Ridículo

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Esta foi a escola primária na qual estudei, a Escola do Rodrigo, no bairro do mesmo nome, na Covilhã.

No meu tempo, longe de imaginarmos telemóveis, consolas de jogos ou Internet, todas as brincadeiras nos intervalos das aulas se processavam no exterior, excepto em dias de temporal.

Em dias de canícula, o recreio e as salas de aula beneficiavam da sombra de duas belíssimas tílias. Já lá vão muitos anos, é certo, mas desses dias não recordo o calor como algo que nos preocupasse, pelo menos não tanto como a ideia de uma chamada ao quadro para resolver um problema de Matemática ou a ideia de apanharmos duas ou três valentes reguadas.

Também não recordo nenhum acidente, por menor que fosse, que tivesse envolvido as tílias do recreio, apesar das dezenas de crianças que brincavam sob as suas copas, todos os dias. No espaço exterior, que nem sequer era vedado, facilmente arranjávamos utensílios de brincadeira como ferros ou pedras, algumas de dimensão considerável. Por isso, acreditem, não eram as tílias quem colocava a nossa segurança em risco.

Porém, com o passar dos anos, os tempos foram mudando e a segurança tornou-se (quase) uma obsessão. Suponho que esse tenha sido o motivo pelo qual a escola foi vedada e o chão cimentado. Alguém terá achado que, dentro dessa suposta política de segurança, convinha igualmente rolar as tílias. Apesar de não ser segredo para ninguém, que esta prática debilita as árvores, diminuindo a sua longevidade e originando rebentos de inserção mais frágil.

O que aconteceu foi que, rolagem após rolagem, as tílias nunca mais recuperaram as suas copas que inundavam de verde refrescante, ano após ano, o pátio principal da escola. Desnudadas as árvores, incapazes de desempenhar a sua função, o pátio do recreio tornou-se num espaço tórrido e desconfortável.

Nada que a muitas vezes subestimada arte do desenrascanço, a grande contribuição dos portugueses para o mundo, não tenha conseguido resolver: se as árvores não dão sombra, coloca-se uma tela, quem sabe, made in China, para fazer sombra.

E as salas, como se resolve o problema do aquecimento das salas? Instalando aparelhos de ar condicionado (como se pode verificar pela imagem mais à direita). O contribuinte paga o progresso…

Confesso que não consigo compreender a utilidade de uma árvore ornamental que não embeleza, nem dá sombra ao local onde está plantada. Será que estas tílias se mantêm como exemplo prático do que não se deve fazer a uma árvore? Será que no dia 21 de Março, os meus colegas professores desta escola levam os seus alunos ao recreio, apontam para estas árvores e exclamam: meninos, isto é o que não se deve fazer a uma árvore!

Uma coisa eu sei. Estas tílias, tal como a pseudotsuga de que falei no outro dia, faziam parte daquilo que classifico como as árvores da minha vida, ou seja, exemplares que ajudaram a moldar o meu conceito de árvore, espécimes que ajudaram a criar o meu amor por estes seres magníficos. Tivesse eu crescido numa escola de árvores roladas e teria tido muito mais dificuldade em perceber o que é uma árvore.

(Em anos mais recentes, foi plantada, ao centro, uma terceira tília. Este ano, como se pode constatar pela imagem mais à esquerda, tirada no início da Primavera passada, alguém decidiu dar-lhe tratamento similar às duas tílias mais velhas. A beleza, já se sabe, incomoda muito gente.)

  1. carolina
    Publicado 21 de Agosto de 2011 às 2:42 | Link

    infelizmente é assim que TODAS as tílias são podadas aqui em Viana. E nas escolas há muito que já desapareceram. Nas escolas por onde passei já não existem as árvores com quase 20 metros que tão boa companhia nos faziam… Em vez dessas árvores estão agora edificios, edificios e edificios. “Nós”, humanos, achamos que qualquer canto “vazio” é para ser ocupado com cimento.

  2. Rúben Vilas Boas
    Publicado 21 de Agosto de 2011 às 8:55 | Link

    Como é que isto é possível???
    Isto merecia prisão igual aos anos de recuperação das tílias, se é que vão recuperar. Desculpem, mas às vezes apetece dizer estas coisas! É claro que é preferível educar as pessoas e não penalizá-las.
    Será que as pessoas não param para pensar um bocadinho? Para fazerem isto ou são mesmo burrinhas ou então fazem de conta, e aí é pior, são insensíveis e gananciosas.

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