Os Plátanos de Colares

Muito tem sido escrito, incluindo nas páginas deste blogue, acerca dos plátanos de Colares, no concelho de Sintra, desde que se conheceu a intenção da Estradas de Portugal de intervir sobre os mesmos.

Em nome da Árvores de Portugal, uma das associações que se tem empenhado na salvaguarda deste património arbóreo, decidi pedir ao Pedro Macieira, autor do blogue Rio das Maçãs, e um dos cidadãos que mais se tem empenhado na defesa destas árvores, que escrevesse um texto que pudesse servir de resumo ao que se passou nos últimos meses.

O objectivo da publicação deste texto é esclarecer a opinião pública sobre os factos ocorridos e servir de denúncia à actuação da citada empresa, a qual não tem cumprido o que o próprio estudo técnico que encomendou determinava, nomeadamente quanto à necessidade de abater algumas árvores.

A Árvores de Portugal agradece a disponibilidade do Pedro Macieira para, neste blogue, e com o seu texto, contribuir para esclarecer, de forma detalhada, tudo o que se tem passado nestas últimas semanas.

Os Plátanos de Colares

[Relato do processo de Intervenção da Estradas de Portugal S.A. (EP) nas árvores de Sintra, iniciado em 13 de Dezembro de 2010 em Sintra.]

A Alameda dos Plátanos (Alameda Coronel Linhares de Lima) é uma imagem de marca de Colares. A ameaça de uma intervenção, naqueles Plátanos, considerando as práticas de rolagens em Sintra por parte da Câmara Municipal de Sintra (CMS), fez com que um grupo de pessoas preocupadas lançasse uma petição “Em defesa das árvores de Sintra”, que recolheu cerca de 2000 subscritores.

Posteriormente, como surgiram marcações nos Plátanos centenários, em frente à Adega Regional de Colares, foi feito um pedido de classificação dessas árvores à Autoridade Florestal Nacional (AFN), que aceitou. Esse pedido de classificação dos Plátanos, obrigou a que a intervenção da EP ficasse suspensa, “até à conclusão do processo de classificação”, como me foi confirmado pela própria AFN:
http://riodasmacas.blogspot.com/2010/01/platanos-de-colares-actualizacao.html

Este assunto teve um mediatismo considerável, como foi, inicialmente, o caso do Jornal Público a 8 de Junho de 2010:
http://riodasmacas.blogspot.com/2010/06/platanos-de-colares-e-classificacao-de.html

Posteriormente a AFN, a EP e a CMS fizeram um acordo no qual aceitaram que a intervenção da EP avançasse…o que obrigou a EP na véspera da intervenção em Colares a fazer uma reunião pública de esclarecimento em 11-12-2010, na Junta de Freguesia. Esta contou com a presença do Eng.º Fabião do Instituto Superior de Agronomia (ISA), autor do trabalho de análise fitossanitário de cerca de 40 árvores em três zonas da intervenção (Colares, Galamares e Vila Velha), não estando analisadas nesse estudo as restantes 300 árvores que fazem parte da intervenção da EP em Sintra.

A sessão de esclarecimento foi feita sem que os presentes tivessem conhecimento do estudo do ISA. A pedido dos presentes foi-nos disponibilizado o estudo uns dias depois, com a presença da empresa contratada pela EP de nome “Rapamato” já em acção em Colares (13-12-2010).
http://riodasmacas.blogspot.com/2010/12/sessao-de-esclarecimento-da-ep-sobre-as.html

A acção desta empresa supervisionada pela EP foi e tem sido desastrosa para Colares, para a sua paisagem, e especialmente para os seus plátanos.

No dia 15-12-2010, é cometido um dos maiores crimes de lesa património arbóreo que presenciei, com o abate de dois dos plátanos daquela Alameda de plátanos, anteriores à própria Adega, que ali foi construída pela sombra existente dos plátanos ser útil à produção do Vinho de Colares.

No estudo do ISA, os plátanos abatidos em frente à Adega, eram apenas referenciados com a necessidade de monitorização e não de abate.
Entretanto foi feito um comunicado conjunto a 3 de Janeiro de 2011, da Quercus, Árvores de Portugal, Liga de Protecção da Natureza, Olho Vivo, Info Nature Portugal e do Blogue Rio das Maçãs, e que face à não resposta da EP às questões que lhe foram dirigidas, sobre a necessidade de mais informação, considerava que: “Dada a postura manifestada pela ESTRADAS DE PORTUGAL SA, os signatários irão apresentar queixa junto do Ministério Público no Tribunal competente.

http://riodasmacas.blogspot.com/2011/01/comunicado-conjunto-querqusarvores-de.html

Em resposta a EP justificou a intervenção nos plátanos de Colares por razões de segurança.

Repercussão na comunicação social:

A imagem do abate dos plátanos foi divulgada na blogosfera, inclusive em sites alemães e na comunicação social Nacional e Regional, e foram dadas várias entrevistas radiofónicas:
http://scharfschwerdtstrasse43.de/notizen/498
http://www.portugalforum.org/politik-gesellschaft-portugal/21067-kulturlandschaft-wueste-colares-sintra-hundertjaehrige-platanen-gefaellt.html

O Estudo do ISA do Eng.º Fabião – Diagnóstico da Solidez dos Troncos em árvores do Concelho de Sintra:

Se alguns consideraram que o estudo do ISA do Eng.º Fabião era quase uma bíblia, e não era discutível, da nossa parte tentámos saber opiniões de especialistas mediante os resistogramas do estudo do ISA e das fotos dos troncos cortados.

Neste âmbito três pareceres de técnico ingleses e um parecer da Universidade de Coimbra foram, unânimes em considerar que não havia qualquer necessidade de abater aqueles dois plátanos.

Assim apresentámos pareceres das seguintes entidades:
Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra sobre Plátano abatido em Colares
http://riodasmacas.blogspot.com/2011/01/parecer-do-centro-de-ecologia-funcionsl.html
O parecer de um técnico inglês da organização “Tree Strategies”, http://www.treestrategies.co.uk/ sobre a necessidade de abate de um dos plátanos de Colares
http://riodasmacas.blogspot.com/2010/12/podas-e-abates-em-colares-ii.html

E as opiniões de:

Geoffrey March Dip. Arb. (RFS) F. Arbor. A.
Registered consultant, Arboricultural Association
Director, Tree Maintenance Ltd, Unit 60, Aston Down, Stroud,
Gloucestershire GL6 8GA

Andrew Scales
Member NAAA
Dip. Horticulture / Arboriculture AQF5

http://riodasmacas.blogspot.com/2011/01/mais-opinioes-contra-necessidade-do.html

O Comunicado da Estradas de Portugal SA:

A 18 de Janeiro de 2011, foi feita uma reportagem em directo de Colares pela Antena1, com os representantes da Quercus, da Estradas de Portugal e da Junta de Freguesia de Colares.
http://riodasmacas.blogspot.com/2011/01/antena-1-em-colares-por-causa-dos.html

Nesse mesmo dia a EP divulgou um comunicado de resposta aos subscritores do comunicado conjunto:
http://riodasmacas.blogspot.com/2011/01/resposta-da-ep-aos-nossos-pedidos-de.html
Neste comunicado enviado pela EP tenta justificar a interrupção do processo de classificação dos plátanos de Colares, e o abate dos dois plátanos centenários, e curiosamente envolve pela primeira vez o Parque Natural Sintra Cascais (PNSC):

“Quando a AFN, após análise daquele relatório, suspendeu o processo de classificação até à realização das acções preconizadas no mesmo, a EP, ciente de que essas acções poderiam ter impacto no aspecto visual do alinhamento em causa, considerou que seria de todo o interesse concertar previamente estas acções com a AFN, assim como, com a Câmara Municipal e Parque Natural de Sintra/Cascais.” Adiantaram ainda que: “Por fim, no que respeita à última questão colocada, julga-se que os motivos do abate de dois plátanos pertencentes ao conjunto de dezassete exemplares situados em frente à Adega Regional de Colares, se encontram devidamente esclarecidos no relatório elaborado pelo Prof. António Fabião, que refere a necessidade de se proceder a uma substituição a curto/médio prazo de alguns dos exemplares, devendo essa substituição ser gradual e iniciar-se pelos dois exemplares que apresentavam risco potencial mais imediato.
De salientar que foi com pleno conhecimento do conteúdo deste relatório que a Autoridade Florestal Nacional suspendeu o processo de classificação.”

Conclusão:

Os plátanos abatidos em Colares já são quatro, tendo a EP, feito a sua replantação com árvores jovens, o que não altera o facto de continuar a considerar que aconteceu em Colares um crime no seu património arbóreo, praticado pela EP.SA.

Entretanto as amputações, que a EP denomina de podas continuam, conforme as fotos de Domingo, 6 de Janeiro de 2011:
http://riodasmacas.blogspot.com/2011/02/platanos-e-podas.html

A paisagem de Colares está completamente descaracterizada, e a intervenção em Colares ainda não terminou. Existe outro local que faz parte do estudo do ISA, o Centro Histórico de Sintra (Vila Velha), em que também um plátano pelo menos estará em risco de abate segundo os critérios da EP, além de outros abates referidos no estudo do ISA.

Um grupo de cidadãos e a Associação de Defesa do Património de Sintra tem-se reunido, trocando informações para melhor acompanhamento da intervenção da EP em Sintra.

Em 7 de Janeiro de 2011 a ADPS, fez uma queixa à Unesco sobre estes acontecimentos, com conhecimento a várias entidades entre as quais:
CMS, DRC de Lisboa e Vale do Tejo.

Continuaremos a estar atentos de forma a pressionar a Estradas de Portugal, e a exigir as explicações julgadas necessárias, e a colaborar com todos que se queiram juntar na defesa das árvores de Sintra.

Colares, 8 de Fevereiro de 2011

Pedro Macieira
Blogue Rio das Maçãs
http://www.riodasmacas.blogspot.com

(Fotografias de Pedro Macieira.)

4 Responses to “Os Plátanos de Colares”

  1. Jaime

    http://travancasdaraia.blogspot.com/2011/02/castanheiro-centenario-abatido.html

    Mais uma triste noticia, este país está a saque e o pior é que ninguém sabe o que fazer para travar esta aversão nacional às árvores.
    Em Alenquer, por exemplo, junto à estrada nacional no inicio deste Inverno também foram abatidas dezenas de arvores, algumas centenárias por certo. O que disseram foi que eram perigosas porque podiam deixar cair ramos para a estrada. Já no Verão haviam sido cortadas mais algumas dezenas (arrisco centenas) junto ao rio Alenquer a pretexto de que as arvores estavam a causar a acumulação de lixos e isso foi o que causou as cheias do ano Anterior. Agora não resta uma única árvore junto ao rio, na zona do seu curso inferior antes de chegar à Vila, sobretudo no vale das vinhas. E é assim que vamos, ao sabor de quem manda neste triste país .

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