E eis que, sobre o caso da Bela-sombra desclassificada, chega uma, pouco convincente e cheia de ambiguidades, justificação da parte da Autoridade Florestal Nacional (AFN):
Trata-se de uma árvore que apesar de apresentar morfologia arbórea, é uma planta herbácea de grandes dimensões com tronco e ramos leves e esponjosos, compostos por 80% de água e pouco tecido lenhoso, com fraca resistência estrutural. Ora, o espaço confinado e sombrio entre edifícios altos em que se encontra, e com o volume aéreo disponível actualmente ser manifestamente insuficiente, obriga a trabalhos de podas frequentes que contraria o seu crescimento natural. A árvore desenvolveu-se mais em altura com braças de crescimento vertical demasiadamente longas que, atendendo à sua pouca resistência estrutural e grande peso da rama, tendem a partir com frequência sobretudo com o tempo quente e seco. A regularidade com que se têm partido e caído braças e ramos num local onde há estacionamento de viaturas sob a copa que cobre parcialmente a entrada da escola do Grémio de Instrução Liberal de Campo de Ourique onde todos os dias estudam cerca de 500 crianças e circulam os moradores do Largo e todos os que ali se deslocam, constitui um risco para a segurança pública.
Nada disto faz sentido: Existem várias Bela-sombra (Phytolacca dioica) classificadas como Árvore de Interesse Público em Lisboa, a AFN que é responsável, não só por estas classificações mas ainda pela sua protecção e manutenção, sempre soube que eram “plantas herbáceas com ramos leves e esponjosos”. É precisamente esta particularidade que faz da Bela-sombra uma árvore tão extraordinária, com longos ramos que crescem rapidamente e que a um determinado ponto, naturalmente se dobram dotados de uma elasticidade que, à semelhança das palmeiras, lhes permite suportar, nomeadamente, os ventos fortes (podem eventualmente tornar-se quebradiços se a árvore apresentar carências hídricas por falta, neste caso, de rega durante períodos de seca). Não é aceitável de forma nenhuma que este argumento seja apresentado como razão para a sua desclassificação, quanto muito poderia ser um critério para não as classificar.
A referência ao “espaço confinado e sombrio” também não me diz grande coisa, as evidências mostram que a árvore está bem adaptada, de boa saúde, florida e a crescer bem de tal forma que tem de ser podada regularmente, coisa que ao que parece maça quem tem a responsabilidade de o fazer talvez porque tratando-se de uma árvore classificada tem de ser feito por quem (esta não me escapa) saiba da poda e não pelos trogloditas do costume. O facto de uma árvore classificada estar a crescer a bom ritmo, não pode justificar a sua desclassificação, certo?
Mas da pouco convincente tentativa de esclarecimento da AFN, salta à vista um aspecto importante: O facto, para mim inaceitável, de tantas vezes ser referido que a dita árvore constitui um risco para a segurança pública. Vou tentar não fazer aqui uma lista dos muitos riscos à segurança pública que existem nas cidades, são, acreditem, muitos… Mas, as árvores, não são, nem devem ser consideradas, um risco para a segurança pública; este tipo de abordagem, tão ao estilo do nosso actual vereador dos espaços verdes (não conheço ninguém que tenha tanto medo das árvores) não pode justificar todas os atentados ambientais e as atrocidades que se fazem às árvores de Lisboa e muito menos às Árvores Classificadas que deveriam ser veneradas por todos.
Temo que esta desclassificação seja, na realidade, a sentença de morte para uma árvore com mais de um século*. Resta perguntar: A quem é que interessa a morte desta Bela-sombra?
* Plantada no local em finais do século XIX. Integrava o jardim anexo ao palacete do Doutor António Viana. Do antigo conjunto faz ainda parte uma palmeira, que consta ter sido plantada por Guerra Junqueiro, amigo da família Viana. Da demolição do palacete e ocupação do jardim do mesmo, no início dos anos 60 do século passado, resultou a Praceta da Rua Silva Carvalho, depois Largo Doutor António Viana com a construção de edifícios envolventes. Sobrando um terreno que se tornou baldio por falta de manutenção, legado pelo proprietário, Câmara Municipal de Lisboa (CML), para a instalação da escola do centro republicano conhecido por Grémio de Instrução Liberal de Campo de Ourique. No terreno para a escola, ficou uma mata com várias espécies arbóreas. Por haver um poço na zona, integrou durante duas décadas uma verdejante horta urbana, que dava ao local, já de si bucólico, um ambiente calmo e relaxante, até porque só ali passava quem lá morava. Todo este espaço foi, com o aval da CML, impermeabilizado há 6 anos durante a construção da dita escola, restando do espaço verde apenas a pequena zona a que está confinada a Bela-sombra.




É claro que a desclassificação é a condição necessária para o passo seguinte: o abate da ‘Bela-sombra’. O que se passou no Jardim do Príncipe Real mostra-nos que da actual AFN muito pouco há a esperar, muito menos agora que os tempos estão adversos para gastos com ‘Belas-sombras’. E claro, um espaço para mais dois ou três carritos dá muito jeito a muita gente e muita EMEL.
claro: estacionamento!
vivam os lenhadores CML
Não é fácil, hoje em dia, ser árvore em Lisboa. Esta ideia de que as árvores de grande porte constituem um perigo para a segurança pública é uma ideia perigosa e totalmente despropositada quando vem, precisamente, de quem tem a obrigação de as proteger. Os plátanos do Campo Pequeno, os choupos e as robínias no Príncipe Real, os pinheiros em Monsanto e no Parque Eduardo VII, os lódãos da Estefânia, a Bela-sombra do Jardim da Estrela e as sophoras do jardim do burro, as 23 árvores do Jardim da Luz, os lódãos da Rua Marquês de Fronteira, as árvores inclinadas do Jardim das Amoreiras, os pinheiros mansos no Campo grande… São só alguns exemplos de árvores de grande porte que foram abatidas quando precisavam apenas de manutenção e cuidados. O Zé tem licença para matar.
Uma sugestão. Vamos contribuir para o aquecimento global. Cortamos todas as árvores de Lisboa e em vez de irmos para os jardins iremos para os Centros Comerciais, como toda a “bimbalhada” vai, para usufruirmos do ar-condicionado. Ou então compramos o aparelho de ar-condicionado e instalamos em casa. Assim estamos fresquinhos, contribuimos para a “engorda” da EDP, e os “ditos cujos” da AFN já não se chateim tanto a podar árvores. Aliás ficariam sem emprego. Desculpem a ironia do comentário mas esta coisa de cortar árvores deixa-me fulo. Não querem ramos a cair encima dos carros não os estacionem debaixo das árvores, bolas. Cumprimentos.
Olá.
Permitam-me entrar nesta discussão. Sou eng.º florestal, e trabalho na AFN, mas espero responder sabendo ver as coisas de forma distinta.
As árvores classificadas de Interesse Público encontram‐se protegidas com um estatuto semelhante ao do património edificado classificado, sendo a Autoridade Florestal Nacional (AFN) responsável APENAS pela sua classificação, sempre a pedido ou com o consentimento do proprietário.
A gestão é da responsabilidade do proprietário que, no entanto, só deverá intervir após a autorização e supervisão da AFN.
Quem tem árvores no espaço público tem de saber muito bem gerir responsabilidades , quer da parte aérea quer da parte radicular. Por vezes, por muito que custe, torna-se necessário podar, desramar, ou até derrubar essas árvores, o que poderá levar à sua desclassificação. Por muito que nos custe.
Esta discussão deveria ser alargada às construções que não têm em conta as árvores nos espaços públicos, ou ao planeamento de jardins e arruamentos onde por vezes a escolha das árvores não é a mais correcta.
Um abraço
Luis CR
Luís, obrigada pelo comentário e seja muito bem-vindo à discussão. Talvez o Luís não saiba, mas esta árvore foi classificada “à revelia” do seu proprietário (a CML) que tinha planeado no local construir uma rotunda. Foram os moradores da zona que pediram a classificação da árvore (à então DGRF em 2005), acredito que se a árvore não tivesse sido classificada já teria sido abatida, não porque ela seja perigosa ou porque tenha perdido alguma das suas características monumentais, mas, apenas, porque o seu proprietário tem outros interesses para este local. Eu e todos aqueles que se importam com esta árvore contávamos apenas com a AFN para a proteger.
Este comentário vem um pouco fora de horas, mas hoje dia 9/9/2011 acho que esta nossa praceta foi mais uma vez alvo de perseguição pelas “autoridades”. Neste momento não estou em Lisboa mas explicaram-me o que se passou. Penso que temos de fazer algo pois acho que estão a ir longe de mais, temos de pagar o selo de morador, até ai concordo, mas andarem a caça a multa da forma que foi feita não pode ser. A CML, a EMEL e afins que criem lugares onde temos passeios sem qualquer utilidade desde sempre!!! que criem lugares junto ao muro pois são lugares como outro qualquer!! que criem lugares em frente a antiga oficina que tinha a bomba de gasolina pois era o acesso ao interior da mesma mas já não existe a muito. Mas em relação a arvore que conheço desde criança, há 37 anos na qual brinquei como as crianças hoje ainda brincam, deixa-na estar sossegada pois ela transmite uma energia e uma beleza única ou talvez possam plantar uns quantos eucaliptos para a industria do papel!!
Um abraço a todos e temos de fazer algo!!
[...] Assim Se Condena Uma Árvore à Morte Árvores de Portugal. [...]
[...] triste país, chega-se ao cúmulo de desclassificar uma árvore classificada (Árvores de Portugal)… como se um monumento pudesse deixar de o ser antes de se fazer tudo [...]