A Câmara Municipal de Loulé volta ao ataque às suas árvores.
Mais abates sem aviso antecipado (ver a série de textos “II Exposição Sobre o Abate de Árvores no Concelho de Loulé” no blogue MAC Loulé). Por arremedo de informação, esta folha de papel colada nas árvores, onde a principal preocupação são os carros estacionados e a justificação da intervenção se fica por duas linhas e meia. Continua por ser apresentado qualquer estudo ou sequer uma opinião técnica que fundamente esses abates. A supressão de mais de 99% das copas das sobreviventes, essa não tem qualquer justificação possível. É pura ignorância e do pior tipo: a ignorância arrogante.
Interessante é relembrar que, aquando da minha conversa com o senhor vice-presidente da CML, relativa ao abate das tílias na Praça da República, me ter sido garantido que neste concelho, desde que ele tinha assumido o cargo, este tipo de intervenção (podas drásticas e rolagens) tinham sido banidas das práticas camarárias. A intervenção na maior araucária do concelho e esta recente razia das árvores da Av. 25 de Abril provam exactamente o contrário.
Por outro lado, as últimas imagens mostram porque as árvores em Loulé estão condenadas a viver pouco tempo. Neste local há espaço de sobra para alargar as caldeiras. Em vez disso, cortam-se as raízes mas as caldeiras voltam a ficar do mesmo tamanho. Então, para que se mexeu?
Cruel ironia é, no mesmo local, se apelar à colaboração dos munícipes (sim, os mesmos que foram sobranceiramente ignorados quando se decidiu abater e arrasar o verde desta avenida) na “preservação do ambiente”. Olha para o que eu digo…
Mas as árvores em Loulé continuam a ser úteis. Pelo menos no Natal. Poupam-se uns tantos postes de fixação da iluminação festiva (imagem 5). Se calhar, até vamos ter um efeito muito mais bonito sem todas aquelas frondosas copas a atrapalhar.




Apetece dizer, o rei vai nu… A Câmara Municipal de Loulé demonstrou, com esta ação, se dúvidas houvesse, a profunda desorientação com que gere o património arbóreo do seu concelho, determinada em criar e perpetuar um ciclo de destruição: primeiro poda de forma radical e desastrosa, depois as árvores acabarão por definhar e, por último, com o passar do tempo, terá o argumento final que necessitava para as mandar cortar, mesmo que tenha que ser no Dia da Árvore!
Não há, de facto, pior arrogância do que a que emana da ignorância. A ignorância de quem julga que plantar duas ou três árvores, apaga o crime de ter podado ou deixado morrer as árvores que as gerações que nos precederam nos deixaram em legado.
Há tempos, no meu blogue, citava um livro espanhol sobre as árvores de uma pequena cidade castelhana. O seu autor, Pedro Antonio Fernández, agradecia, nos seguintes termos, àqueles que plantaram, no passado, as árvores de hoje:
Há uma coisa que podemos ter a certeza relativamente à autarquia de Loulé. É que aos netos dos atuais louletanos apenas vai legar uma história de destruição.
Isso é uma triste realidade. Nos dias atuais as cidades parecem existir, para os administradores “públicos” e alguns cidadãos,apenas para os carros. Aqui no Brasil não é diferente, para beneficiar o uso dos carros tentaram retirar árvores da Rua Gonçalo de Carvalho, alargar o leito da rua e também asfaltar seu belo pavimento de pedras. Com o mesmo objetivo nossa Câmara de “Representantes” não votou uma lei que iria declarar 70 “Túneis Verdes” de nossa cidade como Áreas de Uso Especial, preservando suas árvores. Segundo a Secretaria do Meio Ambiente municipal e a maioria da Câmara Municipal de Vereadores isso “atrapalharia obras viárias para a Copa de 2014″.
Será apenas por ignorância que eles assim decidem de maneira irresponsável?
A nós que discordamos dessas insanidades resta não silenciar, resistir a esses atos de barbarismo!
Cesar,
Em muitos aspetos, desconheço a realidade do Brasil, mas aqui em Portugal, acredita, nunca se plantaram tantas árvores como agora…Por parte das câmaras municipais (prefeituras), movimentos de cidadãos, empresas, campanhas comerciais, etc. Parece que, de repente, plantar árvores apaga todos os nossos crimes ambientais.
Como é óbvio, não sou contra que se plantem mais árvores, embora me questione sobre os (reais) motivos de muitas destas iniciativas, que nalguns casos não são mais do que mero marketing verde, e sobre o futuro de muitas dessas árvores.
Loulé faz parte desse enorme lote de cidades mais preocupadas com as aparências, do que com a essência. Plantam-se árvores, ao mesmo tempo que se destroem as que as gerações anteriores nos legaram.
Insisto, mais importante do que plantar novas árvores é cuidar das que os nossos avós nos deixaram. Ou, de outra forma, nunca teremos túneis verdes nas nossas cidades, como o da Gonçalo de Carvalho, em Porto Alegre.
Abraço.
P.S. – O problema do futebol no Brasil é o mesmo de Portugal, tem por detrás uma indústria com demasiado poder junto de quem decide. A própria FIFA tem um poder desmesurado…