entre outros, os seguintes motivos:

– Por ser uma espécie com ampla distribuição no território nacional continental, presente desde o Minho ao Algarve, em diferentes ecossistemas naturais. O sobreiro ocupa em Portugal perto de 737 000 hectares (dados do Inventário Florestal Nacional de 2006, não incluindo alguns povoamentos jovens), o que corresponde a cerca de 32% da área que a espécie ocupa no Mediterrâneo ocidental.

– Pela enorme biodiversidade associada aos habitats dominados pelo sobreiro, incluindo espécies em sério risco de extinção e com elevado estatuto de conservação, consideradas prioritárias a nível nacional e internacional.

– Pelo facto dos montados serem um excelente exemplo, de como um sistema agro-silvo-pastoril tradicional pode ser sustentável, preservando os solos e, desse modo, contribuindo para evitar a desertificação e consequente despovoamento/desordenamento do território.

– Pela crescente relevância que os bosques de sobreiro e os montados, incluindo a biodiversidade associada, estão a conquistar junto de novos sectores, como o sector do turismo, traduzindo-se numa mais-valia para as populações locais e para a economia nacional. Sublinhe-se que, na actualidade, existem entidades ligadas a este sector de actividade, que pretendem candidatar o montado a Património da Humanidade, com base no reconhecimento de que se trata de um ecossistema único no mundo.

– Pela sua importância económica e social, resultante do facto de Portugal produzir cerca de 200 000 toneladas de cortiça por ano (mais de 50 % do total mundial), sendo este sector o único onde o nosso país possui uma posição de liderança a nível internacional, desde a matéria-prima até à comercialização, passando pela transformação. A perda desta liderança representaria um descalabro económico, social e ambiental sem paralelo para o nosso país.

As duas associações que subscrevem este documento tudo farão para que, futuramente, se possam juntar a este movimento, diversas instituições nacionais e todos os cidadãos a título individual que assim o desejem, incluindo todos os que, directa ou indirectamente, estão relacionados com a cultura do sobreiro e com os produtos e serviços que dependem desta espécie e das formações vegetais que domina, com especial destaque para a indústria corticeira.

Estamos cientes que, apesar da vigência do Decreto-Lei n.º 169/2001, há ainda um longo caminho a trilhar, junto das diversas instâncias da sociedade, para se conseguir uma sensibilização que conduza a uma efectiva preservação desta espécie e dos valores biológicos, paisagísticos, económicos e culturais associados à mesma.

A classificação do sobreiro como Árvore Nacional de Portugal, poderia, em adição ao simbolismo do acto, ajudar a tornar mais visíveis os graves problemas associados, no presente, à cultura e preservação desta espécie, contribuindo, desta forma, para aumentar a pressão no sentido de se alcançarem as soluções necessárias para os mesmos.

Algodres, 30 de Outubro de 2010

Associação Transumância e Natureza
Associação Árvores de Portugal

9 Responses to “Sobreiro – A Árvore de Portugal”

  1. Nelson Lima

    Caros amigos,
    A “aventura” vai começar e muito trabalho nos espera pela frente até fazermos desta especie a nossa árvore nacional, a ÁRVORE DE PORTUGAL.

    Abraço

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  2. vitorsilva

    Viva
    Excelente iniciativa
    A Campo Aberto gostaria de se associar a ela. O que teremos que fazer?
    Respondam para o meu email pf para eu depois reencaminhar para o resto da direcção.
    Cumprimentos,
    Vitor Silva

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  3. Manuel de Azevedo

    Chamo a atenção para isto – https://winekitmaking.com/general/ten-facts-about-wine-corks
    E destaco o que lá diz – Portugal has 1/3 of the world’s cork forests (approximately 2,200,000 hectares) and supplies more than half the world’s cork. Portugal’s care for its cork forests is one of the most excellent examples of sustainable agro-forestry in the world. Cork is recyclable, biodegradable and renewable. Portugal’s cork forests are treated as a protected resource, and everything done with a cork tree is subject to codes that guarantee sustainability and ensure that nothing is wasted.
    Claro que já lá comentei o movimento Sobreiro – A Árvore de Portugal (que aproveito para saudar e apoiar), como já o tinha feito no 100%CORK no Facebook. Vou estar atento e ajudar no que puder. Força!

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    • Miguel Rodrigues

      Muito obrigado pela ligação e pelo apoio! Infelizmente, nem sempre o que é referido neste artigo corresponde exactamente à realidade. Ainda existem muitas práticas que estão a prejudicar os nossos sobreirais (veja-se a elevada taxa de mortalidade actual), bem como muitos projectos que, sem qualquer pejo, contemplam o abate de muitas centenas de sobreiros adultos em plena produção.

      É por causa destes problemas que pretendemos elevar o sobreiro a Árvore de Portugal. Esperamos que com esta distinção, se chame a atenção de todos os portugueses para a crucial necessidade de proteger todos e cada um dos nossos sobreiros. E, claro, plantar muito mais!

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  4. joao pinheiro

    Não acho nada bem.
    O sobreiro apenas é tradicional de uma parte de Portugal.
    No noroeste são raríssimos.
    Onde estão os sobreiros do Minho? e do Douro Litoral? e da Beira Litoral?…

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    • Pedro Nuno Teixeira Santos

      Caríssimo João Pinheiro,

      Tem a certeza que conhece o Noroeste do nosso país?! De certeza que não podemos estar a falar do mesmo país. Conhece a cidade de Braga, por exemplo? Uma cidade que tem sobreiros dentro da própria malha urbana (Santa Tecla, Bairro da Misericórdia) ou nos arredores (na cerca do Mosteiro de Tibães, no Monte do Bom Jesus ou no Monte de Santa Marta das Cortiças, por exemplo). Porque achará que, no Minho, baptizaram esta santa com o nome de Santa Marta das Cortiças?!

      Terei o maior gosto, caso a oportunidade o proporcione, de lhe mostrar inúmeros sobreiros em todo o Noroeste do nosso país, alguns dos quais classificados como árvores de interesse público (como este em Melgaço, este em Arouca ou este em Águeda (e olhe que há mais exemplos, eu é que não quero maçá-lo!).

      Os sobreiros estão por todo o lado, desde o coração do Gerês até a terrenos a escassos metros do mar, como em Esposende. E se mais sobreiros não há, tal deve-se à florestação intensiva com pinheiro-bravo e, mais recentemente, com o eucalipto.

      Se o seu comentário prova alguma coisa é apenas o facto de tantos portugueses desconhecerem a riqueza e a diversidade natural da sua própria terra.

      O senhor tem todo o direito de não concordar com a nossa ideia, não pode é fazê-lo com base em inverdades. Não confunda a ausência de montados, com a ausência da espécie. O sobreiro é tão típico do Minho ou de Trás-os-Montes, como é do Alentejo ou do Algarve.

      Apenas lamento, como professor, que ninguém lho tenha ensinado na escola.

      Cumprimentos.

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